Capítulo 6 Silenciosamente inconsciente
Blake
Eu sabia que hoje ia ser um bom dia.
Começou normal. Café da manhã com parte da matilha, pratos raspados até ficarem limpos, aquele barulho tranquilo enchendo a cozinha. Theo falou demais, como sempre, já a mil e pronto pro dia. Ele foi no banco da frente quando a gente pegou carona junto até a escola, tamborilando os dedos no painel no ritmo do rádio.
Tivemos treino de hóquei antes do almoço, e só isso já bastava pra me deixar de bom humor.
A pista estava fria e barulhenta, como sempre. O técnico Donaven latiu ordens enquanto a gente amarrava os patins, e então eu pisei no gelo e deixei os ombros relaxarem. Começamos com alguns exercícios, linhas de passe e curvas fechadas. Eu forcei, pernas queimando, pulmões trabalhando. Lex entrou no ritmo com facilidade, satisfeito em ficar quieto pela primeira vez em muito tempo.
Então o cheiro me atingiu.
Não era forte. Não como ontem, na floresta. Era fraco e se misturava com suor, borracha e aço afiado, mas era o mesmo. Doce e, ao mesmo tempo, familiar ao meu coração.
Lex ergueu a cabeça dentro de mim, e eu varri a pista sem diminuir a velocidade, os olhos saltando pros bancos, pra porta aberta, pro grupo de caras parado bem na beira do gelo.
Um cara se destacou imediatamente.
Ele era alto, de ombros largos, e com os patins velhos bem amarrados. Conforme eu me aproximava, eu sentia o cheiro da minha companheira grudado nele.
Lex eriçou, com um rosnado baixo de aviso vibrando no meu peito.
Ele conhecia a minha companheira. Tinha o cheiro dela na pele.
Eu patinei até o técnico quando o exercício terminou. “Se importa da gente deixar ele participar?”, perguntei, assentindo em direção à porta.
O técnico apertou os olhos e deu de ombros. “Se ele conseguir acompanhar.”
Então eu fiz um gesto chamando.
O cara entrou no gelo, testando a superfície. Os patins eram velhos, as lâminas cheias de lascas e gastas, mas mesmo assim ele se movia com uma facilidade absurda.
Eu patinei até o banco, peguei meu taco velho no suporte e estendi pra ele.
“Meu nome é Blake”, eu disse, enquanto a gente se alinhava pro próximo exercício. “E o seu?”
“Charlie”, ele respondeu. “Acabei de me mudar pra cá. Começo na escola amanhã. Eu adoraria entrar pro time.”
“Então”, eu disse, me impulsionando no instante em que o apito soou, “mostra o que você sabe fazer.”
Fizemos um coletivo, e eu fiquei no centro, observando de canto de olho quando o disco foi solto.
Charlie era rápido.
Ele lia a jogada antes de ela acontecer, cortava o gelo, interceptava um passe que não era pra ele e mandava o disco de volta pela lateral. Eu apertei um pouco com uma checada de ombro, mas ele aguentou e se ajustou.
Na jogada seguinte, ele mudou o peso do corpo e passou por mim com um corte rápido que fez Theo xingar em voz alta.
Quando terminou, meus pulmões ardiam, e era impossível esconder meu sorriso. Ele era bom. Bom de verdade. O lobo dele era forte.
E, se eu conseguisse colocar ele no time, eu podia me aproximar dele e descobrir como ele conhecia a minha companheira… e quem ela era.
O técnico pareceu impressionado, apesar de si mesmo, quando chegou ao lado dele. “Parece que achamos mais um atacante”, ele disse. “Treino amanhã. Esteja aqui cedo.”
Passei patinando por ele enquanto íamos em direção ao banco. “Você patina assim todo dia?”, perguntei.
Ele deu de ombros. “Quando eu tenho chance.”
Estava sendo mais difícil do que eu esperava arrancar qualquer coisa útil dele. Cada pergunta que eu fazia escorregava e não pegava. Ele respondia só o suficiente pra ser educado, e nada além disso.
Charlie não era exatamente fechado, mas tinha algo estranho nele.
Então tentei por outro caminho.
“Eu e os meninos vamos matar o resto das aulas e sair pra correr”, falei, como quem não quer nada. “Você topa?”
Ele hesitou, ergueu uma sobrancelha e depois baixou a cabeça, esfregando a nuca. “É, ah… eu não trouxe roupa de corrida quando a gente se mudou.”
Isso me fez parar por um instante, porque eu não tinha querido dizer correr daquele jeito, e nenhum lobo confundiria as duas coisas.
Theo soltou uma risada divertida ao parar do meu lado. “Ainda bem que a gente não precisa de tênis pra correr, então, né.” Ele cutucou Charlie com o cotovelo.
Charlie só encarou Theo, claramente sem saber se ele estava brincando ou não. “Vocês correm descalços?”
O sorriso de Theo vacilou quando ele olhou pra mim, e eu vi a pergunta nos olhos dele antes de ele me chamar pelo elo mental.
“Esse cara é um lobo, né? Yelen jura que consegue sentir o cheiro nele.”
Puxei o ar devagar de novo, captando o cheiro de Charlie direito. Lex estava confiante na mesma conclusão, mas Charlie não estava agindo como um lobo.
Então mudei de rumo outra vez antes que ficasse constrangedor. “Que tal a gente só ir lá pra casa, então?”, sugeri. “Tenho certeza de que a mãe vai achar de boa a gente ficar por lá.”
Charlie pareceu relaxar um pouquinho, os ombros descendo, a cabeça assentindo. “É. Parece bom.”
Então levamos Charlie pra casa.
A viagem foi tranquila, mas meus pensamentos não. Chamei a Mãe e o Pai pelo elo assim que saímos, mantendo o foco na estrada enquanto Lex caminhava inquieto sob a minha pele.
“Estamos voltando pra casa, com um convidado.”
A resposta da Mãe foi imediata e levemente repreensiva.
“Você vai matar metade do dia de aula?”
“Vou”, admiti, e então contei o motivo.
Houve uma pausa. Longa. Longa o bastante pra eu conseguir imaginá-la parada na cozinha, de braços cruzados, pensando. Quando ela falou de novo, o tom estava ponderado.
“Você tem certeza de que ele é um lobo?”
“Tenho certeza, mãe.”
Revirei os olhos por dentro, mas puxei o ar mais uma vez, pegando o cheiro de Charlie. Eu não estava louco. Ele era, com certeza, um lobo. Só que não estava agindo como um. Acho que ele nem sabia o que era, e isso complicava tudo. Eu podia perguntar por que o cheiro da minha companheira estava nele? Ele saberia o que é uma companheira? Eu nunca tinha passado por uma situação dessas. Lobos cresciam sabendo quem eram, o que eram e como as coisas funcionavam.
“Então traga ele pra casa, filho. A gente dá um jeito.”
Graças a Deus.
Seja lá o que isso fosse, seja lá o que significasse, não era algo que eu precisava resolver sozinho.
Olhei pelo retrovisor para Charlie, sentado em silêncio, sem fazer ideia, ainda com o cheiro fraco da minha companheira.
Quem ele era pra ela?
E o que ele achava que era?
