Capítulo 2 2

Uma hora depois, sou uma morta-viva. Cada terminação nervosa dos meus pés está em chamas. Arrastei meu traseiro até o outro lado da cidade para ir ao alfaiate do Ruslan, peguei o smoking dele e fiz todo o caminho de volta a Midtown até a cobertura dele.

Quando o elevador me deixa direto no hall de entrada dele, solto um suspiro. Uma última tarefa nesta terça-feira criada sob medida por Satanás.

Não que amanhã vá ser diferente.

Meus sapatos ecoam pelo piso de mármore enquanto caminho e chego à sala de estar. Há janelas de vidro do chão ao teto em três lados, então consigo ver a cidade inteira me envolvendo, adornada e cintilante na noite. Os móveis e os acabamentos são tão deslumbrantes quanto o homem dono deste lugar — e tão brutais quanto ele. Tudo é preto fosco e cheio de quinas afiadas. Esculturas modernas, contorcidas e grotescas nos cantos. Quadros modernos, contorcidos e grotescos nas paredes.

Uma vez, pesquisei o preço que ele pagou por este lugar e quase vomitei um pouco na boca. Tinha zeros demais para o meu nível de conforto. A parte mais revoltante de tudo é que ele vem aqui uma vez por mês, no máximo, geralmente com uma de suas muitas acompanhantes atrizes/influenciadoras/modelos a tiracolo. É basicamente o motel mais caro do mundo.

Estendo o terno sobre o encosto do seu sofá de camurça preta. É estranho estar aqui, no espaço pessoal do Ruslan. Tem cheiro principalmente de produto de limpeza, mas, juro, toda vez que me viro, sinto um leve rastro daquela colônia de novo.

Isso faz minha cabeça girar.

Tenho tanta vontade de me encolher no sofá de camurça e dormir pelo resto da vida. Mas preciso continuar me mexendo. Tem gente contando comigo. Três crianças, em particular.

Então, dormir está fora de cogitação. Meu pensamento seguinte é sobre como seria bom ter algum tipo de vingança mesquinha contra esse chefe babaca do inferno pelo sufoco que ele me fez passar hoje.

Minha irmã não teria hesitado nem por um segundo.

— Sienna, não se atreva a fazer xixi no carro dele!

Mas minha irmã já estava subindo no capô com seu vestido de balada curto demais e rosa demais, gargalhando como uma louca. Eu estava mortificada. A risada dela era infame no campus inteiro, então eu não tinha a menor dúvida de que alguém a reconheceria, abriria a janela do alojamento e olharia para o estacionamento do Campus Leste só para ver as irmãs Carson aprontando alguma coisa, como de costume.

Correção: Sienna era quem estava sempre aprontando. Eu era quem sempre tentava colocá-la na linha. Não que adiantasse; Sienna fazia o que queria.

Sempre fez. E sempre faria.

E quando ela viu o carro do meu ex nojento, canalha e traidor brilhando na melhor vaga do estacionamento, isso despertou uma ideia que ela se recusou terminantemente a ignorar.

E foi assim que acabei segurando a mão dela para dar equilíbrio enquanto ela se agachava no Range Rover do Tommy e se aliviava.

Não posso dizer que ele não merecia; esse apenas não seria o meu método preferido de vingança.

"Que se dane", Sienna disse quando eu lhe falei que viver bem era a melhor forma de vingança. "Não dê o troco; saia na frente. Esse é o meu lema."

Quando ela se aliviou de uma longa noite de vodcas com cranberry, eu a ajudei a descer de volta para o asfalto. "Você é louca", eu a informei. "Um caso clínico."

"E mesmo assim você me ama. O que isso diz sobre você?"

"Nada de bom", murmurei.

"Cala a boca. Diz. Diz que me ama." Ela fez biquinho para mim e, quando recusei, me fez cócegas no ponto debaixo das minhas costelas que eu odiava desde que éramos pequenas.

"Tá bom! Tá bom! Eu te amo!", eu gritei.

Só então ela parou.

"Que bom. Eu também te amo, Em. Você é as estrelas da minha lua. Nunca se esqueça disso."

Então, só de sacanagem, ela me mostrou a bunda. Nós rimos — a risada dela e a minha, dois lados da mesma moeda, ecoando e se perdendo na noite.

Eu nunca imaginei uma vida sem ela. Nunca pensei que precisaria.

Eu não sou a Sienna; não vou fazer xixi no sofá de cinquenta mil dólares do Ruslan. E, desde três anos, seis meses e quatro dias atrás, ela não está aqui para fazer isso por mim.

Com um suspiro, eu me viro e saio desanimada.

É uma longa viagem de metrô do reluzente Midtown até o meu prédio sujo e apertado em Hell's Kitchen. Quando chego, é uma longa subida de quatro lances de escada porque, é claro, o elevador está quebrado de novo. Estou quase literalmente excitada com a perspectiva de um ciclo de sono REM — mas quando abro a porta, percebo com um horror de ranger os dentes que o sono está muito longe.

Meu apartamento é um desastre absoluto.

Garrafas de cerveja estão espalhadas por toda parte. As roupas das crianças estão mofando na máquina de lavar. A pia da cozinha está cheia de pratos sujos empilhados.

Não preciso procurar muito para encontrar o culpado. Ben, o viúvo da minha irmã, está desmaiado na poltrona do canto. Um cigarro pela metade pende entre seus dedos e a outra mão segura o resto de uma Bud Light morna. Eu marcho até ele e arranco os dois de suas mãos, apagando o cigarro no cinzeiro e jogando a cerveja na lixeira de recicláveis. Ele se assusta por um segundo antes de voltar a roncar de boca aberta.

Ben. O tormento da minha existência, sem querer fazer trocadilho. Há uma razão para ele não estar na tela de bloqueio do meu celular. Uma razão pela qual tento não pensar nele sempre que posso evitar.

Ele lidou muito mal com a morte da Sienna. Não é surpresa; todos nós lidamos. Quando alguém tem uma personalidade tão brilhante, é difícil não sentir que você está vivendo nas sombras depois que a pessoa se vai.

Mas as crianças e eu seguimos em frente, não importa o quanto doa.

Ben, por outro lado, está chafurdando na lama. Ele foi demitido do emprego, então agora tudo o que faz é beber, fumar e resmungar sozinho o dia inteiro — e faz isso aqui, já que não conseguiu pagar o financiamento da casa deles sem ter uma renda. Quando se digna a agir como pai dos próprios filhos, faz isso como um ogro de conto de fadas, berrando a ponto de cuspir e perdendo a cabeça por qualquer bobagem. Outro dia, ele fez a Reagan chorar porque a xuxinha de cabelo estourou enquanto ele tentava fazer um rabo de cavalo nela. Como se a culpa fosse dela.

Fico repetindo para mim mesma que preciso ser compreensiva. Ele está passando por uma fase difícil. Vai sair dessa.

Pelo menos, é o que eu espero. A verdade é que nunca fui muito fã dele, para começo de conversa. Eu dava um jeito de tolerá-lo pelo bem da Sienna, porque não há nada que eu não fizesse pela minha irmã.

Sem ela, no entanto... é mais difícil.

Balanço a cabeça. Não é bom me deixar afundar nesses pensamentos. Nada de bom vai sair de ficar me perguntando por que essas foram as cartas que a vida me deu. Só preciso fazer o que tem que ser feito. Em silêncio e sem reconhecimento, claro. Mas o mundo não foi feito para ser gentil com pessoas como eu.

Então, largo a minha bolsa, arregaço as mangas e faço o que posso para torná-lo mais gentil para o Josh, a Caroline e a Reagan.

As garrafas de cerveja vão para o lixo. As roupas vão para a secadora. A louça é lavada, enxugada e guardada de volta nos armários, e, pouco a pouco, a bagunça diminui. No canto, o ponteiro do relógio passa da uma da manhã. Preciso estar de volta à Bane às quinze para as seis. Com o trânsito para cruzar a cidade, isso significa que terei no máximo três horas de sono antes de ter que estar de pé e na ativa outra vez.

Quando termino, a uma da manhã já virou duas e meia. Me arrasto como um zumbi pelo corredor. Meu quarto me chama, mas antes de me render ao sono, preciso dar uma olhada nos pequenos.

O quarto das meninas é o primeiro à direita. Abro a porta e espio lá dentro.

Caroline está dormindo na cama de cima do beliche. Sua mão está pendurada para fora, então ando na ponta dos pés pelo tapete felpudo rosa de brechó e a coloco de volta em cima do colchão para que os monstros não a peguem. Faço uma pausa e escuto, mas sua respiração é praticamente imperceptível quando ela está apagada. Na primeira noite em que a tive sob o meu teto, fiquei apavorada achando que ela tinha morrido sob os meus cuidados.

Quando me dou por satisfeita de que ela está confortável, me agacho para dar uma olhada na Reagan. O cabelo caiu sobre os olhos dela. Eu o afasto com cuidado. Ao contrário da Caroline, ela ronca. A respiração dela dormindo tem um verdadeiro padrão ronc-fiu-ronc-fiu, igual a um dos anões da Branca de Neve. Meu anjinho. Aquelas bochechas de maçã dão tanta vontade de apertar. Iguais às da Sienna.

Fico me perguntando se a Rae sequer se lembra da mãe. Ela era tão pequena quando a perdemos.

Volto para o corredor e fecho a porta silenciosamente atrás de mim. Em seguida, dou alguns passos e empurro devagar a porta do quarto do Josh.

Franzo a testa. A cama dele está vazia, os lençóis esticados e bem presos nas beiradas. Ele mesmo faz isso todas as manhãs, sem falta, embora ninguém nunca tenha pedido, até onde eu sei. Mas se ele não está na cama, onde está...?

Ah. Olho para o lado e o vejo com o rosto encostado na escrivaninha. Ele está apagado, com as mãos ainda mexendo em algo no colo. Fico sem entender o que é, até me aproximar e puxar o volume debaixo dele.

Quando faço isso, meu coração se parte.

São os tênis de basquete dele. Já estavam bem surrados quando os compramos no brechó, mas agora estão completamente destruídos. Há buracos enormes nas duas solas, com pedaços de papel toalha e fita adesiva formando uma espécie de quebra-galho. Ele devia estar tentando consertar o estrago quando pegou no sono.

Uma lágrima escorre pelo meu rosto. Desde que veio morar comigo, ele nunca fez uma única coisa sequer para si mesmo. Tudo o que ele faz é pelas irmãs. Ele faz a Reagan comer os vegetais e ajuda a Caroline a pintar as unhas. Ele faz as tarefas dele e as delas. Ele confere o dever de casa delas. Ele tem oito anos e é a última coisa que mantém essa família despedaçada unida.

Então, quando ele me confessou timidamente que queria jogar basquete este ano, eu quis muito fazer isso acontecer.

Mas o dinheiro simplesmente não deu.

Ruslan me paga bem, mas Nova York é cara, e Nova York com três crianças em fase de crescimento (mais um bebê em tamanho adulto bebendo toda a cerveja) é mais cara ainda. O dinheiro parece simplesmente desaparecer, escorrendo por um milhão de buracos diferentes. Roupas para a escola, contas, aluguel, e isso, aquilo e mais um pouco.

Num segundo está aqui. No outro, desaparece.

Josh sabe disso. Não preciso nem perguntar para adivinhar que é por isso que ele mesmo estava tentando consertar os tênis, em vez de me pedir para comprar um par novo.

Deslizo até o chão com as costas contra a parede e caio no choro. Choro em silêncio porque não quero acordá-lo, mas os soluços vêm de algum lugar muito, muito fundo.

Odeio sentir tanta vergonha dessas lágrimas. E por que eu deveria? Se tem alguém que tem motivos para chorar, sou eu. Meu chefe é um babaca arrogante e minha irmã está morta e o marido dela é mais um fardo do que uma ajuda e eu tenho três crianças inocentes que estou fazendo o meu melhor para criar direito mas parece que não tenho um minuto de paz e preciso de sono e comida e mais café e umas férias e um recomeço e... a lista não tem fim. Um motivo para cada uma das minhas mil lágrimas.

É só quando elas começam a secar que me forço a pensar com otimismo. O que a Sienna diria? Eu me pergunto. Ela não pode responder, é claro, mas tenho meus palpites.

As coisas vão melhorar. Têm que melhorar.

Com certeza absoluta, não tem como piorar.

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