Chapter 3
Helena Montenegro morava no Jardim Europa, numa casa que parecia museu antes mesmo de a porta abrir.
Não havia campainha visível. Uma funcionária me recebeu pelo nome e me conduziu por um corredor onde desenhos emoldurados pareciam observar minha roupa preta de trabalho. No fim, uma sala de vidro dava para um jardim com jabuticabeiras podadas demais para dar fruto. Helena estava numa poltrona baixa, lenço azul no pescoço, dedos compridos apoiados numa bengala de prata.
Ela era menor do que nas fotografias. Mais perigosa também.
-- Marina Duarte -- disse, sem me oferecer a mão. -- Sua mãe tem os olhos de Luzia.
A frase atravessou a sala inteira.
Eu me sentei sem convite.
-- Então a senhora lembra dela.
Helena sorriu com pena ensaiada.
-- Lembro de muitas pessoas que passaram pelo ateliê. Assistentes, moldureiros, costureiras, moças talentosas demais para a vida que tinham e frágeis demais para a vida que queriam.
-- Frágil é uma palavra conveniente quando usada por quem assinou o trabalho dos outros.
A funcionária parou junto à porta. Helena levantou dois dedos, e a mulher desapareceu.
-- Você fala como advogada. Isso é bom. Advogados entendem acordo.
Ela apontou para uma pasta sobre a mesa. Dentro havia uma proposta de consultoria anual para mim: honorários fixos, participação em comitê de proveniência, viagens, visibilidade, acesso a arquivos. Uma gaiola com ar-condicionado.
-- A Fundação precisa de gente jovem -- ela disse. -- Gente com história. Uma Duarte assinando conosco seria um gesto bonito.
Havia, presa por clipe, uma segunda folha que não parecia destinada aos meus olhos. Uma lista de nomes para o comitê da exposição. Ao lado do meu, alguém escrevera a caneta: "neutralizar pela inclusão". Li antes que Helena percebesse. Quando ela estendeu a mão, deixei a pasta aberta mais um segundo.
-- Inclusão é uma palavra generosa -- eu disse. -- Neutralização é mais honesta.
Helena não olhou para a anotação. Não precisava.
-- Toda instituição aprende a transformar conflito em diálogo.
-- E diálogo em silêncio remunerado.
Ela bateu as unhas no braço da poltrona. Só então vi, numa mesa lateral, um pequeno retrato de Otávio jovem com Helena. Atrás dos dois, desfocado, havia o canto de uma tela que eu vira na caixa da minha mãe. A mesma composição, mas maior. A casa inteira era um arquivo que se achava decoração.
-- Bonito para quem?
-- Para você, se souber medir o tamanho do mundo.
Peguei a pasta e fechei.
-- O mundo não cabe na sua sala.
Helena riu baixo. O som tinha pó.
-- Luzia dizia coisas parecidas. Ela também confundia talento com direito. O ateliê dava material, teto, comida, contato com gente importante. Em troca, ela ajudava. Era assim que se aprendia.
-- Ajudar não é ceder autoria.
-- Autoria -- ela repetiu, como quem prova um remédio amargo. -- Menina, você acha que obra nasce pura? Obra nasce de conversa, influência, mão emprestada, ambiente. Eu dei forma pública ao que ela rabiscava em quartos úmidos.
Senti vontade de responder como bisneta. Mantive a voz de perita.
-- Então a senhora não terá problema com infravermelho.
O rosto dela parou.
-- Cuidado com máquinas, Marina. Elas mostram coisas, mas não explicam contexto.
-- Tribunal gosta de coisas que mostram.
-- Tribunal também gosta de médicos, jornais, testemunhas respeitáveis.
A ameaça veio sem levantar volume. Era a ameaça de alguém que já tinha feito isso e guardava o mapa.
-- A senhora está falando de Luzia?
Helena inclinou a cabeça.
-- Estou falando de mulheres difíceis. O Brasil sempre soube tratar mulheres difíceis. Primeiro chamam de intensa. Depois de ingrata. Depois de instável. Se insistem, há laudos.
Meu estômago gelou. Não por mim. Por minha mãe. Por todas as mulheres da minha família ensinadas a falar baixo.
-- Obrigada por confirmar o método.
Ela bateu a bengala uma vez no chão.
-- Não seja teatral. Você é inteligente. Leve o cargo. Assine um parecer técnico limitado. Diga que não há elementos para questionar a atribuição histórica. Não precisa mentir muito. Basta não abrir certas gavetas.
-- Minha bisavó abriu.
-- E morreu pobre, sem nome e com uma ficha médica que ainda existe.
Levantei.
-- A senhora devia ter medo dessa ficha.
-- Eu tenho noventa anos, querida. Medo é para quem ainda tem futuro.
Na saída, passei por uma parede com estudos a carvão. Um deles tinha uma mulher de perfil, queixo firme, olhos de quem encarava o pintor. A etiqueta dizia Helena Montenegro, sem data.
Eu fotografei com o celular.
Helena me viu pelo reflexo do vidro.
-- Isso não é permitido.
-- Então processe.
Quando cheguei à calçada, o ar de São Paulo parecia grosso de escapamento e pressa. Entrei no carro de aplicativo e só então percebi que minhas mãos tremiam.
O celular tocou antes de eu fechar a porta. Número privado.
Atendi sem falar.
Uma voz masculina, conhecida de entrevistas, aulas magnas e orelhas de livro, deslizou pelo aparelho.
-- Doutora Marina, aqui é Otávio Salles. Helena me contou que vocês tiveram uma conversa emotiva. Acho que está na hora de nós duas famílias conversarmos de modo racional.
