Oito Anos e Uma Mentira

Oito Anos e Uma Mentira

Luna Vasconcelos · Atualizando · 11.4k Palavras

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Introdução

Oito anos. Faltavam três semanas para o casamento.
Uma foto destruiu tudo.

Não era uma foto qualquer. Eu trabalho com imagens — passo o dia inteiro consertando o que as pessoas querem esconder, apagando o que não combina com a história que elas escolheram contar. Por isso eu vi o que ninguém mais veria.

No retrato, Rafael estava de terno, sorrindo. Ao lado dele, uma mulher de vestido branco que eu nunca tinha visto. E no canto, uma data — uma data de seis anos atrás, quando ele já jurava que eu era a única.

O homem com quem eu ia me casar daqui a três semanas já tinha se casado uma vez.
E nunca me contou.

Eu não chorei. Eu não gritei.
Eu olhei para o anel no meu dedo e pensei uma coisa só:

Quanto desses oito anos foi de verdade?

Capítulo 1

A casa cheirava a flores que ainda não tinham chegado.

Era assim que Mariana media o tempo que faltava — não em dias, mas em entregas. As alianças já estavam na joalheria, prontas para gravar a data. O vestido esperava no ateliê, ajustado pela terceira vez na cintura que ela tinha emagrecido sem querer, de pura ansiedade boa. Faltavam três semanas, e a sala do apartamento já parecia o ensaio de uma festa: amostras de tecido sobre o sofá, um caderno cheio de anotações com a letra apertada dela, dois cartões de buffet encostados um no outro como se conversassem.

— Você decidiu o do salmão ou o do risoto? — Rafael perguntou da cozinha, com a voz abafada pela porta da geladeira.

— Os dois — disse ela. — A gente é rico de coragem, não de dinheiro, então vai ter os dois e a gente come miojo em janeiro.

Ele riu. Aquele riso que ela conhecia havia oito anos, desde a faculdade, desde o corredor mal iluminado do prédio de Comunicação onde ele tinha derrubado o café dela e gasto a tarde inteira pedindo desculpas. Oito anos era tempo suficiente para uma pessoa virar parede, virar chão, virar a coisa em que a gente nem repara mais de tão certa que é.

Tinham sido oito anos bons, no balanço que qualquer um faria. Tinham passado por aperto — o ano em que ele perdeu o emprego e ela bancou o aluguel dos dois sem reclamar uma vez. Tinham passado por luto — quando o pai dela morreu, foi Rafael quem dirigiu a noite inteira para chegar ao velório, e ficou ao lado dela segurando a mão dela diante do caixão. Histórias assim, Mariana tinha aos montes. Era nelas que ela se apoiava quando alguém perguntava por que ainda não tinham casado, depois de tanto tempo. "Não tem pressa", ela dizia. "A gente já é casado de fato. O papel é só festa." E acreditava. Acreditava tanto que tinha esperado oito anos pelo papel sem nunca duvidar de que ele viria.

O papel, agora, estava a três semanas de distância. E Mariana, naquela noite, ainda não sabia que o papel já existia havia seis anos — só que com o nome de outra mulher.

Mariana trabalhava com imagens. Era restauradora — recuperava fotos antigas, consertava retratos rasgados, devolvia a cor a casamentos dos avós que tinham desbotado dentro de gavetas. Gente vinha até ela com a memória estragada e saía com a memória inteira de novo. Ela gostava de pensar assim: que o trabalho dela era cuidar do passado das pessoas.

Naquela noite, foi o passado dela que veio bater.

Rafael tinha pedido para ela organizar as fotos da família dele para um mural do casamento. Uma caixa velha, dessas de sapato, que a mãe dele tinha mandado da casa do interior. Mariana sentou no chão da sala, abriu a tampa, e começou a separar — infância, adolescência, a formatura, o Rafael magro e cabeludo dos vinte anos que ela tanto provocava.

E então uma foto que não combinava.

Era recente demais para estar com as antigas. O Rafael dela, o de agora, o de rosto já adulto. De terno escuro. Sorrindo daquele jeito de quem está sendo fotografado no melhor dia da vida.

Ao lado dele, uma mulher de vestido branco.

Mariana ficou olhando. O olho dela, treinado por anos de tela, foi sozinho catalogando o que via, sem pedir licença. A luz da foto. O buquê na mão da mulher. O arroz no chão, aquele arroz branco que só cai no chão de um lugar.

Um casamento.

Ela virou a foto. No verso, num cantinho, manuscrita com tinta azul já meio apagada, uma data.

A data era de seis anos atrás.

Seis anos atrás, Rafael e ela já estavam juntos havia dois. Seis anos atrás, ele tinha dado a ela um colar no aniversário e dito, com a testa colada na dela, que nunca tinha amado ninguém daquele jeito.

O coração dela batia agora de um jeito errado, descompassado, e Mariana percebeu, com uma parte distante e fria da mente, que estava prendendo a respiração. Aquilo não fazia sentido. Devia haver uma explicação. Sempre há, ela disse a si mesma — a profissão inteira dela era prova de que toda imagem tem uma história por trás, e nem toda história é a que parece à primeira vista. Talvez fosse uma festa antiga. Talvez fosse outra pessoa. Talvez o cérebro dela, cansado dos preparativos, estivesse vendo casamento onde havia só uma foto qualquer.

Mas as mãos dela não acreditaram no "talvez". As mãos dela, mais espertas que ela, já estavam guardando a prova.

Mariana ouviu a água da pia desligar na cozinha. Ouviu os passos dele se aproximando. E fez uma coisa que depois ela não soube explicar de onde veio: deslizou a foto para dentro do caderno de anotações, fechou a tampa da caixa, e quando Rafael apareceu na porta com dois copos de vinho, ela já estava sorrindo.

— Achou coisa boa? — ele perguntou.

— Achei você de cabelo comprido — ela disse. — Vou colocar bem no centro do mural pra todo mundo rir.

Ele riu de novo. Sentou ao lado dela no chão, encostou os lábios no cabelo dela.

E Mariana, com o copo de vinho na mão e o coração batendo de um jeito que ela nunca tinha sentido em oito anos, pensou na mulher de branco.

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