Capítulo 5 CADA VEZ MAIS OBCECADO

Jordam narrando

Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes havia imaginado Clarice perto de mim. Durante muito tempo, precisei me contentar em observá-la de longe, acompanhando sua rotina e tentando esconder o interesse que sentia por ela.

Agora, ela estava debaixo do mesmo teto que eu.

A simples ideia fazia minha cabeça trabalhar sem descanso. Eu queria conhecer cada detalhe daquela garota, descobrir o que a fazia sorrir e entender por que ela conseguia despertar sentimentos que eu nunca soube controlar.

Mas havia um problema.

Clarice parecia se retrair a cada movimento meu. Às vezes, começava a falar e desistia no meio da frase. Em outros momentos, ficava quieta, como se estivesse tentando adivinhar o que eu esperava dela.

Eu percebia o desconforto, embora nem sempre soubesse como lidar com ele.

Estava acostumado a dar ordens e receber respostas imediatas. Não precisava escolher cuidadosamente cada palavra quando conversava com os homens do comando. Com Clarice, porém, qualquer gesto parecia ter um peso diferente.

Eu queria que ela se sentisse bem comigo, mas minha própria presença parecia deixá-la nervosa.

Naquela noite, depois que terminamos de nos preparar para dormir, troquei os lençóis da cama. Havia uma pequena mancha de sangue, e achei melhor colocar tudo limpo antes de me deitar.

Não fiz perguntas. Clarice já tinha passado por dificuldades demais, e eu não queria transformar aquele momento em mais uma situação desconfortável para ela.

Ela parecia exausta.

Assim que se acomodou, adormeceu rapidamente. Fiquei sentado por alguns minutos, observando seu rosto tranquilo. Dormindo, ela parecia mais jovem, sem aquela expressão preocupada que carregava durante o dia.

Pensei em tudo o que havia acontecido desde que a encontrara naquela casa vazia.

A dívida dos pais, o emprego perdido, a marca no rosto e a maneira como ela tentava esconder o sofrimento. Eu queria resolver todos aqueles problemas, mas sabia que não poderia consertar sua vida inteira de uma hora para outra.

Ainda assim, não conseguia afastar a vontade de mantê-la protegida.

Peguei o rádio e chamei um dos rapazes.

— Alguma notícia dos pais da Clarice?

A resposta veio pouco depois.

— Nada, gerente. Ninguém viu os dois desde ontem. Parece que desapareceram.

Soltei um suspiro irritado.

— Continuem procurando. Quero saber onde estão, mas sem fazer confusão com os moradores.

— Entendido.

Desliguei o rádio e o deixei sobre a mesa.

Aqueles dois sabiam muito bem como desaparecer quando precisavam assumir as consequências dos próprios atos. Eu só esperava encontrá-los antes que alguém perdesse a paciência e resolvesse agir sem pensar.

Se eu não chegasse até eles primeiro, a situação poderia terminar de maneira muito pior.

E Clarice não precisava de mais sofrimento.

Deitei-me, mantendo uma distância confortável dela, e tentei dormir. Não demorou muito para que o cansaço me vencesse.

Na manhã seguinte, acordei e percebi que Clarice ainda dormia.

Fiquei alguns segundos olhando para ela antes de me levantar. Eu precisava tomar banho, comprar comida e resolver alguns assuntos do comando. A casa ainda estava praticamente vazia, e não havia quase nada para preparar um café da manhã decente.

Tomei um banho rápido, vesti uma roupa confortável e saí para a padaria.

Comprei pão, queijo, frutas e dois cafés. Aproveitei para trazer algumas outras coisas que imaginei que ela pudesse gostar. Eu não sabia quais eram suas preferências, mas pretendia descobrir.

Quando voltei, encontrei Clarice sentada na escada, com os cabelos desalinhados e uma expressão sonolenta.

Ela se assustou ao ouvir a porta abrir.

A reação me fez parar imediatamente.

— Calma, sou eu.

Ela levou a mão ao peito e respirou fundo.

— Desculpa. É que me assustei.

Deixei as sacolas sobre a bancada.

— Está tudo bem?

Clarice hesitou antes de responder.

— Está. É só que, quando eu ficava sozinha em casa, meus pais apareciam de repente. Às vezes, eu nem conseguia descansar direito porque não sabia o que encontraria quando voltasse do trabalho.

Aquela explicação me deixou incomodado.

Ela não deveria sentir medo dentro da própria casa. Muito menos carregar a preocupação de que os pais pudessem aparecer a qualquer momento para levar o pouco que ainda possuía.

— Aqui ninguém vai entrar sem autorização — garanti. — E você não precisa ficar esperando que alguém apareça para levar suas coisas.

Ela assentiu lentamente.

— Obrigada.

Apontei para a cozinha.

— Venha comer. Trouxe algumas coisas da padaria.

Clarice se levantou e veio até a bancada. Quando viu o café e os pães, pareceu surpresa.

— Você comprou tudo isso?

— Comprei. A casa estava vazia, e eu não ia deixar você passar a manhã sem comer.

Ela pegou um pão e se sentou.

Fiquei do outro lado da bancada, tomando meu café enquanto a observava.

— Depois do café, quero que faça uma lista do que está faltando aqui em casa — falei.

Ela levantou os olhos.

— Como assim?

— Comida, produtos de limpeza, coisas para a cozinha. Está faltando praticamente tudo.

Clarice olhou ao redor, como se só naquele momento tivesse percebido o quanto a casa precisava ser organizada.

— O que devo comprar?

Dei de ombros.

— O que você gosta de comer.

Ela demorou um pouco para responder.

— Não tenho preferência. Sempre comprava o que o dinheiro permitia.

Aquela frase me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.

Eu sabia que ela enfrentava dificuldades, mas ouvir que nunca tivera a oportunidade de escolher o que queria comer me fez perceber quantas coisas simples lhe haviam sido negadas.

— Então vai comprar o que tiver vontade.

Ela me encarou, desconfiada.

— Tudo o que eu quiser?

— Dentro do que precisar para a casa, sim. Não precisa ficar calculando cada centavo.

Clarice abaixou os olhos para a xícara.

— Não estou acostumada com isso.

— Vai se acostumar a fazer suas próprias escolhas.

Terminei o café e peguei meu celular para conferir as mensagens que haviam chegado durante a manhã.

— Um dos rapazes vai levar você ao supermercado da pista. Depois, pode passar numa loja de móveis e escolher o que está faltando para o seu quarto.

Ela quase engasgou com o café.

— Escolher móveis?

— Sim.

— Jordam, eu não tenho dinheiro para comprar móveis.

— Eu sei. Vou deixar dinheiro com você.

— Quanto?

— O suficiente para comprar o que precisar.

Clarice ficou me olhando, sem saber o que responder.

— Vou deixar um malote para as compras — expliquei. — É dinheiro para resolver as coisas da casa. Não precisa devolver.

— Malote?

Soltei uma risada curta.

— É dinheiro, Clarice. Um jeito de falar.

Ela assentiu, ainda parecendo desconfiada.

— Está bem.

Eu precisava sair para trabalhar, mas a ideia de deixá-la sozinha me incomodava. Queria passar mais tempo ao lado dela, descobrir o que gostava de fazer e ouvir sua voz sem precisar encontrar uma desculpa para iniciar uma conversa.

Era ridículo.

Eu tinha responsabilidades, homens esperando minhas decisões e problemas que não poderiam ser adiados. Mesmo assim, estava ali, demorando para terminar o café porque não queria me afastar dela.

Quando Clarice terminou de comer, recolheu as embalagens e levou tudo até a lixeira.

Acompanhei seus movimentos com os olhos.

Ela estava usando roupas simples, e os cabelos ainda estavam um pouco desalinhados. Não havia nada de extraordinário naquela cena, mas, para mim, era difícil ignorar a presença dela.

Quando voltou, parei diante dela.

— Clarice.

Ela ergueu o rosto.

— Oi?

Passei a mão delicadamente por sua cintura, esperando para ver como reagiria. Ela ficou quieta, e eu me aproximei devagar.

— Posso beijar você?

O rosto dela ficou vermelho.

Depois de alguns segundos, assentiu.

Aproximei meus lábios dos dela e a beijei suavemente. No começo, ela permaneceu um pouco tímida, mas logo correspondeu ao beijo, ainda sem muita segurança.

Aquilo foi suficiente para fazer meu coração acelerar.

Eu queria continuar perto dela, mas sabia que precisava controlar a pressa. Clarice ainda estava tentando se adaptar àquela casa, e não queria que a intensidade dos meus sentimentos se transformasse em mais um motivo para ela sentir medo.

Afastei-me apenas o necessário para olhar em seus olhos.

— Você fica muito bonita quando sorri — murmurei.

Ela desviou o rosto, envergonhada.

— Você fala essas coisas para todas as mulheres?

A pergunta me fez rir.

— Não.

— Como vou saber?

— Vai ter que me conhecer para descobrir.

Clarice voltou a olhar para mim, e percebi um pequeno sorriso em seus lábios.

Aquele sorriso me atingiu de um jeito inesperado.

Eu estava acostumado a provocar medo, respeito ou desconfiança. Ver Clarice sorrindo por minha causa parecia muito mais importante do que qualquer outra coisa que eu tivesse conseguido na vida.

Passei o polegar delicadamente por sua bochecha.

— Quero que você se sinta bem aqui.

Ela ficou séria novamente.

— Eu vou tentar. Só preciso de um tempo para me acostumar.

Assenti.

— Você terá esse tempo.

Ela pareceu aliviada, e eu me afastei para lhe dar espaço.

Não queria que ela acreditasse que precisava corresponder a cada gesto meu apenas porque eu havia pago a dívida dos pais dela. O dinheiro não comprava seus sentimentos, embora uma parte possessiva de mim desejasse que tudo fosse muito mais simples.

Eu queria que Clarice me escolhesse.

Não sabia quanto tempo levaria, mas precisava aprender a esperar.

Depois de alguns minutos, entreguei a ela uma lista com os itens básicos que faltavam na casa e coloquei o dinheiro dentro de um envelope.

— Quando estiver pronta, o rapaz vai levar você às compras. Se precisar de alguma coisa, me ligue.

Ela pegou o envelope com cuidado.

— E se eu gastar demais?

— Você está comprando comida e coisas para a casa. Não precisa me pedir autorização para cada item.

— Está bem.

— E não precisa comprar tudo hoje. Faça as coisas com calma.

Clarice assentiu e guardou o dinheiro na bolsa.

Eu sabia que ela provavelmente continuaria receosa. Afinal, passara muito tempo vivendo em condições difíceis e aprendendo a sobreviver com pouco. Não seria uma manhã de compras que mudaria tudo isso.

Mas poderia ser um começo.

Peguei minhas chaves e caminhei até a porta.

Antes de sair, olhei para ela mais uma vez.

— Clarice?

— Oi?

— Não deixe ninguém fazer você se sentir culpada por querer uma vida melhor.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Vou tentar.

Saí de casa com aquela resposta na cabeça.

No caminho para a boca, tentei me concentrar nos assuntos que precisava resolver, mas meus pensamentos voltavam para ela a todo instante.

Eu estava cada vez mais envolvido.

Queria protegê-la, queria vê-la feliz e queria ser a pessoa em quem ela confiaria quando precisasse de ajuda. Ao mesmo tempo, precisava reconhecer que minha vontade de tê-la perto poderia se transformar em um problema se eu não aprendesse a respeitar seus limites.

Eu nunca tinha sido um homem paciente.

Com Clarice, teria de aprender.

Porque a verdade era simples: eu poderia pagar dívidas, comprar móveis e oferecer a ela uma casa confortável, mas não poderia obrigá-la a sentir o mesmo que eu.

E, por mais difícil que fosse admitir, o coração dela era a única coisa que eu realmente queria conquistar.

Quando cheguei à boca, fui recebido por um dos rapazes que me aguardava com notícias.

— Gerente, ainda não encontramos os pais da garota.

Minha expressão fechou.

— Continuem procurando. Quero saber onde estão.

Ele assentiu e se afastou.

Respirei fundo e olhei para o alto do morro, na direção da minha casa.

Eu precisava resolver aquele problema antes que ele chegasse até Clarice novamente.

Não permitiria que os erros dos pais destruíssem a chance de ela começar uma vida diferente.

Mas também sabia que, dali em diante, teria de tomar cuidado com as minhas próprias escolhas.

Eu estava acostumado a conseguir aquilo que queria.

Com Clarice, não bastaria querer.

Eu teria de aprender a merecer.

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