Capítulo 3 Uma dívida chamada obsessão

Jordam narrando

Saí da casa de Clarice com a cabeça fervendo e uma certeza martelando dentro de mim: eu não queria machucar aquela garota, mas também não suportava a ideia de continuar olhando para ela de longe, como se fosse apenas mais uma moradora da comunidade.

Eu queria Clarice perto de mim.

Queria ouvir sua voz sem precisar fingir que estava interessado em qualquer assunto banal. Queria descobrir o que se escondia por trás daquele olhar desconfiado, saber o que a fazia sorrir e entender por que ela parecia carregar o peso do mundo nas costas.

Acima de tudo, queria que ela me enxergasse como homem, e não apenas como o gerente do comando de quem deveria manter distância.

Quando entrei na boca, encontrei os homens trabalhando normalmente. Alguns conferiam as movimentações, enquanto outros conversavam perto da entrada. Cumprimentei quem precisava cumprimentar e segui diretamente para o espaço onde o chefe costumava ficar.

Minha cabeça, porém, continuava naquela casa.

A imagem de Clarice sentada no chão, abraçada aos próprios joelhos, não saía dos meus pensamentos. Eu tinha visto muitas pessoas chorarem por causa de dívidas, ameaças e problemas familiares. Na maioria das vezes, conseguia manter a indiferença necessária para fazer meu trabalho.

Com ela, era diferente.

Eu não sabia se aquilo era amor, desejo ou uma obsessão que tinha crescido demais para ser ignorada. Talvez fosse uma mistura de tudo, acompanhada daquela necessidade absurda de resolver os problemas dela, mesmo quando ela nem sequer me pedia ajuda.

A casa estava praticamente vazia. Levaram a cômoda, as roupas que conseguiram encontrar e qualquer objeto que pudesse render algum dinheiro. Eu nem sabia se Clarice tinha um colchão decente para dormir naquela noite.

Aquela garota trabalhava até ficar com o corpo dolorido e, quando voltava para casa, ainda precisava enfrentar os estragos provocados pelos próprios pais.

A raiva apertou meu peito.

Não era justo.

Mas o mundo nunca tinha sido justo comigo, e eu sabia que não poderia mudar todas as coisas erradas que aconteciam ao meu redor.

Ainda assim, no que dependesse de mim, ninguém voltaria a levantar a mão contra Clarice.

Entrei na sala do chefe sem bater.

Ele estava sentado atrás da mesa, conferindo algumas anotações. Levantou os olhos assim que me viu.

— E aí, Jordam? Falou com a garota? Encontrou aqueles dois?

Puxei uma cadeira e me sentei diante dele.

— Falei com ela. Acabou de chegar do trabalho, e a casa estava toda revirada. Levaram até uma cômoda. Ela não sabe onde os pais estão.

O chefe soltou uma risada sem humor.

— Esses dois estão brincando com a sorte. A dívida só aumenta, somem quando precisam dar satisfação e ainda aparecem por aqui quando querem comprar mais. O que você pretende fazer?

Passei a mão pelo rosto.

— O dinheiro eu vou pagar.

Ele deixou a caneta sobre a mesa.

— Você vai pagar trinta mil reais por duas pessoas que nem consegue encontrar?

— Vou.

— E depois?

Inclinei o corpo para a frente.

— Depois, quero que você mantenha discrição. Não precisa anunciar que a dívida foi quitada. Se aqueles dois descobrirem que alguém pagou por eles, vão continuar aparecendo aqui como se nada tivesse acontecido.

O chefe me observou com atenção. Conhecia meus defeitos, sabia como eu costumava agir e, principalmente, não era burro o suficiente para acreditar que aquela decisão tinha sido tomada apenas por bondade.

— Você está querendo resolver a dívida ou comprar alguma coisa com esse dinheiro?

Sustentei o olhar dele.

— Não estou comprando Clarice.

— Não foi isso que perguntei.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Ele recostou-se na cadeira, cruzando os braços.

— Você gosta mesmo dessa menina a esse ponto?

Soltei uma risada curta, sem qualquer alegria.

— Gostar é pouco, chefe. Estou alucinado por essa garota. Faz tempo que não consigo pensar direito quando o assunto é ela.

— E ela sabe disso?

— Não.

— Então talvez seja melhor descobrir se ela quer alguma coisa com você antes de começar a tomar decisões por ela.

Aquelas palavras me incomodaram mais do que deveriam.

Eu não precisava de conselhos sobre relacionamentos. Minha vida nunca tinha sido construída em torno de sentimentos, e eu não estava acostumado a pedir permissão para fazer aquilo que considerava necessário.

— Vou resolver do meu jeito — respondi.

O chefe ficou me olhando por um instante e depois balançou a cabeça.

— Você tem meu aval para pagar a dívida. Mas não me venha depois dizer que eu não avisei se essa história acabar trazendo problemas para dentro do comando.

Levantei-me.

— Pode deixar.

— E Jordam?

Parei perto da porta.

— Não confunda proteger uma mulher com decidir a vida dela.

Não respondi.

Saí dali antes que ele continuasse falando.

A verdade era que eu sabia muito bem o que queria. Queria Clarice ao meu lado, queria tirá-la daquela casa e queria oferecer a ela uma segurança que nunca tivera. Só não sabia como explicar minhas intenções sem fazê-la pensar que eu era mais uma ameaça em sua vida.

E talvez ela tivesse motivos para pensar assim.

Eu não era um homem simples. Tinha um passado cheio de escolhas ruins, uma posição que exigia decisões difíceis e uma reputação que não ajudava em nada. As pessoas me respeitavam, mas poucas confiavam em mim de verdade.

Clarice provavelmente me conhecia pelas histórias que circulavam pela comunidade.

Talvez soubesse do homem que morreu depois de me provocar. Talvez tivesse ouvido falar das minhas explosões de raiva e das vezes em que resolvi problemas de maneira que ninguém deveria considerar normal.

Mesmo assim, eu queria uma oportunidade.

Só uma.

Saí da boca e segui para minha casa, no alto do morro.

O imóvel era grande, mas ainda estava praticamente vazio. Eu tinha mandado preparar o lugar para mim, porém não me preocupara em comprar móveis ou cuidar de detalhes que considerava desnecessários. Havia uma cama, alguns objetos pessoais e o básico para passar a noite.

Naquele momento, pela primeira vez, olhei para o espaço vazio e pensei que precisava mudar aquilo.

Se Clarice fosse morar ali, não poderia encontrar apenas paredes sem vida e um homem que não sabia demonstrar carinho.

Precisava de uma cama confortável, armários, roupas de cama, utensílios para a cozinha e tudo o que uma casa deveria ter para que alguém pudesse se sentir acolhido.

Passei os dias seguintes acompanhando a rotina dela à distância, tentando descobrir como poderia ajudá-la sem aparecer a cada instante.

Foi assim que soube que a lanchonete onde trabalhava havia sido interditada pela vigilância sanitária.

A notícia chegou por um dos rapazes que frequentavam a região.

O estabelecimento precisaria permanecer fechado até que os responsáveis resolvessem os problemas encontrados. Para Clarice, aquilo significava perder sua única fonte de renda justamente quando mais precisava de dinheiro.

Quando soube, senti uma mistura de preocupação e irritação.

Parecia que cada vez que ela tentava dar um passo para a frente, alguma coisa surgia para empurrá-la de volta.

Eu poderia oferecer dinheiro, conseguir outro emprego para ela ou simplesmente dizer que não precisava se preocupar com a dívida.

Mas sabia que Clarice provavelmente recusaria qualquer ajuda que parecesse uma esmola.

Precisava conversar com ela.

No terceiro dia, quando o prazo estava prestes a terminar, decidi voltar à casa dela.

A chuva tinha passado, mas o céu permanecia carregado. Caminhei até a porta e bati duas vezes.

Demorou um pouco para que ela atendesse.

Quando a porta se abriu, senti a raiva subir tão depressa que precisei controlar a expressão para não assustá-la ainda mais.

Clarice estava com o rosto inchado, os olhos avermelhados e uma marca evidente na bochecha.

Uma marca de mão.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

— Quem fez isso com você?

Ela arregalou os olhos, levando os dedos ao rosto.

— Isso? Não foi nada. Eu caí.

Olhei para ela sem acreditar.

— Você caiu e ficou com a marca de uma mão no rosto?

— Jordam, por favor...

— Seus pais estiveram aqui?

Ela desviou os olhos.

Aquele pequeno gesto foi suficiente para me dar a resposta.

Entrei apenas depois que ela abriu espaço, e fechei a porta atrás de mim. A casa continuava desarrumada, e agora havia algumas roupas amontoadas perto da cama.

— Clarice, olhe para mim. Sem mentiras. O que aconteceu?

Ela apertou os lábios, tentando conter o choro.

— Eu cheguei do trabalho e eles estavam aqui. Disseram que precisavam de dinheiro. Eu falei que não tinha, mas eles não acreditaram.

Minha mandíbula se contraiu.

— Continue.

— Eu tinha recebido um pequeno adiantamento antes de a lanchonete fechar. Não era muito, mas era tudo o que eu tinha. Meu pai quis pegar o dinheiro, e eu disse que precisava dele para comprar comida. Ele ficou nervoso e...

A voz dela falhou.

Clarice levou a mão à boca, respirando fundo antes de continuar.

— Ele me bateu. Depois pegou o dinheiro e foi embora com a minha mãe.

Por alguns segundos, não ouvi mais nada.

Apenas senti.

Uma raiva quente, sufocante, que parecia se espalhar pelo meu corpo inteiro. Fechei a mão e, antes que pudesse pensar melhor, acertei a parede com um soco.

Clarice se assustou e deu um passo para trás.

Quando percebi sua reação, a raiva se misturou a uma vergonha amarga. Eu tinha ido até ali para resolver o problema, não para fazê-la sentir medo de mim também.

Afastei-me da parede e respirei fundo.

— Desculpe. Não vou fazer nada contra você.

Ela me observou, ainda assustada.

Eu queria encontrar os pais dela naquele instante. Queria perguntar como tiveram coragem de levantar a mão contra a própria filha depois de tudo o que ela já fazia para tentar ajudá-los.

Mas precisava pensar.

Se agisse movido apenas pela raiva, poderia transformar aquela situação em algo ainda pior.

— Você está machucada em algum outro lugar? — perguntei, tentando controlar a voz.

Clarice balançou a cabeça.

— Só no rosto.

— Precisa de atendimento?

— Não. Eu estou bem.

Não estava. Nós dois sabíamos disso.

Olhei ao redor e percebi que ela tinha separado algumas roupas, provavelmente tentando organizar o pouco que restara.

— Arrume suas coisas.

Ela franziu a testa.

— O quê?

— Pegue suas roupas e o que ainda tiver aqui.

— Para quê? Para onde eu vou?

A pergunta saiu carregada de medo.

Aproximei-me devagar, mantendo uma distância que não a obrigasse a recuar.

— Você não tem dinheiro para pagar a dívida, perdeu o emprego e seus pais continuam colocando você em perigo. Eu tenho uma casa no alto do morro. Você vai ficar lá por enquanto.

Clarice me encarou como se eu tivesse acabado de falar em outra língua.

— Eu não posso aceitar isso.

— Pode, sim.

— Jordam, eu não conheço você.

Aquelas palavras me atingiram, embora eu não demonstrasse.

Ela tinha razão. Conhecia meu rosto, meu nome e minha reputação, mas não sabia quem eu era quando não estava cercado pelos homens do comando.

E eu também não sabia se seria capaz de oferecer a tranquilidade que ela merecia.

— Você sabe quem eu sou — respondi.

— Sei o que as pessoas falam de você.

— E acredita em tudo?

— Não sei no que acreditar. Só sei que estou com medo.

A sinceridade dela me fez parar.

Por um instante, enxerguei a situação pelos olhos de Clarice. Um homem conhecido pela violência aparecia em sua casa, falava sobre uma dívida enorme e, de repente, dizia que ela deveria ir morar com ele.

Eu podia entender por que aquilo parecia assustador.

— Escute — comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — A dívida dos seus pais foi resolvida. Você não precisa mais encontrar trinta mil reais para pagar ao comando.

Ela piscou, confusa.

— Como assim foi resolvida?

— Eu paguei.

O rosto dela perdeu a cor.

— Você pagou a dívida dos meus pais?

— Paguei.

— Por quê?

Eu poderia ter inventado uma desculpa. Poderia dizer que fiz aquilo por consideração, que não queria ver uma jovem pagando pelos erros da família ou que simplesmente estava cumprindo uma obrigação.

Mas ela merecia pelo menos uma parte da verdade.

— Porque não quero ver você sendo prejudicada por aquilo que eles fizeram.

Clarice permaneceu em silêncio, tentando compreender.

— Então eu devo esse dinheiro a você?

A pergunta me fez perceber o tamanho do problema que eu mesmo havia criado.

— Não quero seu dinheiro.

— Mas você acabou de pagar uma dívida enorme por mim. Não existe isso de graça, Jordam.

Ela tinha mais coragem do que imaginava.

Aproximei-me um pouco, sem tocar nela.

— Existe uma coisa que eu quero de você, Clarice.

Seus olhos se encheram de receio.

— O quê?

Sustentei seu olhar.

— Quero que venha morar comigo. Quero que tenha um lugar seguro para dormir, comida na mesa e a oportunidade de procurar outro emprego sem precisar enfrentar tudo isso sozinha.

Ela apertou as mãos diante do corpo.

— E o que você espera em troca?

A pergunta era justa, mas a resposta não era simples.

Eu queria sua companhia. Queria conhecê-la, queria estar perto dela e queria que, algum dia, ela pudesse olhar para mim sem sentir medo.

Também queria que ela fosse minha mulher.

O problema era que desejar aquilo não me dava o direito de exigir.

— Quero uma chance de me aproximar de você — respondi. — Não vou mentir dizendo que não tenho sentimentos. Mas não vou obrigar você a fazer nada comigo.

Clarice me olhou com desconfiança.

— Então por que parece que eu não tenho escolha?

Fiquei em silêncio.

Porque aquela era a pergunta que eu vinha evitando desde o início.

Eu tinha resolvido a dívida, aparecido em sua casa e oferecido abrigo, mas tudo aquilo acontecia enquanto ela estava vulnerável, sem dinheiro e sem saber o que fazer.

Eu podia repetir que minhas intenções eram boas, mas isso não apagaria o peso da situação.

— Você tem escolha — falei finalmente. — Pode aceitar minha ajuda ou pode procurar outro lugar. Não vou deixar que ninguém use essa dívida para ameaçar você.

Ela soltou uma risada triste.

— Outro lugar? Com que dinheiro? Estou sem emprego, sem salário e quase sem roupas. Meus pais levaram tudo o que conseguiram encontrar. Eu nem sei onde vou dormir hoje.

Não tive resposta imediata.

Era exatamente aquela realidade que me fazia querer tirá-la dali. Só que, pela primeira vez, compreendi que não bastava oferecer uma solução. Eu precisava garantir que ela pudesse decidir sem se sentir encurralada.

— Você pode ficar na minha casa enquanto organiza sua vida — disse. — Não precisa me prometer amor, não precisa fingir que sente alguma coisa por mim e não precisa pagar essa dívida com o próprio corpo.

Ela ergueu os olhos.

— E se eu nunca me apaixonar por você?

A pergunta doeu mais do que eu esperava.

Mesmo assim, respondi:

— Então vou ter que aprender a lidar com isso.

Clarice pareceu surpresa.

Eu também estava.

Nunca tinha pensado seriamente na possibilidade de ela não corresponder aos meus sentimentos. Na minha cabeça, bastava aproximá-la, mostrar que poderia protegê-la e esperar que, com o tempo, ela percebesse o que eu sentia.

Mas amor não era uma dívida.

E eu não queria que Clarice passasse o resto da vida ao meu lado apenas porque não tinha para onde ir.

— Você não precisa decidir agora — acrescentei. — Arrume suas coisas. Vou levar você para um lugar onde possa descansar. Depois, conversamos com calma.

Ela olhou para a pequena pilha de roupas.

— Eu tenho medo de você, Jordam.

Não tentei fingir que aquilo não me atingia.

— Eu sei.

— E tenho medo do que pode acontecer se eu aceitar.

Assenti lentamente.

— Então vou precisar mostrar, com atitudes, que você pode confiar em mim.

Clarice baixou os olhos.

Por alguns instantes, o único som dentro da casa foi o barulho distante dos carros passando pela pista.

Eu queria abraçá-la. Queria afastar aquela tristeza de seu rosto e dizer que tudo ficaria bem. Mas não fiz nada disso.

Apenas esperei.

Finalmente, ela se virou e começou a recolher as roupas que ainda possuía.

Não era uma declaração de amor. Não era confiança. Muito menos significava que ela me pertencia.

Era apenas uma jovem tentando encontrar um lugar seguro para recomeçar.

E eu teria de aceitar que, se realmente a queria ao meu lado, precisaria começar respeitando a liberdade que ela ainda tentava recuperar.

Naquela noite, Clarice sairia daquela casa comigo.

Mas conquistar seu coração seria muito mais difícil do que pagar qualquer dívida.

E, pela primeira vez, eu estava disposto a descobrir se conseguiria fazer alguma coisa certa por ela.

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