Capítulo 4

Bianca ligou no terceiro dia, à noite, quando Rafael estava no banho.

— Tá sentada? — perguntou.

— Estou em pé na cozinha fingindo lavar louça — disse Mariana, baixinho. — Fala.

— Existe certidão. — A voz de Bianca era cuidadosa, como quem desativa uma bomba. — Casamento civil, regime de comunhão parcial, há seis anos, no 4º Ofício. Rafael Quintana e Letícia Brandão.

Mariana segurou a beirada da pia. A água continuava correndo, inútil, sobre o mesmo prato.

— E o divórcio? — ela perguntou.

Bianca demorou um segundo. Foi o segundo mais longo da vida de Mariana.

— Não tem averbação de divórcio, Mari. Pelo que aparece, eles continuam casados.

No banheiro, o chuveiro desligou. Mariana ouviu Rafael cantarolando, aquele costume bobo dele, a mesma música de sempre, a trilha sonora de oito anos.

— Mari? Você tá aí? — disse Bianca.

— Estou — sussurrou Mariana. — Obrigada. Me manda tudo por escrito. Não me liga mais hoje.

Ela desligou. Encostou o celular no rosto por um momento, de olhos fechados.

Depois fechou a torneira.

Quando Rafael saiu do banheiro, de toalha, secando o cabelo, encontrou Mariana terminando de arrumar a cozinha, calma, com o caderno de anotações do casamento aberto sobre a mesa.

— Tava pensando — ela disse, sem se virar. — A gente ainda não confirmou as flores. E o padre quer falar com a gente sábado, lembra?

— Lembro — disse ele, encostando o queixo no ombro dela. — Você é incrível. Não sei como você dá conta de tudo.

Mariana sorriu para o caderno.

Por dentro, uma frase montou-se sozinha, fria e inteira, como uma sentença lida em voz baixa: Ele ainda é casado. Ele sabe que é casado. E mesmo assim escolheu uma data, uma igreja, um padre, e me deixou planejar uma mentira de seis meses sem mexer um dedo para impedir.

Não havia mais engano possível. Não era vergonha de juventude, não era um casamento esquecido. Era uma fraude que ele tinha mantido de pé, com cuidado, todos os dias, ao lado dela, na cama dela.

Ela pensou no que aquilo significava em termos práticos, porque pensar em termos práticos era o que a mantinha de pé. Se Rafael ainda era legalmente casado, o casamento dela seria nulo — pior, seria bigamia, um crime, e ela teria assinado por baixo como cúmplice involuntária. Ele tinha planejado deixá-la subir ao altar de um casamento que não valeria o papel. Por quê? Para mantê-la presa sem se comprometer? Para ter, aos olhos do mundo, uma noiva-fachada enquanto sustentava outra vida no interior? Mariana não sabia ainda. Mas a frieza da engenharia daquilo — a paciência necessária para sustentar duas vidas durante seis anos sem que uma tropeçasse na outra — disse a ela tudo o que precisava saber sobre o homem que cantarolava no banheiro.

Mariana fechou o caderno.

— Então tá — ela disse, virando-se enfim para ele, e o sorriso dela estava perfeito, treinado, sem uma única costura à vista. — Vamos continuar preparando o casamento.

Rafael a abraçou, aliviado, e não viu nada. Era esse o talento dela, afinal. Consertar imagens. Fazer com que a superfície não denunciasse o que havia por baixo.

Só que agora ela tinha aprendido a fazer isso com o próprio rosto.

E pela primeira vez em oito anos, Mariana não era mais a noiva.

Era a única pessoa naquela casa que sabia a verdade.

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