Capítulo 3
Letícia.
O nome ficou com ela o dia inteiro, repetindo, como uma música que entra na cabeça e não sai. Mariana voltou para casa, fez o jantar, ouviu Rafael contar do trabalho, riu nos lugares certos. Por dentro, montava um plano com a mesma frieza com que montava uma restauração: um pedaço de cada vez, sem pressa, sem estragar nada.
A primeira pergunta não era quem é Letícia. Era o que aquele cartório registrou.
Porque uma foto provava uma festa. Um cartório provava um casamento. E um casamento de seis anos atrás, se nunca tivesse sido desfeito, provava uma coisa que fazia o chão sumir debaixo dela: que o homem que ia se casar com ela daqui a três semanas talvez já fosse, diante da lei, marido de outra.
Mariana tinha uma amiga que podia ajudar. Bianca trabalhava num escritório de despachante, daqueles que resolvem documento, segunda via, certidão. Conheciam-se desde o colégio. Bianca era a única pessoa no mundo de quem Mariana tinha certeza — certeza de verdade, dessas que oito anos com Rafael, ela agora percebia, nunca tinham lhe dado.
Encontraram-se num café perto do trabalho de Bianca, no fim da tarde.
— Você sumiu — disse Bianca, abraçando-a. — A noiva mais ocupada do Brasil. Como tá o vestido?
Mariana colocou a foto na mesa, virada para cima, entre as duas xícaras.
Bianca olhou. Olhou de novo. Levantou os olhos para a amiga.
— Esse é o Rafael.
— Esse é o Rafael — disse Mariana. — Há seis anos. Num cartório. Com uma mulher de branco chamada Letícia.
Houve um silêncio. Bianca era uma mulher prática, dessas que não desperdiçam tempo com não pode ser quando a coisa já está ali, em papel fotográfico, na mesa.
— Você quer saber se foi registrado — disse Bianca.
— Eu quero saber tudo — disse Mariana. — Mas começa por aí. Se existe uma certidão. Se ele ainda é casado. Porque se ele ainda é casado, Bianca, o meu casamento daqui a três semanas não é casamento. É crime. E eu sou a idiota que ia assinar.
Bianca puxou a foto para perto, leu o nome da faixa, anotou no celular o que conseguia ler do cartório.
— Posso pedir uma busca por nome. Não é rápido, mas chega. — Ela hesitou. — Mari, você já pensou que pode ter explicação? Casou jovem, anulou, nunca te contou porque é idiota e tem vergonha?
— Pensei — disse Mariana. — Pensei em todas as explicações boas. — Ela tomou um gole do café, já frio. — Mas aí eu lembro que ele teve oito anos pra me contar uma explicação boa. Oito anos, Bianca. E em vez disso ele guardou uma foto numa caixa de sapato e me pediu pra fazer um mural.
Bianca não respondeu de imediato. Ela conhecia Mariana desde os quinze anos. Tinha visto a amiga apaixonar-se por Rafael na faculdade, tinha sido madrinha não-oficial daquela relação a vida inteira, tinha defendido Rafael nas poucas vezes em que Mariana reclamou dele. Aceitar aquela foto era aceitar que tinha se enganado também — por oito anos, junto com a amiga.
— Você sabe que, se isso for o que parece — disse Bianca, escolhendo as palavras —, não tem volta. Não dá pra saber e fingir que não soube.
— Eu já sei — disse Mariana. — Já passei dessa porta. Agora eu só quero saber o tamanho do quarto.
Bianca guardou a foto na própria bolsa, com cuidado.
— Me dá três dias — disse.
Sozinha, depois que Bianca foi embora, Mariana ficou mais um tempo no café, mexendo o resto frio com a colher, e deixou a memória correr para trás. Era um exercício perigoso, ela sabia, mas precisava fazê-lo: reler os oito anos com os olhos de agora, do mesmo jeito que relia uma foto antiga sob luz nova, procurando o que sempre esteve ali e ela não tinha visto.
E, uma vez que começou a procurar, as rachaduras apareceram em toda parte. As vezes em que ele "tinha que resolver uma coisa da família" e sumia um fim de semana. O fato de ela nunca ter conhecido a casa onde ele crescera, sempre por um motivo plausível — reforma, parente doente, briga antiga. As fotos do celular dele que ela nunca via porque "estava sem espaço". O modo como ele desviava, com jeito, sempre que ela falava em conhecer melhor o interior dele. Durante oito anos, Mariana tinha lido cada um daqueles desvios como timidez, como uma família complicada, como o jeito reservado de um homem bom. Nunca como o que eram: as paredes de um cômodo onde ela não podia entrar.
A pior parte não era ter sido enganada. Era perceber quanto trabalho ela mesma tinha feito, ao longo dos anos, para se enganar — quantas explicações generosas ela tinha inventado para ele, quantas vezes tinha calado a própria desconfiança chamando-a de ciúme bobo. Rafael tinha construído a mentira, sim. Mas ela tinha ajudado a mantê-la de pé, mobiliando-a com a própria confiança. E isso, ela jurou ali, mexendo o café frio, nunca mais.
No caminho de volta, Mariana passou na frente da joalheria. As alianças estavam na vitrine, modelo igual ao delas, brilhando sob a luz amarela. Ela parou um instante, olhou, e seguiu andando.
Três semanas. Três dias. As contagens tinham começado a correr uma contra a outra.
