Capítulo 4 Companheiro de quarto do inferno

Ponto de vista de Ethan

Eu não dormi. Nem de longe.

Ares Cole estava respirando a pouco mais de um metro abaixo de mim e a minha porta não tem tranca. Esses eram os fatos. Fiquei deitado encarando a mancha de água no teto — a que parece a Península Superior se você semicerrar os olhos com força — e repassando tudo, de novo e de novo. Dezessete anos neste quarto e eu nunca tinha dado a mínima para aquela mancha. Às três da manhã, eu já conhecia cada centímetro dela.

Toda vez que o colchão dele rangia ou o lençol roçava na pele, parecia que ele estava dizendo em voz alta: Estou bem aqui. Eu sei o que você fez.

Eu fechava os olhos e via a cicatriz no lábio dele. Abria e voltava para aquele vestiário, ouvindo ele dizer “resposta errada” como se não fosse nada.

Às 6h47 eu parei de fingir. Desci o mais silencioso que consegui. Ele estava largado no beliche de baixo, de cueca boxer preta, um braço tatuado sobre os olhos, o lençol chutado até a cintura. O peito subindo e descendo. Eu olhei por mais tempo do que devia. Depois peguei uma calça de moletom e caí fora.

Banheiro do corredor. Escovei os dentes. A mesma merda que venho dizendo para o espelho há um ano: uma noite bêbado. Não significa nada. Não faz de você nada.

Minha cicatriz já quase sumiu. Mesmo assim, pressionei o polegar nela. O mesmo lugar que a dele. A mesma noite. Eu abri o lábio dele e alguma coisa que se abriu dentro de mim nunca mais fechou de verdade. Só ficou quieta o suficiente para as pessoas pararem de notar.

Quando voltei, ele estava sentado, cotovelos nos joelhos, o cabelo uma bagunça. A luz da manhã batia em cada linha de tinta nos ombros dele. Ele me deu aquele meio sorriso torto em que a cicatriz repuxa.

— Bom dia, colega de quarto. Você sempre foge assim, como se o lugar estivesse pegando fogo?

— O café é às sete. — Virei para o armário para não ter que olhar para ele. — Minha mãe faz ovos. Não se atrase ou ela te prende por vinte minutos falando de nutrição do time.

— Não vou arriscar.

Ouvi ele se levantar e se espreguiçar atrás de mim. Vesti uma camiseta limpa dos Wolves e não me virei uma vez sequer. Este quarto me aguentou bem por vinte anos. Uma noite e já parecia que era dele.

Peguei minha mochila e desci sem dizer mais nada.

April estava pondo a mesa, cantarolando. Veio e me abraçou pela cintura, como sempre faz. Dezenove anos e ainda faz isso. O mesmo xampu de morango desde o ensino fundamental.

— Bom dia, Capitão Fodão. Vocês arrebentaram ontem. Aquele cara novo, o Ares — ele é humano? Aqueles gols? E ele vai ficar no seu quarto? Isso é insano.

— É. — Baguncei o cabelo dela. — É temporário. Não faz disso um evento.

Tarde demais. As bochechas dela ficaram rosadas só de dizer o nome dele. Eu envolvi a caneca de café com as duas mãos e segurei firme. A April ainda acha que o irmão mais velho dela está com a vida em ordem. O cara por quem ela está corando tem prova no celular de que eu não estou.

A mãe entrou com toalhas. — Ethan, põe mais um prato. Seu colega de quarto vai descer?

— Tá vindo.

O pai já estava à mesa, tablet erguido, os óculos escorregando no nariz. — Ouvi dizer que o transferido fez um gol e uma assistência na primeira noite. O técnico deve estar radiante. Vocês dois estão se dando bem?

Eu destravei a mandíbula. — Tá tudo bem. Ele é… intenso.

Passos na escada me salvaram de dizer mais. Ares entrou usando moletom cinza e uma camiseta preta lisa que não escondia porcaria nenhuma do que dava para ver abaixo das mangas. Se movia como se tivesse tomado café naquela cozinha a vida inteira.

— Bom dia, Sra. Drake. Sr. Drake. — Um aceno para cada um. — April. — Aí aquele leve levantar de queixo direto para mim. — Capitão.

A mãe ficou com aquela expressão que faz quando já decidiu adotar um cachorro de rua. — Ares, sente. Como você gosta dos ovos?

— Do jeito que vierem está perfeito.

Ele puxou a cadeira bem na minha frente. O joelho dele encostou no meu por baixo da mesa e eu me afastei num tranco, como se queimasse. Ninguém viu. Eu conferi.

April passou o suco de laranja para ele, praticamente brilhando. — Aquele chute de pulso no terceiro período… eu achei que o goleiro ia sair do gelo.

Ele riu, baixo. — Seu irmão armou quase tudo. — Os olhos prenderam nos meus e ficaram ali. — Não foi?

— Só executei as jogadas. — Espetei meus ovos no segundo em que o prato encostou na mesa.

A conversa seguiu sem mim. O pai perguntou da escola antiga dele. A mãe ofereceu repetir antes de ele terminar o primeiro prato. A April se inclinava toda vez que ele abria a boca. Eu mantive o rosto neutro e fiquei olhando o relógio. Toda vez que o pé dele encontrava o meu por baixo da mesa, eu contava quem estava olhando antes de tirar o meu.

Ele não estava só na minha casa. Estava em cada cômodo da minha cabeça que eu tinha passado um ano tentando esfregar até ficar limpo.

Depois do café da manhã, subi para pegar meu equipamento. Os passos dele me seguiram pelo corredor, sem pressa, como se ele já fosse dono do lugar. A porta clicou ao se fechar atrás dele.

Fechei o zíper da mochila com força. “Você não precisa fazer tudo aquilo lá embaixo.”

“Fazer o quê?” Ele se encostou na porta, braços soltos, me observando.

“Agir como se a gente fosse grudado. Flertar com a minha irmã. Encantar meus pais.” Virei para ele. “Isso não é um jogo, Cole. Eu tenho uma bolsa. Um lugar de capitã. Uma história errada e não sobra nada. Então, seja lá o que você acha que aconteceu no verão passado—”

“Eu não acho.” Calmo. Um passo mais perto. A cicatriz pegou a luz. “Eu sei. Você me beijou. Você quis. Eu tive um ano inteiro pra conviver com isso enquanto você tentava apagar.”

Minhas costas bateram na porta do armário. Ele estava perto o bastante para eu sentir o cheiro do sabonete na pele dele, perto o bastante para ver os olhos dele descerem até a minha boca e voltarem. Lá embaixo, a casa continuava sendo normal — April rindo, água correndo — e isso só fazia a porta parecer mais fina.

“Para”, eu disse. “Só para.”

Ele não se mexeu.

Eu soltei as palavras antes que elas pudessem significar qualquer outra coisa.

“Foi um erro.”

Ele ficou completamente imóvel. Não as mãos. Não os olhos. A confiança, o meio sorriso, a paciência — tudo isso foi cortado, limpo, de uma vez.

“Um erro.” Ele disse devagar, como se estivesse testando o quanto ainda cortava.

A verdade estava bem ali. Eu não disse nada.

Ele soltou um ar que quase virou risada e não virou. “Eu passei um ano te procurando.” Mais baixo. Mais áspero. “Doze meses. Duas transferências. Uma bolsa que eu larguei. Eu assisti àquele vídeo borrado tantas vezes que decorei o jeito que suas mãos ficavam na minha camisa.”

Ele deu um passo para trás. Os quatro pés entre nós podiam muito bem ser a casa inteira.

“Eu também.” Baixo demais. Tarde demais. “Te procurando.”

Ele pegou a mochila e foi embora sem olhar para trás. Escada. Porta da frente abrindo. Porta da frente fechando.

Eu fiquei ali com a palavra ainda na boca e sem nenhum jeito de engolir de volta.

O treino foi um inferno.

Não porque o técnico pegou pesado — ele sempre pega. Mas porque Ares não olhava para mim. Não passava a bola para mim. Me dava exatamente o que os exercícios exigiam e nada além. Patinava como uma máquina. Tudo precisão, zero fogo. Isso era pior do que qualquer sorriso de canto que ele já tivesse jogado na minha cara.

O time percebeu. Asher ficava olhando de um para o outro com aquela ruga na testa. Martinez perguntou se a gente tinha brigado. Está tudo bem. A mesma frase. A mesma mentira que eu vinha usando havia um ano, antes mesmo de Ares aparecer para precisar dela.

Cheguei em casa, larguei a mochila perto da porta e fui direto para o andar de cima.

O beliche dele estava vazio. A mochila tinha sumido. O carregador, arrancado da tomada.

Por um segundo, eu achei que era isso.

Aí encontrei a mala dele enfiada no canto do armário, meio aberta. Ainda aqui. Só tinha sumido por enquanto.

Sentei na beirada da cama de baixo e enterrei o rosto nas mãos.

O celular vibrou. Sara.

Sara — a garota com quem eu tinha sido visto vezes o bastante para as pessoas tirarem suas próprias conclusões, e eu nunca, nenhuma vez, corrigi. Doce. Bonita. Segura. Ela não fazia ideia de que papel estava desempenhando para mim.

Todo mundo fica perguntando se a gente tá junto 😅 Eu continuo dizendo que não sei. Tô dizendo a coisa certa?

Era isso. Sem pressão. Sara nunca forçava. Esse era o objetivo inteiro, e eu tinha construído assim de propósito.

Fiquei ali encarando a tela. Existia uma versão disso em que eu digitava quatro palavras e toda a questão do Ethan Drake era respondida para todo mundo, de uma vez, para sempre, em voz alta. Sara diria sim. Ela estava esperando havia dois anos para dizer sim.

Pensei no rosto de Ares quando a palavra “erro” caiu — como ver alguém fechar uma porta que vinha mantendo aberta havia um ano. A chuva. A boca dele. Talvez no próximo verão, sussurrado contra a minha.

E, por baixo de tudo, a bolsa, o C na minha camisa, meus pais, April — todo mundo segurando uma versão de mim que eu tinha construído tijolo por tijolo com as minhas próprias mãos.

Digitei Diz o que você quiser. Apaguei. Digitei Você não tá dizendo nada errado. Apaguei também.

Virei o celular com a tela para baixo em cima da escrivaninha sem mandar uma única palavra. E, de algum jeito, aquilo foi a pior coisa que eu fiz o dia inteiro — porque eu sabia que ia usar ela, cedo ou tarde. Eu só ainda não tinha escolhido o dia.

Lá embaixo, a porta da frente. Passos na escada. Lentos. Pesados.

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