Capítulo 4

A luz do sol atravessou minhas pálpebras como uma faca. Acordei numa cama de hospital.

Minha mão desceu instintivamente. Minha barriga. Reta. Vazia.

Ethan estava de pé perto da janela, de costas pra mim — a pose de sempre, fosse depois de uma briga ou agora.

Então ele se virou.

Achei que ia ver alguma culpa. Nem que fosse um lampejo.

O rosto dele não mostrava nada. Nem dor. Nem arrependimento. Só aquela impaciência conhecida, como se eu fosse um incômodo.

— Olha pra você agora — ele disse. — Eu avisei. Suas emoções são instáveis demais.

Minha garganta parecia lixa.

— O quê?

— Você sempre foi assim, Cathy. Paranóica. Irracional. — Ele veio até a beira da cama e me olhou de cima. — O médico disse que o estresse causou o aborto espontâneo.

Eu encarei Ethan como se ele estivesse falando outra língua.

— A Lily me empurrou... — minha voz saiu arranhada. — Eu não tô delirando. Você ia levar a Mia...

— Chega. — Ethan me cortou, gelado. — Ainda botando a culpa nos outros. A Lily só queria ir pro acampamento. Você levou ela ao limite. Se você não fosse tão obcecada em controlar tudo, ela não teria reagido daquele jeito.

As lágrimas vieram. Aquilo era absurdo demais.

A filha dele me empurrou. Era ele quem estava planejando abandonar a família.

E agora ele jogava a culpa em mim.

Ethan suspirou, sentou na beirada da cama e vestiu a cara de médico.

— Escuta, Cathy. Do jeito que você está agora, é perigoso. Você precisa de ajuda — ele disse. — Na minha clínica a gente está pesquisando uma terapia nova. Pra trauma emocional severo. Ela pode te ajudar a... temporariamente colocar seu cérebro pra dormir.

— Dormir?

— Ela pode bloquear essas lembranças dolorosas. — A voz dele ficou mais suave, como se estivesse acalmando uma paciente difícil. — Você vai esquecer o aborto. Esquecer a briga. Esquecer tudo o que for desagradável. Vou te mandar pra Serenity Hills — a melhor clínica. Você vai descansar lá, dormir em paz por três meses.

Eu olhei pra ele.

— Você quer apagar minha memória?

— É pro seu próprio bem — ele disse. — Nesses três meses em que eu e a Lily vamos estar no acampamento, você ia ficar sozinha em casa, entrando em espiral. Ia deprimir, desmoronar. É melhor ir pra lá, não pensar em nada, como se fosse um sonho longo. Quando a gente voltar, eu restauro sua memória. Tudo vai ter ficado pra trás. A gente recomeça.

Recomeça.

Palavras tão tentadoras.

Mas eu sabia o que ele estava pensando. Ele estava pensando em como se livrar desse problema pra curtir a viagem pra Europa sem peso na consciência.

— E se eu não for?

A expressão de Ethan endureceu.

— Então apodreça naquela casa vazia. Agarrada à lembrança do seu filho morto. Ficando cada vez mais louca até se destruir de vez. — Ele se levantou. — É isso que você quer?

Eu fechei os olhos.

O bebê tinha ido embora. Meu marido queria me descartar como lixo. Minha filha me via como inimiga.

O que ainda valia a pena pra ficar acordada?

— Tá bem — eu disse. — Me manda.

Serenity Hills ficava no alto, nas colinas, com um silêncio em toda parte. Paredes brancas, gente de jaleco branco.

Ethan me deixou no meu quarto como se eu fosse um móvel com defeito precisando de conserto.

"Seja lá o que perguntarem, você está aqui pra descansar." Ethan ficou parado na porta, sem nem se dar ao trabalho de olhar para trás uma última vez. "Não arruma confusão, Cathy."

"Eu entendi."

"Te vejo daqui a três meses."

Os tratamentos começaram de forma suave.

Primeiro, remédios. Depois, luzes tremeluzindo, a voz baixa de um médico orientando. Aos poucos, as pontas afiadas começaram a desaparecer.

Mas eu ainda ouvia coisas que não devia.

Naquela tarde, eu estava sentada num banco do jardim, tomando sol. Duas enfermeiras fumavam na esquina.

"Aquela paciente nova do 302. Que tristeza."

"A Sra. Cross? O que aconteceu com ela?"

"Ela acabou de perder o bebê. O Dr. Cross mandou ela pra cá pra um tratamento experimental. No fundo, ele só queria tirar ela do caminho pra poder curtir a vida."

"Meu Deus."

"Eu vi as fotos dele no Instagram. Marcado em Toscana. Com a menininha e uma mulher jovem. Uma familinha perfeita. Nem parece que acabaram de perder um bebê."

Meus dedos se fecharam com força no banco.

Toscana.

Eu já tinha ouvido esse nome em algum lugar. Eu não conseguia lembrar.

O homem chamado Noah apareceu na minha segunda semana.

Ele era voluntário ali. Sempre carregava um livro, sentava no banco em frente ao meu. Ele não falava muito. Às vezes, me oferecia chocolate. Ou apontava um esquilo nas árvores.

Aos poucos, Noah e eu viramos amigos.

Aqueles nomes — Ethan, Lily, Mia — foram sumindo, como ecos de um pesadelo distante.

Minhas lembranças estavam escapando.

Do outro lado do mundo, o sol da Toscana caía generoso sobre os vinhedos.

POV de Ethan

Dois meses passaram rápido.

A Toscana me deu espaço pra respirar. Lily estava feliz. Mia estava sempre por perto.

Mas, de vez em quando, eu ainda pensava na Cathy, deixada para trás naquela clínica.

Até que a ligação chegou.

Naquela tarde, Mia e eu estávamos na cama. Meu celular vibrou insistente no criado-mudo.

Impaciente, eu peguei.

"Alô?"

"Dr. Cross. Aqui é o Dr. Evans, da Serenity Hills", disse a voz do outro lado. "Sobre sua esposa."

Eu me sentei e fiz sinal para Mia ficar quieta.

"O que aconteceu? Deu problema no tratamento?"

"Conforme suas instruções, iniciamos a recuperação de memória. A maioria das memórias centrais voltou", disse o Dr. Evans. "Mas, Dr. Cross, houve alguns desdobramentos incomuns."

"Que tipo?" Eu franzi a testa. "Ela está perdendo a cabeça de novo?"

"Não. Ela está muito calma. Calma de um jeito que... não é normal." O Dr. Evans parecia inseguro. "E tem um voluntário aqui. Noah. Ele ficou bem próximo dela."

"Um voluntário?"

"Sim. A Sra. Cross parece... satisfeita com o estado atual. Ela não demonstra sofrimento."

Meu aperto no telefone se intensificou.

Satisfeita? Aquela mulher que não conseguia funcionar sem mim estava satisfeita?

Uma sensação de perda de controle me invadiu.

"Fique de olho nela", eu disse, frio.

Desliguei. A luz do sol entrando pela janela, de repente, pareceu clara demais.

Mia me abraçou por trás. "O que foi, amor?"

"Nada." Eu a afastei e me virei.

"A gente vai embora. Agora."

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