Chapter 3

A van cortou a marginal como se a cidade inteira tivesse virado túnel. Faróis se alongavam na chuva, motos buzinavam, um ônibus freou quando o desconhecido entrou entre duas faixas. Clara segurou a alça e tentou não demonstrar medo. Falhou.

"Você dirige como se tivesse inimigos."

"Tenho."

"Quantos?"

"Hoje? Menos do que amanhã."

O carro preto continuava atrás. Não colado. Profissional. Clara viu isso e sentiu o estômago cair. Gente desesperada acelera demais. Gente treinada espera a rua fechar.

"Quem são eles?"

"Equipe externa do Silas."

"Segurança privada com arma em via pública?"

"No Brasil, quando alguém paga o suficiente, tudo ganha outro nome."

Ela abriu o celular. Sem chip? Ainda estava lá. Ela tirou com a unha, enfiou no bolso e ativou o modo avião. O vídeo continuava salvo. O arquivo tinha dois minutos e quarenta e nove segundos. A prova de uma vida. Talvez duas.

"Tem um lugar seguro?" ela perguntou.

"Não existe lugar seguro. Existe lugar atrasado no mapa deles."

"Ótimo. Muito reconfortante."

Ele desviou para uma rua estreita de oficinas fechadas. A van entrou num galpão por uma porta metálica que subiu no último segundo. Lá dentro, um homem idoso esperava com o controle na mão e a expressão de quem já tinha visto desgraça demais para fazer perguntas. Assim que a van entrou, a porta desceu.

"Cinco minutos", disse o desconhecido.

"Três", respondeu o idoso. "Tem viatura privada rodando o bairro."

Clara saltou da van. "Quem é ele?"

"Alguém que não vendeu minha cabeça."

"Sua cabeça vale tanto assim?"

O idoso soltou uma risada curta. "Menina, você não sabe mesmo quem ele é?"

O desconhecido lançou um olhar que calou o homem. Clara sentiu o ar mudar. Pegou o celular, abriu a câmera frontal para iluminar o rosto dele e arrancou o boné de uma vez.

O mundo parou por um segundo.

Ela conhecia aquele rosto.

Todo o país conhecia.

Mateus Valença.

O ex-atacante da seleção da Copa Global. O homem que tinha perdido uma final, uma carreira e a honra em rede nacional. O rosto que aparecera por meses em memes, xingamentos, editoriais furiosos. O jogador acusado de manipular uma partida decisiva depois de uma lesão conveniente, uma transferência suspeita e um silêncio que parecia confissão.

Clara deu um passo para trás.

"Você."

Mateus não tentou negar. Sem o boné, parecia mais cansado do que nas fotos antigas, mais magro, mas ainda carregava aquela presença perigosa de quem sabia ocupar espaço sem pedir desculpa.

"Sim."

O celular quase escorregou da mão dela. "Você está trabalhando com Silas?"

"Estou tentando derrubar Silas."

"Você manipulou uma partida."

"Não."

"O país inteiro viu."

"O país inteiro viu o que compraram para ele ver."

Clara riu, um som quebrado. "Conveniente."

"Eu sei."

"Você sumiu por três anos e aparece justamente quando eu tenho um vídeo contra o homem que controla o torneio?"

"Eu apareci porque se você morresse hoje, Silas venceria de novo."

"De novo?"

A palavra saiu antes que ela pudesse impedir. Mateus percebeu. Os olhos dele, escuros, firmaram nos dela.

"Acha que meu escândalo nasceu sozinho?"

Clara pensou no pai, nas manchetes falsas, nos convites que evaporaram, nos amigos que pararam de atender. Pensou também no rosto de Mateus estampado em camisetas com a palavra traidor. Ela tinha escrito uma coluna dura sobre ele na época. "O silêncio de Valença confirma mais do que qualquer depoimento", dizia uma frase dela. Lembrou com nitidez vergonhosa.

"Por que nunca falou?"

Mateus pegou uma garrafa de água numa bancada e a entregou. Ela não aceitou.

"Porque falar custava mais do que minha carreira."

"Isso não é resposta."

"É a única que você ganha agora."

O idoso, que Clara ainda não sabia chamar de aliado, abriu um notebook antigo na mesa.

"Se quer duplicar o vídeo, faz agora. Tenho uma rede limpa por dois minutos. Depois desligo."

Clara olhou para Mateus.

"Como sei que isso não é uma armadilha?"

"Você não sabe", ele disse. "Mas Silas sabe que você está com o arquivo. Daqui a pouco ele vai vazar que você invadiu área restrita, agrediu funcionários e fabricou prova para limpar a imagem de um ex-jogador comprado. Se você não tiver cópia fora do celular, ele vence antes do jantar."

O pior era que fazia sentido.

Clara conectou o aparelho ao notebook. As mãos tremiam. O arquivo começou a transferir. Vinte por cento. Mateus ficou perto da porta, ouvindo a rua. Não a apressou. Não encostou. Só vigiou.

"Você salvou minha vida", ela disse, odiando que fosse verdade.

"Ainda não terminei."

"Não significa que eu confie em você."

"Ótimo. Confiança cega mata jornalista."

O notebook apitou: transferência completa. O idoso copiou o arquivo para dois destinos, um deles sem nome visível. Clara quase perguntou, mas um estrondo sacudiu a porta do galpão.

Mateus puxou uma arma de dentro da bancada. Clara travou.

"Você disse que estava tentando derrubar Silas, não começar uma guerra."

"Ele começou há três anos."

Outro impacto. A porta metálica deformou para dentro.

O celular de Clara, mesmo sem chip, acendeu com uma notificação de emergência da rede do estádio. Uma foto dela e Mateus, capturada por câmera de segurança, apareceu em um canal esportivo independente: JORNALISTA FOGE COM MATEUS VALENÇA APÓS INVADIR ÁREA RESTRITA.

Embaixo, comentários subiam ferozes.

Traidor.

Comprada.

Armação.

Do lado de fora, uma voz gritou:

"Clara Monteiro! Sai com as mãos visíveis e entrega o telefone. O homem com você é procurado por interferência no torneio."

Mateus olhou para ela.

"Agora você entende o tabuleiro?"

A porta recebeu o terceiro golpe. Uma fresta abriu. O cano de uma arma apareceu primeiro. Atrás, uma câmera de celular transmitia tudo ao vivo.

Clara viu o reflexo dela no vidro do notebook: molhada, suja, respirando ao lado do homem que tinha jurado odiar em público.

Mateus estendeu a mão.

"Você vai confiar em um homem que o país inteiro odeia?"

O dedo de Clara ficou sobre a tela, entre enviar o vídeo para sua editora ou fechar o notebook e correr com ele.

Então a primeira bala atravessou a porta.

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