Capítulo 2
Mariana não dormiu.
Ficou deitada de olhos abertos, ouvindo a respiração de Rafael ao lado, contando o que sabia e o que não sabia como quem confere uma conta que não fecha. Casamento. Vestido branco. Arroz no chão. Data de seis anos atrás. Cada item era pequeno; juntos, pesavam como pedra.
Havia explicações. Ela se obrigou a listá-las, porque era isso que uma pessoa sensata fazia antes de destruir a própria vida por causa de uma foto.
Podia ser uma fantasia. Um casamento de mentira, dessas festas temáticas que a galera fazia. Podia ser o casamento de outra pessoa, e Rafael só de padrinho, de terno, posando de brincadeira com a noiva. Podia ser montagem — gente fazia isso, colava rosto, e ninguém sabia disso melhor que ela.
Foi nessa última que a profissão dela acordou de vez.
Porque se fosse montagem, ela saberia. Ninguém no mundo estava mais qualificado para detectar uma imagem manipulada do que uma mulher que ganhava a vida manipulando imagens.
De manhã, quando Rafael saiu para o trabalho, Mariana levou a foto para o estúdio.
Era um cômodo pequeno nos fundos de um prédio comercial, dividido com mais duas colegas, mas àquela hora só ela tinha chegado. Ligou o scanner. Digitalizou a foto em alta resolução, ampliou na tela até o rosto de Rafael virar um borrão de pixels, e foi procurando o que procurava em todo trabalho: a costura. A linha onde uma imagem mentirosa se trai.
Não havia costura.
Ela ampliou a sombra. A sombra do nariz dele caía no lado certo, na mesma direção da sombra do buquê, da sombra da mulher. A luz era uma só. Numa montagem, a luz nunca era uma só — era o erro mais comum, o que ela corrigia o dia inteiro nos trabalhos dos outros. Aqui, não havia erro.
A foto era real. Rafael estava mesmo naquele lugar, naquele dia, ao lado daquela mulher de branco.
Mariana sentou. O estúdio estava em silêncio, só o zumbido baixo dos computadores.
Ela quis, por um instante, parar ali. Tinha a resposta que precisava: a foto não era falsa. Podia fechar o arquivo, devolver a foto à caixa, e perguntar a Rafael naquela mesma noite, como uma pessoa normal faria — amor, achei essa foto, o que é isso? — e ouvir a explicação dele, e talvez tudo se desfizesse num mal-entendido bobo.
Mas ela não fez isso. E muito tempo depois, tentando entender por que não, ela só conseguiu chegar a uma resposta: porque, no fundo, alguma parte dela já sabia que não havia explicação boa. Que se houvesse, Rafael a teria dado em algum dos oito anos. Que uma foto de casamento guardada numa caixa de sapato, com a data raspada no verso e a faixa do cartório no canto, não era a ponta de um engano. Era a ponta de um segredo. E segredos, Mariana sabia bem, não se desfazem quando você pergunta a quem os guarda. Você só dá tempo a eles de inventarem uma versão nova.
Então ela continuou olhando.
E então o olho dela, aquele olho que não desligava nunca, viu mais uma coisa.
No canto inferior da foto, quase fora do quadro, havia uma faixa de tecido. Uma daquelas faixas que as casas de festa penduram. Estava desfocada, mas Mariana passou anos recuperando texto borrado de fotos antigas, e tinha truque para isso. Aplicou o filtro. Forçou o contraste. As letras emergiram devagar, como um corpo subindo da água.
Rafael & Letícia.
E embaixo, menor:
Cartório do 4º Ofício.
Não era festa temática. Não era brincadeira de padrinho. Cartório.
Mariana ficou muito quieta. Lá fora, a cidade fazia o barulho de sempre. Aqui dentro, oito anos começavam, silenciosamente, a rachar.
Ela fechou o arquivo. Apagou o histórico. Guardou a foto na bolsa, no compartimento que fechava com zíper.
Quando a colega chegou, meia hora depois, encontrou Mariana já trabalhando num retrato de batizado de 1962, restaurando o sorriso de uma criança morta havia muito tempo, com as mãos perfeitamente firmes.
— Você tá pálida — disse a colega.
— Dormi mal — disse Mariana. — Coisa de noiva.
