Capítulo 4 Companheiro de quarto do inferno

Ponto de vista de Ethan

Eu não dormi. Não de verdade.

Ares Cole estava respirando a pouco mais de dois metros de distância, e a porta do meu quarto não tranca. Esses eram os fatos com que eu tinha que lidar. Fiquei deitado de costas, remoendo tudo isso, enquanto a mancha de umidade acima da minha cama me observava — marrom nas bordas, apodrecida no meio, com o formato da Península Superior de Michigan, de algum vazamento que ninguém nunca se deu ao trabalho de consertar. Dezessete anos neste quarto, e eu nunca tinha olhado para ela de verdade. Às três da manhã, eu já a conhecia de cor. A ponta de Keweenaw. A curva longa e lenta do Lago Superior.

Cada rangido do colchão dele, cada arrastar do lençol sobre a pele, caía como uma mensagem enfiada por baixo da porta. Estou bem aqui. Eu sei o que você fez.

Eu piscava e via a cicatriz no lábio dele. Piscava de novo e estava no vestiário — aquela certeza fria na voz dele quando disse resposta errada.

Às 6h47, eu desisti. Pus os pés no carpete, o mais silenciosamente que consegui. Ele estava largado no colchão extra, de cueca boxer preta, um braço tatuado jogado sobre os olhos, o lençol descido até a cintura, a tinta no peito subindo e descendo a cada respiração. Olhei tempo suficiente para saber que estava olhando. Então peguei uma calça de moletom na cômoda e saí dali.

Banheiro do corredor. Dentes. A mesma rotina que eu vinha repetindo diante daquele espelho havia doze meses: uma noite de bebedeira. Não significa nada. Não faz de você nada.

Minha própria cicatriz tinha quase desaparecido. Mesmo assim, pressionei o polegar sobre ela. Ainda estava ali. No mesmo lugar que a dele, na mesma noite — eu abri o lábio dele e alguma coisa abriu o meu, e um ano dizendo que aquilo nunca aconteceu não tinha apagado nenhuma das duas marcas.

Quando voltei, ele já estava acordado, os cotovelos apoiados nos joelhos, o cabelo um desastre de sono. A luz entrando pelas persianas destacava cada linha de tinta nos ombros dele. Ele me lançou aquele meio sorriso torto, aquele em que a cicatriz repuxa no canto.

— Bom dia, colega de quarto. — A voz dele estava rouca. — Você sempre sai disparado assim, como se a casa estivesse pegando fogo?

Fui até o armário.

— O café da manhã é às sete. Minha mãe faz ovos. Não se atrase, ou ela vai te prender por vinte minutos falando de nutrição esportiva.

— Não vou correr esse risco.

Ele se levantou e se espreguiçou em algum ponto atrás de mim. Vesti uma camiseta limpa dos Wolves e mantive as costas viradas para ele o tempo todo. Este quarto me acomodou muito bem por dezessete anos. Bastou uma noite, e agora parecia moldado em volta dele.

Desci com minha mochila sem dizer mais nada.

April estava arrumando a mesa, cantarolando para si mesma. Ela atravessou a cozinha e me abraçou pela cintura, com dezenove anos nas costas e ainda fazendo isso. O mesmo xampu de morango que ela usava desde o ensino fundamental.

"Bom dia, Capitão Estrela." Ela se afastou, os olhos brilhando. "Vocês arrasaram ontem à noite. Aquele cara novo, o Ares — ele é humano mesmo? Aqueles gols? E ele vai ficar no seu quarto? Isso é loucura."

"É." Seco. Baguncei o cabelo dela do jeito que eu sempre fazia. "É temporário. Não faz disso um evento."

Tarde demais pra isso. As bochechas dela ficaram rosadas só de dizer o nome dele. Envolvi a caneca de café com as duas mãos e me agarrei a ela. April ainda acreditava que o irmão mais velho dela tinha tudo sob controle. O cara por quem ela estava corando tinha no celular a prova de que eu não tinha. Se Ares Cole tirasse isso dela, eu nunca recuperaria — nem pra ela, nem pra mim.

Mamãe apareceu carregando uma pilha de toalhas. "Ethan, querido, põe mais um prato. Seu colega de quarto vai descer?"

"Tá vindo."

Papai estava sentado na cabeceira da mesa, com o tablet apoiado, os óculos escorregando pelo nariz. "Ouvi dizer que o transferido marcou dois gols logo na primeira noite. O técnico deve estar nas nuvens. Vocês dois estão se dando bem?"

A caneca rangeu nas minhas mãos. "Tá tudo bem. Ele é... demais."

A escada respondeu antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa. Ares entrou usando calça de moletom cinza e uma camiseta preta lisa que não escondia nada dos braços pra baixo, e se movia como se já tivesse tomado café naquela cozinha em uma centena de manhãs.

"Bom dia, senhora Drake. Senhor Drake." Um aceno de cabeça para cada um. "April." Depois, aquela leve erguida do queixo, apontada direto pra mim. "Capitão."

Mamãe se virou do fogão com aquele olhar que ela faz quando vê um vira-lata que já decidiu adotar. "Ares, senta, senta. Como você gosta dos ovos?"

"Do jeito que saírem, tá perfeito."

Ele puxou a cadeira bem na minha frente. O joelho dele bateu no meu por baixo da mesa e eu me afastei num tranco, como se queimasse. Ninguém viu. Eu conferi.

April passou o suco de laranja pra ele, praticamente radiante. "Aquele chute de pulso no terceiro tempo — eu achei que o goleiro fosse sair andando do gelo."

Ele riu, baixo. "Seu irmão armou boa parte da jogada." Os olhos dele vieram pros meus e ficaram ali. "Não foi?"

"Só executei as jogadas." Enfiei o garfo nos ovos no segundo em que o prato tocou a mesa.

A conversa seguiu sem mim. Papai perguntou sobre a antiga escola dele. Mamãe ofereceu repetição antes mesmo de ele terminar a primeira porção. April se inclinava pra frente toda vez que ele abria a boca. Mantive o rosto neutro e fiquei de olho no relógio, e toda vez que o pé dele encontrava o meu por baixo da mesa eu contava quem estava olhando antes de me permitir me mexer.

Ele não estava só na minha casa. Estava em todos os cômodos da minha cabeça que eu tinha passado um ano inteiro lavando com mangueira.

Depois do café da manhã, subi para pegar minhas coisas. Os passos dele seguiram os meus pelo corredor, sem pressa, como se ele já mandasse naquele lugar. A porta do meu quarto se fechou com um clique atrás dele.

Fechei o zíper da bolsa com puxões curtos e bruscos. "Você não precisa fazer tudo aquilo lá embaixo."

"Fazer o quê?" Ele se apoiou na porta, os braços soltos, me observando.

"Agir como se a gente fosse próximo. Flertar com a minha irmã. Encantar meus pais." Virei-me para encará-lo. "Isso não é um jogo, Cole. Eu tenho uma bolsa. Uma vaga de capitão. Uma história errada e não sobra mais nada disso. Então, seja lá o que você acha que aconteceu no verão passado—"

"Eu não acho." Calmo. Um passo mais perto. A cicatriz pegou a luz. "Eu sei. Você me beijou. Você quis. Eu tive um ano inteiro para conviver com isso enquanto você tentava apagar."

Minhas costas encontraram a porta do armário. Ele estava perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro do sabonete na pele dele, perto o bastante para ver os olhos dele descerem até a minha boca e subirem de volta. Lá embaixo, a casa continuava sendo uma casa — a risada de April, água correndo — cada som lembrando o quão fina era aquela porta.

"Para", eu disse. "Só para."

Ele não se mexeu.

Soltei as palavras antes que elas pudessem significar alguma coisa. "Foi um erro."

O que veio depois foi pior do que qualquer coisa que ele poderia ter dito em resposta.

Ele ficou completamente imóvel. Nada se mexeu — nem as mãos, nem os olhos. A autoconfiança, o meio sorriso, a paciência: tudo sumiu de uma vez.

"Um erro." Ele experimentou a palavra como se estivesse verificando se ela cortava tão fundo saindo quanto tinha cortado ao entrar.

A verdade estava bem ali. Eu não disse nada.

Ele soltou um ar que queria ser uma risada e não conseguiu. "Passei um ano procurando você." Mais baixo agora. Mais áspero. "Doze meses. Duas transferências. Uma bolsa da qual eu desisti. Assisti àquele vídeo borrado tantas vezes que decorei o jeito que suas mãos ficavam na minha camisa."

Ele deu um passo para trás. O quarto pareceu ficar maior do que tinha o direito de ficar.

"Eu também", eu disse. Baixo demais. Tarde demais. "Estava procurando você."

Ele pegou a bolsa do chão e saiu sem olhar para trás. Escadas. Porta da frente abrindo. Porta da frente fechando.

Fiquei onde estava, com a palavra ainda parada na minha boca.

O que eu tinha feito?

O treino foi um inferno.

Não porque o técnico pegou pesado com a gente — ele sempre pega. Mas porque Ares não olhava para mim. Não passava para mim. Me dava exatamente o que os exercícios exigiam e nem uma coisa a mais. Ele patinava como uma máquina, todo precisão e sem fogo nenhum, e isso era pior do que qualquer meio sorriso debochado que ele já tivesse dirigido a mim.

O time percebeu. Asher continuava olhando de um para o outro com uma ruga na testa. Martinez perguntou se a gente tinha brigado. Está tudo bem. A mesma frase. A mesma mentira.

Em casa, larguei a mochila junto da porta da frente e subi direto.

A cama dele estava vazia. A mochila tinha sumido. O carregador, arrancado da tomada.

Por um segundo ruim, eu achei que era isso.

Aí encontrei a bolsa de viagem dele enfiada no canto do armário, meio aberta com o zíper. Ainda estava aqui. Só tinha saído por enquanto.

Sentei na beirada da minha cama e enfiei o rosto nas mãos. A mancha me encarava lá de cima. A ponta de Keweenaw. O Lago Superior.

Meu celular vibrou.

Sara.

Sara. Meu amortecedor. A garota com quem tinham me visto vezes o bastante pra as pessoas tirarem suas conclusões, e eu nunca corrigi nenhuma. Doce, bonita, segura. Ela não fazia ideia de qual era o trabalho que estava fazendo.

As pessoas já acham que a gente está namorando.

Então, antes mesmo de eu conseguir baixar o celular: Talvez a gente devesse tornar isso real.

Eu fiquei ali segurando o aparelho. O timing era péssimo.

Pensei no rosto do Ares quando a palavra caiu. Apagado, como uma luz quando alguém aperta o interruptor.

Pensei na chuva. Na boca dele. Talvez no próximo verão, sussurrado contra a minha.

Pensei na bolsa de estudos, no C na minha camisa, nos meus pais, na April. Todo mundo segurando uma versão do Ethan Drake que eu tinha construído pra eles segurarem.

Era essa a jogada. Um texto e a escola inteira teria sua história, e ninguém nunca mais me olharia e se perguntaria.

Digitei Vamos conversar amanhã. Apaguei. Digitei Sim. Apaguei também.

Enviei a única coisa que eu aguentava enviar: Almoço essa semana? Só nós dois.

Não era um sim. Era o sim covarde — perto o bastante pra mantê-la por perto, longe o bastante pra eu não ter feito de verdade. Eu deixei que fosse desse tamanho porque o tamanho real não cabia num quarto tão pequeno.

Lá embaixo, a porta da frente. Passos na escada. Lentos. Pesados.

Ares parou na porta do quarto. Cabelo úmido — tinha ficado até tarde no rinque, patinando sozinho. Olhos avermelhados nas bordas, o rosto sem deixar escapar nada. A armadura de volta, erguida e travada.

Ele foi até o armário, puxou a bolsa de viagem e começou a desfazer as coisas como se o quarto estivesse vazio.

—Ares...

—Não. — Ele não se virou. — Você deixou bem claro.

Deixei. Esse era todo o problema.

Ele se jogou na cama ainda vestido e virou as costas pra mim. A luz do poste lá fora cortava o quarto em faixas. Eu vi os ombros dele subirem e descerem até meus olhos arderem.

Meu celular acendeu mais uma vez.

Sara. Meio-dia na quinta? 🙂 Já transformando um talvez num compromisso no calendário, do jeito que ela transformava tudo.

Eu desliguei o celular e encarei o teto.

A mancha não tinha se mexido. Lago Superior, exatamente onde eu tinha deixado. E o Ares a dois metros de distância, mais longe do que ele jamais tinha estado.

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