Capítulo 4 Uma nova realidade

Clarice narrando

Eu continuei olhando para Jordam, sem saber o que dizer. Ele me encarava com uma expressão séria, e eu sentia medo de não saber o que me esperava dali para a frente.

Ele caminhou até o quarto, e eu fui atrás.

Quando entrei, senti vergonha da situação em que vivia. No chão havia apenas um pedaço de papelão e uma coberta velha, onde eu dormia todas as noites. Minhas roupas estavam dentro de uma caixa, pois meus pais tinham levado quase tudo o que ainda tínhamos em casa.

Jordam olhou ao redor e balançou a cabeça.

— Você dormia aqui?

— Sim.

Ele pegou a caixa de roupas e saiu do quarto. Eu o acompanhei, sem saber o que fazer.

Quando chegamos à porta, ele colocou a caixa na motocicleta e montou.

— Sobe.

Obedeci, mesmo nervosa. Passei os braços ao redor de sua cintura para me segurar, e percebi que ele ficou um pouco tenso com o meu toque. Não entendi o motivo, mas não perguntei.

Jordam dirigiu até o alto do morro, onde ficava sua casa. Eu nunca tinha estado naquela parte da comunidade e fiquei surpresa quando chegamos.

A casa era grande, embora ainda tivesse poucos móveis.

Entrei devagar, observando tudo ao meu redor.

— Vou mostrar a casa — ele disse.

Acompanhei Jordam pelos cômodos. Ele me mostrou a cozinha, a sala e os quartos. Depois, abriu a porta de um dos dormitórios e colocou minha caixa perto do armário.

— Você pode organizar esse quarto do jeito que quiser. Se quiser comprar móveis ou mudar alguma coisa, escolha o que gostar.

Olhei para ele, sem entender.

— Mas eu não tenho dinheiro para isso.

— Eu não disse que você precisava pagar.

Baixei a cabeça, sem saber como reagir àquela situação. Eu nunca tinha recebido tanta liberdade para escolher alguma coisa dentro de uma casa.

Jordam ficou me observando por alguns segundos.

— Você vai dormir aqui comigo.

Meu coração acelerou.

Eu sabia que não tinha muitas opções naquele momento, mas ainda estava assustada com tudo o que acontecia.

— Eu não sei se consigo — respondi baixinho.

Ele franziu a testa.

— Por quê?

— Porque não conheço você direito e tenho medo.

Jordam ficou em silêncio por um instante.

— Não precisa ter medo de mim dentro desta casa.

Eu queria acreditar naquelas palavras, mas não era tão simples. A reputação dele era conhecida por todos, e eu não sabia até que ponto poderia confiar naquele homem.

Mesmo assim, decidi não discutir.

Ele mudou de assunto e perguntou:

— Por que você continua tentando ajudar seus pais depois de tudo o que eles fazem?

Sentei-me na beirada da cama.

— Porque são meus pais. Eu sei que eles erram, mas ainda os amo.

Jordam cruzou os braços.

— Eles estão destruindo sua vida, Clarice.

— Eu sei. Já tentei conseguir ajuda para eles em uma clínica pública, mas não havia vagas. Uma particular custa muito dinheiro, e eu não tenho condições de pagar.

Minha voz ficou triste ao me lembrar de tudo o que havia tentado fazer.

— Eu só queria que eles melhorassem. Não quero continuar vivendo assim, mas também não consigo simplesmente abandoná-los.

Ele se aproximou um pouco.

— E o que você quer para o seu futuro?

Fiquei olhando para minhas mãos.

— Eu tinha muitos sonhos. Queria estudar, conseguir um emprego melhor e ter minha própria casa. Mas agora não sei mais. Parece que tudo dá errado quando tento mudar de vida.

Jordam me encarou.

— Você ainda é jovem. Pode conquistar muita coisa.

Soltei um suspiro.

— Espero que sim.

Ele pegou uma toalha limpa no armário e me entregou.

— Vá tomar um banho. Vou pedir alguma coisa para comermos.

Agradeci e segui para o banheiro.

Quando entrei no chuveiro, senti a água quente cair sobre meus ombros. Fazia muito tempo que eu não tomava um banho tão tranquilo. Fechei os olhos por alguns instantes, tentando esquecer os problemas que pareciam me perseguir.

Depois de me lavar, vesti meu conjunto antigo de dormir e desci as escadas com o cabelo ainda úmido.

Na cozinha, havia uma pizza e uma garrafa de refrigerante sobre a bancada.

Jordam estava sentado perto da mesa.

— Sente-se e coma.

Não precisei que repetisse. Eu estava com muita fome e comecei a comer, saboreando cada pedaço.

Quando terminei, percebi que ele me observava.

— O que foi? — perguntei.

— Nada. Só estou olhando para você.

Fiquei envergonhada e desviei o rosto.

Jordam se levantou e veio até mim. Parou diante da cadeira e ergueu delicadamente meu queixo.

— Você sabe que eu sou louco por você, não sabe?

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Não entendo por que gosta tanto de mim.

— Nem eu sei explicar direito. Só sei que quero você perto de mim.

Ele se aproximou um pouco mais.

— Posso beijar você?

Fiquei surpresa com a pergunta. Eu nunca tinha beijado ninguém e não sabia como agir naquela situação.

— Eu nunca beijei um homem — confessei.

Jordam me olhou com atenção.

— Nunca?

Balancei a cabeça.

— Nunca tive namorado. Sempre estive ocupada trabalhando e tentando resolver os problemas dos meus pais.

Ele acariciou meu rosto com delicadeza.

— Não precisa ficar nervosa. Se não quiser, não vou obrigar você.

Aquelas palavras me tranquilizaram um pouco. Eu ainda sentia medo, mas também estava curiosa para descobrir como seria aquele momento.

Depois de alguns segundos, concordei.

Jordam se inclinou e me beijou.

No início, fiquei sem saber o que fazer. Era meu primeiro beijo, e eu estava nervosa demais para acompanhar seus movimentos. Ele percebeu e diminuiu o ritmo, dando-me tempo para me acostumar.

Aos poucos, relaxei.

Quando nos afastamos, meu rosto estava quente, e eu não conseguia olhar diretamente para ele.

— Foi seu primeiro beijo mesmo? — perguntou.

— Foi.

Ele sorriu discretamente.

— Então vou me lembrar desse dia.

Fiquei sem graça com a resposta.

Jordam me ajudou a levantar e me levou até o sofá. Sentamos lado a lado, e ele passou um braço ao redor dos meus ombros.

Eu não sabia o que esperar daquela aproximação, mas não me sentia preparada para dar outros passos naquela noite.

Ele pareceu perceber minha insegurança.

— Não precisa se preocupar com mais nada hoje — disse. — Você está cansada e precisa descansar.

Olhei para ele, surpresa.

— Você não está bravo comigo?

— Por que estaria?

— Porque talvez esperasse outra coisa.

Jordam ficou sério.

— Clarice, eu quero você comigo, mas não vou obrigar você a fazer nada. Quero que se acostume com a casa e que tenha tempo para pensar.

Eu não sabia se conseguiria confiar nele tão depressa, mas aquelas palavras diminuíram um pouco a minha preocupação.

— Obrigada — murmurei.

Ele beijou minha testa e se levantou.

— Vou preparar o quarto ao lado. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar.

Fiquei sentada por alguns instantes, pensando em tudo o que havia acontecido.

Jordam tinha pago a dívida dos meus pais, levado minhas poucas roupas para sua casa e me oferecido um lugar para morar. Eu não sabia exatamente o que ele esperava de mim, mas precisava admitir que estava aliviada por não ter de voltar para aquela casa vazia.

Ao mesmo tempo, tinha medo do futuro.

Eu ainda precisava encontrar outro emprego, descobrir onde meus pais estavam e tentar organizar minha vida. Não poderia depender de Jordam para sempre, por mais que ele insistisse em me ajudar.

Quando terminei de organizar minhas roupas no armário, sentei-me na cama e peguei meu pequeno caderno.

Abri em uma página onde havia escrito alguns dos meus sonhos meses antes.

Estudar. Trabalhar. Ter uma casa. Ser feliz.

Passei os dedos pelas palavras e senti vontade de chorar.

Eu ainda queria tudo aquilo.

Talvez demorasse para conseguir, talvez precisasse enfrentar muitos obstáculos, mas não queria abandonar meus sonhos completamente.

Fechei o caderno e o coloquei sobre a mesa de cabeceira.

Pouco depois, Jordam apareceu à porta.

— Está tudo bem?

— Está. Só estou cansada.

Ele assentiu.

— Tente dormir. Amanhã será um novo dia.

— Boa noite, Jordam.

— Boa noite, Clarice.

Ele fechou a porta devagar, deixando-me sozinha.

Deitei-me sob os lençóis limpos e fiquei olhando para o teto. O colchão era confortável, e eu não precisava me preocupar com a chuva entrando pelas frestas ou com o barulho dos meus pais chegando durante a madrugada.

Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha um lugar tranquilo para descansar.

Ainda não sabia o que aconteceria entre mim e Jordam. Seu jeito intenso me assustava, e eu precisava descobrir se poderia confiar nele.

Mas também sabia que não conseguiria resolver todos os meus problemas de uma vez.

Naquela noite, decidi pensar apenas no dia seguinte.

Precisava encontrar forças para recomeçar, mesmo que ainda não soubesse por onde começar.

Fechei os olhos e abracei o travesseiro.

Eu tinha perdido muitas coisas, mas não queria perder também a esperança de construir uma vida melhor.

E, enquanto o sono chegava lentamente, tentei acreditar que aquele novo capítulo da minha vida poderia trazer oportunidades que eu nunca tivera antes.

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