Capítulo 2
— Aquela é a Sra. Wells — disse Lily, sem pestanejar. — A nossa nova faxineira.
Minha mão, já meio levantada para acenar, ficou dura, congelada no ar.
A menininha rica ao lado dela ainda não tinha terminado. Ela desfilou até a janela do meu carro, enrugando o nariz com drama, como se a minha simples existência a ofendesse.
— Eu sabia — ela debochou para a outra garota. — Nem a pau que a mãe da Lily dirige um carro caindo aos pedaços desse e ainda por cima parece um trapo. As nossas mães combinam a manicure com a bolsa. Essa aí? Nem pra carregar os sapatos delas serve.
Eu esperei a Lily se meter. Dizer alguma coisa. Qualquer coisa.
Em vez disso, a segunda garota cobriu a boca, rindo baixinho.
— Sério, o cabelo dela tá com cara de que não vê shampoo há dias. Lily, o nível de exigência da sua família pra contratar gente tá despencando.
— Ah, tanto faz, isso é coisa de adulto — Lily retrucou, rispidamente. Ela estava irritada, mas não com elas. — Tô indo.
Minha mão caiu sobre o volante.
Lily acenou toda sorridente, se despedindo das amigas. Mas, quando chegou ao lado do passageiro, ela hesitou de propósito. Lançou um olhar paranoico por cima do ombro, garantindo que ninguém importante estivesse olhando, antes de praticamente se jogar no banco.
— Vai — ela ordenou.
Eu saí para o trânsito num silêncio sufocante. Lily apertou a bolsa cara de dança contra o peito como se fosse uma barricada.
— Quer me explicar aquilo? — eu disse, por fim.
Silêncio.
— Lily. Eu estou falando com você.
Ela nem virou o rosto.
— Explicar o quê?
— Me chamar de faxineira.
Os ombros dela subiram na hora, quase encostando nas orelhas.
— Você pode simplesmente parar de me buscar? — ela desconversou.
Eu pisei no freio com força demais numa placa de PARE.
— Como é que é?
— Manda o motorista — ela retrucou. — Ou literalmente qualquer outra pessoa.
— Eu sou a sua mãe.
Lily finalmente virou para me olhar. Os olhos dela me passaram de cima a baixo, escorrendo julgamento.
— O que é isso que você tá vestindo?
Eu olhei para mim. Jeans desbotado, moletom largo, sapatilha confortável. Tudo limpo, mas definitivamente amassado.
— Você tá sempre com cara de morta de cansada — Lily resmungou, repuxando o lábio com desprezo. — A Miss Mia é completamente diferente. A Miss Mia usa vestidos lindos todo santo dia. Ela cheira a flores, e o cabelo dela tá sempre perfeito. A Daisy disse que quer ser igualzinha a ela quando crescer.
As palavras ficaram presas na minha garganta como vidro estilhaçado. Eu quis gritar com ela — dizer que eu estava carregando o irmãozinho dela, que eu passava todas as manhãs vomitando com violência, que eu não dormia uma noite inteira fazia meses só pra manter essa família de pé.
Mas minha garganta travou. Uma única lágrima, humilhante, escorreu pela minha bochecha. Eu a apaguei com raiva com as costas da mão.
No segundo em que estacionamos em casa, Lily soltou o cinto e disparou direto pro quarto, batendo a porta.
Eu fiquei sozinha no corredor, num silêncio mortal, encarando o espelho do hall de entrada.
Era isso mesmo que eu tinha virado?
Minha pele estava de um pálido doentio. Fios soltos espetavam para todo lado, numa bagunça ressecada. A gola do meu suéter estava eternamente esticada, os punhos desfiando nas bordas. Minha própria filha preferia dizer que eu esfregava banheiro a admitir que eu era mãe dela.
Eu me arrastei até a suíte e escancarei as portas do guarda-roupa. Mais ao fundo, pendurada, estava minha vida passada: ternos de seda bem cortados, vestidos de festa de grife, cores vibrantes. Estendi a mão, passando os dedos pela manga fria e lisa de um vestido verde-esmeralda.
Quando foi a última vez que eu sequer tentei vestir um desses?
Meu celular vibrou em cima da cômoda. Uma mensagem do Ethan: [Estou chegando em casa. Preciso conversar.]
Fiquei olhando para a tela e depois voltei os olhos para os vestidos de seda. Em silêncio, empurrei as roupas de volta e fechei o armário.
Lá fora já estava completamente escuro quando, finalmente, a fechadura da porta da frente girou. Saí da cozinha no instante em que Ethan entrou.
Ele estava no hall de entrada, lutando para tirar os sapatos com o celular bem apertado contra a orelha. No segundo em que me viu, os olhos dele se arregalaram e ele bateu com força na tela, desligando sem nem se despedir.
“Você ainda está acordada?”, ele perguntou, com a voz um tom alto demais.
“Eu moro aqui, Ethan. E eu estava esperando você. Você disse que a gente precisava conversar.”
“Certo. É. Sim.” Ele assentiu rápido demais, enfiando o celular no bolso. “Você, hã... você buscou a Lily na dança hoje?”
Apertei os olhos. “Busquei. Por quê?”
“Nada. Só perguntando.” Ele desviou do meu olhar, foi direto para a sala e se jogou pesado no sofá.
Fui atrás, me sentando bem reta na poltrona de apoio de frente para ele. Ethan se mexeu, desconfortável, se recusou a me encarar e pigarreou alto.
Ethan se inclinou para a frente, entrelaçando os dedos num gesto nervoso, casual demais para ser de verdade. “Olha, eu, na verdade, tenho uma notícia incrível. A Lily conseguiu uma oportunidade enorme.”
Ele nem esperou minha reação e já emendou, disparando o discurso. “Um intensivo de dança em regime de internato em Montana. É de uma companhia de elite. Eles quase nunca pegam crianças da idade dela, mas vão abrir uma exceção. Ela é uma das cinco meninas selecionadas em toda a Costa Oeste.”
“Montana.” Mantive a voz perigosamente lisa, sem emoção. “Por quanto tempo?”
“Todas as férias de verão.” Ethan se apressou em preencher o silêncio. “Eles têm professores de nível internacional. E, além disso, a Mia insiste que isso é ouro puro para as inscrições da Lily em colégio particular. Ela diz que as bancas de admissão adoram esse tipo de coisa—”
Mia. De novo ela.
“Quando?”, eu interrompi, meu tom mais cortante agora.
Ethan piscou, perdendo o embalo. “O quê?”
“Quando isso apareceu, Ethan? Quando a Lily te disse que queria ir pra Montana por três meses?”
Ele mudou o peso do corpo sob o meu olhar. “Há umas duas semanas. A gente estava acertando os detalhes. Eu só quis esperar até a vaga estar cem por cento confirmada antes de te incomodar com isso.”
Duas semanas atrás. Bem quando minha náusea matinal estava no auge. Enquanto eu estava praticamente de cama, vomitando toda manhã, meu marido e a “senhorita Mia” estavam ocupados planejando mandar minha filha de oito anos para o outro lado do país.
Eu me levantei tão de repente que Ethan recuou um fiapo. Martha, nossa empregada de verdade, estava passando pelo arco do corredor com uma pilha de toalhas.
“Martha”, eu chamei, sem tirar os olhos do meu marido. “Pede pra Lily descer. Agora.”
“Ei, não precisa fazer uma cena—”, Ethan começou, também se levantando, o rosto dele piscando culpa.
“Eu não estou fazendo cena. Eu estou falando com a minha filha.”
Um minuto depois, passinhos suaves hesitaram na escada. Lily entrou na sala, ficando perto da porta. Ela torcia os dedos na barra da camiseta, evitando o meu olhar de propósito. Ela já sabia.
“Seu pai me disse que tem um acampamento de verão”, eu falei, com a traição queimando apertada no meu peito. “Em Montana. Uma viagem de três meses que vocês dois estavam escondendo de mim.”
Dei um passo na direção dela. “Você sabia disso, Lily?”
