Chapter 2
O corredor onde o desconhecido empurrou Clara era tão estreito que o ombro dela raspou no concreto. Um cano suado corria acima. A luz de emergência piscava em vermelho, mostrando flashes curtos: barba por fazer, boné baixo, mandíbula dura. Nada suficiente para identificá-lo. Tudo suficiente para saber que ele não era segurança comum.
"Solta meu braço", Clara sussurrou.
"Quando você parar de correr na direção errada."
"Eu não pedi resgate."
"Percebi. Você prefere morrer com autonomia."
A resposta a irritou porque tinha timing demais para um homem armado de segredos. Ela puxou o braço. Ele soltou, mas apontou para a frente.
"Direita no fim. Depois a escada de manutenção."
"Como você sabe?"
"Porque já usei todas as saídas desse estádio antes de elas terem câmera."
Atrás deles, a porta metálica recebeu uma pancada. Clara se mexeu antes do medo terminar de subir. O desconhecido correu ao lado dela sem fazer barulho, como atleta acostumado a acelerar em espaço curto. Quando chegaram ao fim, ele segurou sua cintura por meio segundo e a virou para a direita antes que ela entrasse num corredor iluminado.
Clara bateu a mão no peito dele. "Não encosta em mim."
"Então não vira vitrine."
Um facho de lanterna passou a menos de um metro. Ela prendeu a respiração. O desconhecido a puxou para dentro de um nicho atrás de painéis elétricos. Dessa vez Clara não protestou. O corpo dele ficou colado ao dela, não por intimidade, mas por falta de espaço. Ainda assim, a proximidade bateu onde não devia. Ele era alto, sólido, e respirava com controle. Ela respirava como alguém que tinha engolido fogo.
Pelo vão entre os painéis, dois seguranças passaram.
"Silas quer o celular inteiro", disse um.
"E a jornalista?"
"Acidente em área restrita."
Clara fechou os olhos. A frase tinha o mesmo cheiro de todas as mentiras oficiais. Pane. Confusão. Acidente. O pai dela tinha sido esmagado por palavras assim.
Quando os passos sumiram, o desconhecido falou perto da orelha dela:
"Seu vídeo está no aparelho?"
"Está em lugares que você não precisa saber."
"Mentira. Você tentou subir e o sinal caiu."
"Você estava me vigiando?"
"Eu estava vigiando Silas."
Isso a calou. Ele abriu uma portinhola de manutenção, tirou uma jaqueta preta e jogou para ela.
"Veste, Clara. Seu crachá virou alvo."
O modo como ele disse seu nome, sem pergunta, sem surpresa, gelou algo nela. Clara vestiu, mas manteve o celular no bolso da frente, com a mão em cima.
"Se você trabalha para o Silas..."
"Eu teria deixado você na escada."
"Talvez queira o vídeo para vender melhor."
"Talvez." Ele abriu outra porta e espiou. "Mas nesse momento eu sou o único motivo para você ainda estar discutindo."
Eles saíram numa galeria subterrânea que dava para a lateral do campo. Clara ouviu, distante, o ensaio de som do estádio: torcida gravada, aplausos artificiais. Lá em cima, a festa da final; ali embaixo, homens decidindo quem podia ser machucado para mover dinheiro invisível.
"Preciso chegar ao centro de mídia", ela disse.
"É o primeiro lugar onde vão te cercar."
"Tenho uma editora lá."
"Sua editora está sem crachá neste momento. Seu e-mail institucional vai cair em menos de dez minutos. Seu nome já deve estar numa ocorrência interna."
Clara parou. "Como você sabe disso?"
Ele também parou, impaciente. "Porque Silas não improvisa. Ele apaga pessoas por procedimento."
"Você fala como vítima."
Por um instante, a expressão dele falhou. Não dor. Algo mais velho. Depois o boné voltou a esconder seus olhos.
"Continua andando."
A saída da galeria dava para uma área de docas, onde caminhões descarregavam equipamentos. O desconhecido esperou o gerador roncar mais alto e conduziu Clara por trás de uma carreta. A calma dele no caos a fez confiar por um segundo e desconfiar no seguinte.
No bolso, o celular vibrou. Clara olhou: um arquivo de vídeo recuperado, não enviado. A bateria em vinte e um por cento.
"Tenho que duplicar isso", ela murmurou.
"Não usa a rede do estádio."
"Eu sei trabalhar."
"Então trabalha viva."
A frase acertou nela de um jeito irritante. Clara abriu a boca para responder, mas um homem de colete amarelo saiu de trás de uma empilhadeira e apontou uma pistola.
"Achei."
O desconhecido reagiu antes que o homem terminasse a palavra. Empurrou Clara para baixo, segurou o pulso armado e bateu o cotovelo no rosto dele. A arma caiu. Clara pegou um extintor e, quando outro segurança surgiu, disparou espuma no rosto dele. O desconhecido olhou para ela com algo que quase parecia aprovação.
"Boa."
"Não foi por você."
"Melhor ainda."
Eles correram até uma van sem identificação. Ele abriu a porta lateral com uma chave que tirou do bolso. Clara hesitou.
"Nem pensar."
"Você quer ficar no estacionamento com homens armados?"
"Quero saber para onde está me levando."
"Para longe das câmeras de Silas. Depois você decide se pula."
Clara encarou a van, depois o corredor de onde vinha o barulho de passos. Entrou.
Ele fechou a porta e assumiu o volante. A van passou por uma cancela de serviço que se abriu antes da leitura da placa. Clara notou.
"Você tem acesso demais para um bom samaritano."
"Eu nunca disse que era bom."
"Disse para eu não confiar no centro de mídia. Em quem eu confio, então?"
Ele dirigiu sem olhar para ela. "Em ninguém que ganhe com seu silêncio."
As luzes do estádio ficaram para trás. Clara respirou pela primeira vez, mas o alívio veio. O homem salvara sua vida, sabia seu nome, driblava sistemas e se recusava a dizer quem era.
Quando chegaram a uma rua lateral, ele parou sob um viaduto. A chuva começava fina, riscando o para-brisa.
"Desce aqui", disse ele. "Pega um táxi, vai para um lugar fora do seu cartão, tira o chip e não liga para ninguém do torneio."
"E o vídeo?"
"Esconde até saber quem quer te matar."
Clara destravou a porta, mas não saiu. "Você está nessa história."
Ele olhou para ela então, e por um segundo a aba do boné não bastou. Havia uma cicatriz pequena perto da sobrancelha. Um rosto que parecia familiar não por proximidade, mas por manchete antiga.
Antes que Clara encaixasse a memória, ele virou o rosto.
"Esquece que me viu."
"Eu sou jornalista."
"Então escreve: nenhum monstro trabalha sozinho."
Um carro preto dobrou a esquina devagar. O desconhecido viu pelo retrovisor e praguejou.
"Tarde demais."
Ele arrancou de novo, jogando Clara contra o banco. A van entrou na avenida molhada, perseguida pelos faróis pretos, e Clara percebeu que não tinha sido resgatada.
Tinha sido arrastada para dentro de uma guerra que já existia antes dela.
