Capítulo 3 A cicatriz que me arruinou

Ponto de vista de Ethan

"Você realmente não se lembra de mim?"

Parei de andar. Ele parou meio segundo depois, já virado na minha direção. Já esperando.

Mentir. Esse era o plano inteiro. Mentir e continuar mentindo.

"Não."

Respondi rápido demais. Seco demais. Aquele tipo de não que responde a uma pergunta diferente.

Os olhos dele percorreram meu rosto do mesmo jeito que tinham percorrido o gelo a noite toda — sem pressa, como se ele ainda não tivesse terminado de olhar.

Então ele sorriu. Não o sorriso torto do gelo. Algo menor. Como se tivesse me pego e ainda estivesse decidindo o que fazer com a captura.

"Resposta errada."

Ele seguiu em direção ao vestiário e me deixou parado exatamente onde qualquer um que dobrasse a esquina poderia ver direitinho como eu estava.

Ele sabia. Já sabia antes mesmo de pisar no gelo. E eu tinha dado a confirmação a ele em uma única sílaba.

Forcei minhas pernas a funcionarem. Um passo. Depois o corredor. Depois a porta.

A maioria dos caras já tinha saído — alguns retardatários vestindo jaquetas, fazendo planos para ir ao Gino's. Asher cruzou o olhar comigo do outro lado da sala, com as sobrancelhas erguidas. Balancei a cabeça. Agora não.

Ares estava no lugar dele, de costas para mim, amarrando os tênis como se o que tinha acontecido no corredor nunca tivesse existido.

"Certo, escutem!" A voz do treinador Harlan encheu a entrada. "Quem ainda não conhece ele — este é Ares Cole. Transferido. Ala. Vocês viram o que ele fez lá fora hoje à noite, então não preciso vender o jogo dele pra ninguém."

Alguns assobios. Um taco bateu nos armários. Asher gritou: "O garoto tem um canhão, treinador!"

Ares se levantou e fez uma saudação preguiçosa com dois dedos para o grupo. Sem discurso. Sem um feliz por estar aqui. Nada que alguém pudesse citar depois.

"Espero que todos façam com que ele se sinta bem-vindo", disse o treinador. "Cole tem um conjunto de habilidades único. Temos sorte de ter ele."

Conjunto de habilidades único. O treinador não fazia ideia.

Os caras foram para cima dele — tapinhas nos ombros, perguntas sobre o último time dele, sobre o chute. Ele respondia com facilidade, suave, sem nada daquilo que tinha direcionado a mim no corredor. Ele conduzia a sala do mesmo jeito que conduzia o gelo. Nada desperdiçado. Nada revelado.

Asher parou ao meu lado. "Você tá bem? Tá com cara de quem viu um fantasma."

"Tô bem."

"Você vive dizendo isso."

"Porque continua sendo verdade."

Ele levantou as mãos. "Tá bom, capitão. O que você disser." Lançou um olhar para Ares, que agora ria de alguma coisa que um dos defensores tinha dito. "Mas ele é bom mesmo. Tipo, irritantemente bom. A gente precisava de um ala com mãos daquelas."

"É", eu disse. "Que sorte a nossa."

Fiquei observando e montando o caso de que eu estava errado. A cicatriz era coincidência. Eu tinha bebido demais — a varanda, a chuva, a boca dele como resposta para uma pergunta que eu nem sabia que estava fazendo. Rostos se confundem. Podia ter sido qualquer um.

Podia ter sido.

Então Ares olhou para mim do outro lado do vestiário. Dois segundos, talvez três. Tempo suficiente para desmontar o caso inteiro. Você sabe exatamente quem eu sou, e eu não vou a lugar nenhum.

Fui o primeiro a desviar o olhar. De novo.

Ele voltou para a história de Martinez, concordando com a cabeça, e os olhos dele continuavam encontrando o caminho de volta até mim. Não encarando. Avaliando. Como se eu fosse um disco que ele pretendia roubar e estivesse escolhendo o momento certo.

Donny apareceu ao meu lado com sua prancheta. Sessenta e três anos, no programa desde antes de eu nascer — e tudo o que Donny sabia, o prédio inteiro ficava sabendo até sexta-feira.

"Sorte a sua, capitão", disse ele, sem erguer os olhos do inventário. "O transferido é seu novo companheiro de quarto."

"O quê?"

"A moradia familiar está lotada. Sua mãe já autorizou — o técnico ligou pra ela hoje de manhã." Ele semicerrrou os olhos por cima dos óculos. "Ele vai ficar no seu quarto. Você tá com aquela cara, Drake."

"Que cara?"

"De quem acabou de comer frutos do mar estragados." Ele bateu no meu ombro e saiu arrastando os pés em direção ao depósito de equipamentos. "Boa sorte, garoto."

Meu quarto. A única porta na minha vida que fechava por completo.

E a minha mãe tinha dito sim sem nem me perguntar.

A casa na Maple Street parecia como sempre — revestimento branco, venezianas azuis, a luz da varanda amarela contra a escuridão de outubro. O carro da minha mãe na garagem. Ao lado dele, um Honda prata caindo aos pedaços que eu não conhecia.

Ele já estava aqui.

Fiquei sentado na caminhonete com o motor ligado, as mãos no volante. Através das cortinas da cozinha: a silhueta da minha mãe, depois outra mais alta. Ele estava rindo. A mão dela subiu e deu um tapinha no ombro dele do jeito que fazia com todos os meus amigos.

Ela já gostava dele. Claro que gostava.

Desliguei o motor e entrei.

Lasanha. O jeito da minha mãe de dar boas-vindas sem precisar dizer isso. Ela estava tirando pão de alho do forno, e Ares estava encostado no balcão com um copo d'água, parado na minha cozinha como se morasse ali havia anos.

"Olha quem chegou", disse minha mãe, radiante. "Eu estava justamente conhecendo seu novo companheiro de equipe. Ares, este é Ethan. Ethan, Ares."

"Já nos conhecemos", eu disse.

Os olhos de Ares brilharam. "Rapidamente."

"O pessoal da moradia ligou esta tarde", minha mãe continuou, sem perceber nada daquilo. "Eu disse que ficaríamos felizes em ajudar. Deus sabe que temos espaço de sobra." Ela fez um gesto para a casa ao nosso redor — três quartos, dois banheiros, grande demais para nós dois desde que meu pai foi embora. "Além disso, vai ser bom ter outro jogador de hóquei em casa. Talvez você consiga impedir Ethan de ficar emburrado o tempo todo."

"Eu não fico emburrado."

"Fica, sim, e muito", disse minha mãe, me entregando um prato. "Ponha a mesa."

O jantar seguiu no ritmo das respostas dele. Cidade natal, último programa, família — a mãe enfermeira, o pai fora de cena desde que ele tinha doze anos, hóquei desde que aprendeu a andar. Respeitoso, charmoso, o tipo de hóspede que sabia exatamente o que uma mãe queria ouvir.

— Eu me transferi algumas vezes — ele disse, empurrando a lasanha pelo prato. — O último programa não combinou muito comigo. Mas estou com uma boa sensação sobre Ridgewood.

Mamãe sorriu. — Bem, estamos felizes em ter você aqui. Não estamos, Ethan?

— Felicíssimo — eu disse.

O canto da boca dele se contraiu.

Depois do jantar, eu o conduzi para o andar de cima. O corredor era estreito — fotos de família de um lado, meus antigos prêmios acadêmicos do outro, tudo que Mamãe nunca tirou dali. Ele parou diante de uma foto minha aos catorze anos, segurando um troféu de campeonato, com um dente da frente faltando.

— Fofo — ele disse.

— Continua andando.

Meu quarto ficava no fim do corredor. Eu o tinha deixado cada vez mais despojado ao longo dos anos — uma cama, uma escrivaninha, uma cômoda, um armário cheio de equipamento. A segunda cama já estava arrumada contra a parede oposta. Lençóis limpos. Travesseiro extra. Coisa da Mamãe.

Ares largou a bolsa de viagem sobre o colchão e observou o quarto devagar — a bandeira da Ridgewood, a camisa emoldurada da minha primeira temporada como capitão, a janela dando para o quintal.

— Quarto legal — ele disse. — Bem minimalista. Bem “não passo muito tempo aqui porque sou ocupado demais sendo perfeito”.

Deixei minha mochila perto da porta. — Eu não estava esperando visita.

— Claramente. — Ele fez um gesto para as paredes nuas. — Sem pôsteres? Sem fotos? Você vive como um espião, Drake.

— Eu vivo como alguém que nunca está aqui.

Ele ergueu os olhos para mim ao ouvir isso. Sustentou o olhar por um instante mais do que a frase merecia. — É — disse baixinho. — Aposto que não mesmo.

Encontrei coisas para fazer com a minha mochila. Abrir o zíper. Fechar o zíper de novo. O quarto nunca tinha parecido pequeno até abrigar alguém que observava daquele jeito — a respiração dele, o radiador começando a funcionar, cada som agora tinha uma testemunha.

Ele desfez a mala rápido e de forma eficiente, sem desperdiçar movimento, como alguém acostumado a quartos desconhecidos. Camisas na cômoda. Carregador ao lado da cama. Um livro de bolso com a lombada gasta, as bordas amaciadas de tanto manuseio — James Baldwin. Ele o colocou no criado-mudo, aberto com a capa para cima, do jeito que se deixa à mostra as coisas pelas quais se parou de pedir desculpas.

— Eu fico no chão, se você quiser — ele disse sem erguer os olhos. — A cama está ótima, mas não quero te apertar.

— A cama está ótima.

— Ótimo. — Ele se endireitou e se virou. — Porque, na verdade, eu não ia dormir no chão. Só queria ver se você ia me obrigar.

— Você já está na minha casa. Por que seria no chão que eu traçaria o limite?

Isso arrancou dele um sorriso de verdade — rápido, surpreendente, como se eu tivesse passado num teste que nem sabia que estava fazendo. — Justo, Capitão.

Ele tirou o moletom, e eu olhei para a minha escrivaninha. As tatuagens se moviam na borda da minha visão, linhas escuras sobre músculos, a cicatriz captando a luz do abajur, e meu livro de cálculo não oferecia absolutamente nada.

— Pode olhar — ele disse. — Eu não mordo.

“Não é assim que eu me lembro.”

As palavras saíram antes que eu pudesse impedi-las.

Silêncio.

Eu me virei. Ele tinha parado, com a camiseta na metade do caminho sobre a cabeça. Ele a puxou para baixo e sustentou meu olhar.

“Então você se lembra.”

“Não foi isso que eu quis dizer.”

“Foi exatamente isso que você quis dizer.”

Eu não tinha nada a dizer.

Ele se sentou na beirada da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para mim. A pose arrogante tinha sumido. O que restava era algo mais quieto. Paciente. Alguém disposto a me esperar, não importava quanto tempo levasse.

“Eu não vou te expor, Ethan. Não é por isso que estou aqui.”

“Então por que você está aqui?”

Ele sustentou meu olhar por um longo momento. Então desviou primeiro — a primeira vez na noite toda.

“Talvez eu te conte algum dia”, ele disse. “Quando você estiver pronto para ouvir.”

Ele apagou o abajur. O quarto ficou escuro, exceto pela luz do refletor do quintal, alaranjada através das persianas. Os lençóis farfalharam. A respiração dele se estabilizou.

“Boa noite, capitão.”

Eu não respondi. Fiquei deitado por cima das cobertas, totalmente vestido, encarando o teto.

Ele estava a três metros de distância. Dois anos construindo uma vida sem rachaduras e sem testemunhas. Nada que alguém pudesse usar contra ele. Levou um dia.

O sono veio devagar, e trouxe o sonho.

Chuva. Música pulsando através das paredes. Vodca barata queimando minha garganta. Uma varanda — não, um porão — não, algum lugar escuro com teto baixo e corpos apertados demais uns contra os outros. Risadas no cômodo ao lado. Suor e cerveja derramada e alguma coisa doce. Hortelã, talvez.

E uma boca na minha.

Eu não consigo ver o rosto dele. Nunca consigo. Só a linha dos ombros, as mãos quentes nos meus quadris, o jeito como ele me beija como se eu fosse alguém que vale a pena desejar. Não Ethan Drake, capitão, garoto de ouro, bolsista. Só eu. Seja lá quem eu for.

O lábio dele se abre sob meus dentes. Gosto de cobre. Ele não se afasta. Ele me puxa para mais perto.

“Talvez no próximo verão”, ele sussurra contra a minha boca.

Então, escuridão.

Acordei ofegante.

3:47 no relógio da escrivaninha. Os lençóis enrolados nas minhas pernas, a pele úmida apesar do ar frio que saía da ventilação. No corredor, a velha fornalha ligou — o som com que eu tinha adormecido a vida inteira.

Por um segundo, esqueci que ele estava ali.

Então, do outro lado do quarto: respiração. Lenta. Constante. Acordado.

Virei a cabeça no travesseiro.

Ares estava deitado de costas, as mãos cruzadas atrás da cabeça, o rosto meio iluminado de laranja através das persianas.

Já estava acordado. Me observando.

“Você fala dormindo”, ele disse.

Tudo o que eu tinha dito no escuro, e nenhum jeito de saber quanto daquilo tinha tido testemunha. “O que eu disse?”

Ele não respondeu de imediato. Apenas continuou me olhando através da escuridão, os olhos refletindo a luz, a cicatriz prateada no lábio.

“Nada que eu já não soubesse.”

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