Capítulo 3

Lily olhou primeiro para Ethan, como se buscasse algum tipo de permissão.

Ethan assentiu de leve. Um movimento mínimo, mas eu vi.

“É verdade.” Lily se virou para mim. “É um programa da escola de dança. A professora Mia disse que é superconcorrido, só os alunos mais talentosos entram.”

“A professora Mia disse que esse tipo de experiência faz diferença se eu quiser entrar numa boa companhia de dança mais pra frente.”

Minha garganta travou, como se estivesse cheia de algodão.

“Você tem oito anos”, eu disse. “Você precisa construir currículo agora?”

“A Daisy foi quando tinha oito”, Lily disse, toda cheia de razão. “Se você não se esforça, fica pra trás. O papai tá certo, você não entende nada disso.”

Oito anos, mentindo sem piscar, sem um pingo de culpa no rosto. Ela estava virando exatamente como Ethan.

A traição do meu marido doeu fundo, mas os olhos da minha filha naquele instante — a frieza, a cumplicidade — isso doeu mais fundo ainda.

Essa criança que eu carreguei por dez meses, empurrando a amante do pai dela, acobertando os dois.

Ela não sabia que isso ia afastar a mãe? Ou ela simplesmente não me queria como mãe?

“Eu não vou permitir”, eu disse.

O rosto de Ethan se fechou.

“Cathy.”

“Três meses é tempo demais”, eu disse. “Eu não concordo—”

“Você pode parar de tentar controlar tudo?” A voz de Ethan pingava impaciência. “Isso é importante pro futuro da Lily.”

“Eu tô fazendo isso por ela—”

“Você só quer me controlar!”, Lily me interrompeu. “Você é sempre assim! Eu quero sorvete, não. Eu quero ver TV, não. Agora eu finalmente tenho a chance de ir pra algum lugar com o papai e você tá atrapalhando!”

“Eu não—”

“Tá sim!” Lily deu um passo à frente, me encarando. “Eu fico feliz quando tô com o papai! Não como com você. Ficar com você só me deixa sufocada. Até as minhas amigas me olham de cima, por eu ter uma mãe como você!”

Ethan não a impediu. Ele se recostou no sofá, observando.

“Lily”, eu queria explicar, queria contar sobre as regras que eu criei pra manter ela segura.

“Eu quero ir pra esse acampamento!”, Lily gritou. “Eu quero ir com o papai. Eu não quero ficar aqui com você.”

Alguma coisa apertou meu peito, esmagando meu coração até ele se partir.

“Não.” Minha voz tremeu. “Você não vai a lugar nenhum.”

Ethan se levantou. “Cathy, chega. Isso realmente é uma boa oportunidade—”

“Eu sei que é uma oportunidade.” Eu olhei pra ele. “Eu só quero saber de quem.”

A expressão de Ethan vacilou.

“Como assim?”, ele perguntou.

“Você não vai levar a Lily pra Montana.” Minhas unhas cravaram nas palmas das minhas mãos. “Você vai levar a Mia. Vai levar ela pra Europa.”

“Isso é ridículo”, ele disse.

“É mesmo?” Eu também me levantei. “Eu estava do lado de fora do seu escritório hoje à tarde. Eu fui te fazer uma surpresa. Eu ouvi cada palavra que você disse pro Dave.”

O rosto de Ethan ficou lívido.

“Você vai levar aquela mulher pra Toscana por três meses”, eu disse. “Usando a nossa filha como disfarce.”

“Você é quem está sufocando—”

“E você.” Virei para Lily. “Você está mentindo por ele. Você sabe que aquela mulher também vai, sabe?”

Lily ficou paralisada por um segundo; depois o rosto dela se retorceu de raiva.

“E daí se eu sei?”, ela gritou de volta. “Pelo menos o meu pai não me faz passar vergonha na frente das minhas amigas! Pelo menos a Srta. Mia se veste bem, fala com delicadeza, não age como uma maluca!”

Eu cambaleei para trás, me segurando na cadeira da sala de jantar.

“Escuta o que você está dizendo—”

“Olha pra você agora.” A voz de Ethan ficou gelada. “Histérica. Delirante. Cathy, você não está bem.”

“Eu não estou doente.” Eu encarei ele. “Doentes são vocês. Vocês estão usando a própria filha pra ficar com aquela mulher. E a Mia—essa tal ‘depressão’ dela é mentira!”

“Cala a boca!”, Ethan rugiu.

“Não é?”, eu apontei para o andar de cima. “Repara como ela se veste quando vem ‘dar aula’ pra nossa filha. Aquelas blusas decotadas. Aquele perfume provocante. Ela põe a mão na sua coxa na nossa sala!”

Ethan veio na minha direção, como se fosse me calar à força.

“A Mia é minha paciente!”, ele rosnou entre os dentes. “E também é professora da Lily. Eu estou ajudando ela pra que ela cuide melhor da Lily.”

“Ela é sua amante!”, eu gritei. “Eu virei isso—olha pra mim—por essa família. E eu estou grávida do seu filho agora. E você está planejando me largar por três meses e fugir com outra mulher.”

Ethan estendeu a mão para pegar meu braço. “Você está louca. Inventando mentiras—”

“Eu não estou!” Eu me soltei. “O motivo de eu ter passado mal, ficado tonta, engordado—não é doença nenhuma. É porque eu estou grávida do seu filho. Eu confirmei no hospital.”

Eu achei que isso ia parar ele. Achei que, pelo menos, ele ia hesitar.

Não parou.

Ele só me olhou com frieza e soltou uma risadinha de desprezo.

“Essa é a sua nova tática?” Ethan balançou a cabeça. “Pra impedir a Lily de ir pro acampamento, pra continuar me sufocando com esse seu controle, você inventa uma mentira dessas?”

“Eu tenho o exame—”

“Chega!”

Desta vez foi Lily quem gritou.

Ela veio pra cima de mim feito um rojão, o rosto contorcido de ódio.

“Você está estragando tudo!”, ela berrou.

Ela me empurrou com força.

“Sai da frente! Para de atrapalhar a gente de ir!”

Eu perdi o equilíbrio. Meu abdômen bateu com tudo na quina afiada da mesa de centro, de madeira maciça.

O mundo ficou branco.

Uma dor rasgando explodiu na minha barriga e, depois—calor. Um líquido escorrendo pelas minhas pernas.

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