Chapter 2
Minha mãe guardava o passado numa caixa de sapatos de uma marca que ela nunca teve dinheiro para comprar.
Quando cheguei ao apartamento dela, na Vila Prudente, Dona Célia estava descascando alho com a televisão ligada num programa policial sem som. Ela olhou para meu rosto e soube antes de eu falar.
-- Você viu alguma coisa deles.
Não era pergunta.
-- Vi uma tela.
Ela empurrou a tábua de corte, limpou as mãos no pano e foi até o armário de serviço. A caixa estava atrás de garrafas de desinfetante, sacos de arroz e um ferro velho. Sempre escondida no lugar menos nobre da casa, como se memória fosse coisa que manchava.
-- Eu devia ter jogado isso fora -- ela disse.
-- Ainda bem que não jogou.
Sentamos à mesa. Minha mãe abriu a tampa com cuidado de quem mexe em ferida que não cicatrizou porque ninguém deixou respirar.
Primeiro vieram as fotos. Luzia Duarte aparecia em preto e branco, cabelo preso, avental manchado, braços finos e olhos que encaravam a câmera como se ela não precisasse pedir licença para existir. Atrás dela, telas inacabadas. Em uma, o ombro com sombra verde. O mesmo da Fundação.
Havia outras imagens que eu sempre tinha visto como retratos de família e agora viravam documentos. Luzia segurando uma bandeja de pincéis diante de um homem cortado pela metade. Luzia sentada no chão, ao lado de jornais velhos, com uma tela apoiada nos joelhos. Luzia num quarto estreito da Bela Vista, a parede descascada, três estudos de mãos pendurados por pregadores. Em todas, a pobreza era visível; o talento, também. A pobreza tinha ficado. O talento, alguém havia transportado para os salões.
Minha mãe me contou que a bisavó chegara de Pernambuco ainda adolescente, trazida por uma tia para trabalhar em casa de família. Aprendeu a restaurar moldura primeiro, depois tecido rasgado, depois rosto mal resolvido. O ateliê Montenegro não a descobriu; a utilizou. Essa diferença minha mãe repetiu duas vezes, como se temesse que eu, com diploma e vocabulário técnico, suavizasse a violência com palavra bonita.
-- Essa foto é de sessenta e dois?
-- Sua avó dizia que sim. Antes da internação.
A palavra entrou na cozinha como cheiro de gás.
-- Ela foi internada por quê, mãe?
Minha mãe soltou uma risada sem humor.
-- Por insistir.
Depois veio o livro-caixa. Capa preta, bordas comidas, páginas com letra inclinada. Luzia anotava tudo: entrega de fundo, correção de rosto, restauro de moldura, texto para catálogo, revisão de artigo, pagamento prometido, pagamento atrasado, pagamento nunca feito. Ao lado de algumas linhas, iniciais: H.M. e O.S.
Passei o dedo sem tocar na tinta.
-- "Mulher com janela verde, base entregue em 17 de maio. Assinatura pendente." -- li. Minha garganta ficou seca. -- Mãe, isso bate com a obra.
Ela fechou a mão em volta da xícara.
-- Bate com muita coisa.
Havia também recortes de jornal. Pequenas notas culturais, colunas sociais, uma entrevista de Helena falando de sua "fase de recolhimento popular". Em outro envelope, uma matéria cruel: Auxiliar de ateliê acusa artistas sem prova e família pede tratamento. O nome Luzia aparecia uma vez, com a palavra perturbada logo depois.
-- Quem pediu a matéria?
-- Quem você acha?
Não respondi. Em famílias como a nossa, às vezes a resposta passa de mãe para filha como dívida.
Minha mãe tirou do fundo da caixa uma folha dobrada. Era uma carta sem destinatário, escrita por Luzia.
"Eles colocaram meu traço na sala deles e meu nome no consultório do médico. Se eu gritar, dizem que é doença. Se eu calar, dizem que nunca pintei."
Parei de ler.
-- Por que você nunca levou isso a um advogado?
Ela me olhou como se eu tivesse virado criança.
-- Porque advogado custa. Porque cartório não gosta de papel velho sem firma reconhecida. Porque quando eu era menina, minha mãe ainda atravessava a rua se via alguém da Fundação. Porque gente rica não precisa ganhar processo para acabar com a vida da gente. Basta começar um.
Eu conhecia essa lógica. Trabalhava dentro dela.
-- Agora eu sou advogada.
-- E é por isso que tenho medo.
Meu celular vibrou. Um número desconhecido. Deixei tocar. Em seguida, chegou uma mensagem de Beatriz: "Helena Montenegro gostaria de recebê-la amanhã. A senhora pode evitar mal-entendidos se ouvir a própria artista."
Minha mãe leu por cima do meu ombro. O rosto dela perdeu cor.
-- Não vai.
-- Vou.
-- Marina.
-- Eles pediram minha assinatura para fechar a tampa da caixa. Não vou deixar.
Ela juntou as fotos depressa, como se Helena pudesse atravessar a tela do celular e arrancá-las dali.
-- Você acha que prova é só prova. Não é. Prova é uma porta. Quando abre, entra tudo.
-- Então a gente escolhe o que entra primeiro.
Minha mãe ficou em silêncio. Depois tirou uma última fotografia do envelope, uma que eu não lembrava de ter visto. Luzia estava sentada numa cadeira de madeira, segurando um bebê. Atrás dela, meio fora de foco, aparecia um homem alto, de perfil, com cigarro na mão. Eu conhecia aquele nariz das capas de livros.
Otávio Salles.
-- Esse bebê é quem?
Minha mãe recolheu a foto rápido demais.
-- Uma criança que não devia ter saído na foto.
O celular vibrou de novo. Outra mensagem, agora sem assinatura: "Algumas histórias de família ficam mais dignas quando continuam quietas."
Minha mãe fechou a caixa com as duas mãos.
-- Viu? Eles já sabem que você veio aqui.
