Capítulo 4 0004
Caminhei até o quarto de Mila, respirando fundo antes de bater. Esperei pacientemente a permissão dela para entrar.
— Entre — ouvi a voz dela dizer.
Abri a porta e entrei. Meus olhos pousaram nela de imediato. Ela segurava um vestido lindo, sorrindo radiante enquanto o admirava.
— Papai comprou pra mim — disse, orgulhosa, e então se virou para me encarar.
Ela deu um sorrisinho de canto.
— Foi mal, mana. Ele não comprou um pra você. Você não passa de uma escrava.
Mordi o lábio inferior para me impedir de chorar. Eu sabia que já devia estar acostumada com a crueldade dela, mas ainda doía... saber que minha própria irmã gêmea me odiava tanto assim.
— Às vezes eu me pergunto por que você ainda está viva — ela continuou, fria. — Você podia simplesmente se matar e descansar de uma vez. Você não pertence a este lugar.
Senti minha loba se agitar, furiosa dentro de mim, a raiva queimando nas minhas veias. Mas me forcei a manter a calma. Se eu perdesse o controle e atacasse Mila, papai me puniria, e eu não queria aquilo. Não hoje. Não no meu aniversário. Ignorando as palavras dela, caminhei até a cama e comecei a arrumá-la em silêncio.
— Hoje é o Festival da Lua de Sangue — Mila disse, presunçosa. — Mal posso esperar para encontrar meu companheiro. E você... — ela riu com crueldade. — Vai continuar sendo escrava para sempre. Eu nem acho que você tenha um companheiro. Quer dizer, quem iria querer uma amaldiçoada?
As palavras dela me despedaçaram. As lágrimas escorreram pelo meu rosto.
E se ela estivesse certa?
E se eu realmente não tivesse um companheiro?
E se esse sofrimento nunca acabasse?
Só de pensar nisso, meu coração se partiu.
Eu me perguntei por que a Deusa da Lua me deu uma segunda chance de vida, sabendo que ela só seria cheia de dor.
“Não escuta ela,” Elena disse suavemente na minha mente. Nosso companheiro vai nos encontrar.
Depois de terminar a cama, saí do quarto em silêncio e fui para a cozinha.
Quando cheguei à cozinha, comecei imediatamente a preparar o café da manhã. Trabalhei o mais rápido que pude; eu não queria apanhar por me atrasar. Quando terminei, levei as bandejas para o salão de jantar. Papai e Mila já estavam sentados, com Kael ao lado deles.
Sem dizer uma palavra, servi a comida com cuidado, prestando atenção em cada movimento, com medo de cometer o menor erro.
— Pai, obrigada pelo vestido. Ele é tão lindo — Mila disse com doçura.
Senti o olhar dela em mim. Ela estava dizendo aquilo só para me deixar com inveja.
— Qualquer coisa pela minha princesa — papai respondeu, orgulhoso. — Se você quiser alguma coisa, é só pedir e eu te dou. Eu arrancaria até as estrelas do céu por você.
As palavras dele atravessaram meu coração. Eu sabia que não devia sentir inveja, mas ele também era meu pai. Eu não merecia nem um pouco de amor? Ser tratada como filha, e não como escrava?
— Mira — Mila disse de repente —, de onde você tirou essa pulseira? Ela é linda.
Levantei a cabeça devagar e olhei para ela, depois para Kael, que permanecia quieto. Minha garganta se apertou. Eu não podia dizer a verdade. Se eu contasse que Kael tinha me dado, papai o puniria. Ele tinha avisado Kael para nunca comprar presentes para mim.
Fiquei em silêncio.
— Não tem nada a dizer? — Mila zombou. — Você roubou?
Meu coração começou a martelar quando papai voltou para mim aquele olhar gelado, esperando uma resposta.
Abaixei a cabeça e continuei servindo, mas a voz cortante dele me fez parar.
— Como você ousa roubar? — disse ele, com calma; a calma dele sempre era a mais assustadora.
Balancei a cabeça, incapaz de falar.
— De onde você roubou isso? — ele gritou.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto. Eu sabia que estava encrencada. Lancei um olhar para Mila, que sorria, satisfeita.
Papai se levantou, erguendo a mão para me bater, mas Kael falou:
— Eu comprei pra ela.
Eu congelei.
Eu não esperava que ele dissesse nada, ainda mais sabendo o preço que aquilo custaria.
— Você fez o quê? — papai rugiu.
— Fiz, sim — Kael disse, sem hesitar. — Eu comprei pra ela. Mira também é minha irmã, e eu tenho todo o direito de dar um presente a ela. Hoje é o aniversário dela. Você não comprou nada, e ainda assim enche a Mila de presentes. Por que você odeia tanto a própria filha?
Tapa!
Papai deu um tapa forte no rosto de Kael.
— Nunca mais fale comigo desse jeito! — ele berrou. — E não ouse chamar essa aí de minha filha. Eu só tenho uma filha... Mila. Ela nunca será minha criança.
Eu encarei Kael, a culpa esmagando meu peito ao ver a raiva queimando nos olhos dele. Aquilo tudo era minha culpa. Eu não devia ter aceitado a pulseira. Nada disso teria acontecido.
— Tire isso — papai ordenou, apontando para mim.
Com as mãos tremendo, tirei a pulseira.
— Dê para a Mila.
— Pai, isso é errado — Kael protestou. — Você precisa parar com isso.
Sorri fraco para Kael por entre as lágrimas e entreguei a pulseira a Mila. Ela a colocou imediatamente no pulso.
— E aí? — ela disse, debochada, balançando a mão. — Ficou bem em mim?
Kael soltou um suspiro profundo e saiu do salão de jantar.
— Enquanto você viver sob o meu teto, vai continuar sendo uma escrava! — papai gritou. — Agora suma daqui!
Encarei a pulseira no pulso de Mila uma última vez antes de me afastar, com o coração em pedaços.
O único presente de aniversário que eu tinha recebido… tinha sido tirado de mim.
Ponto de vista de Asher
Eu tinha acabado de chegar à alcateia Nightwood para o Festival da Lua de Sangue.
Mesmo sem querer estar aqui, Ryn, meu lobo, se recusara a me deixar descansar. Eu estava exausto de ir de alcateia em alcateia em busca da minha companheira, mas, toda vez que eu pensava em parar, ele me lembrava do vazio no meu peito.
Ao descer da minha carruagem real, examinei o terreno onde acontecia a reunião. O lugar estava lotado. Donzelas dançavam com graça ao redor de uma fogueira ardente, o riso delas preenchendo a noite, enquanto homens se ajoelhavam em devoção, rezando para a Deusa da Lua.
Todos pareciam felizes.
Mas não era por isso que eu estava aqui.
Eu estava aqui para encontrar minha companheira e levá-la para casa comigo. Eu precisava da minha Luna. Eu precisava dela. Rezei em silêncio para que esta noite, enfim, fosse o fim da minha busca.
— Por aqui, meu senhor — disse Dax, meu Beta, conduzindo-me para dentro.
Assim que dei um passo à frente, um perfume doce me atingiu.
Eu congelei.
Era inebriante, suave, quente e viciante. Eu nunca tinha sentido nada parecido. Meu coração bateu com violência contra o peito.
Companheira.
Se eu conseguia sentir o cheiro dela… então ela estava aqui.
— Ela está aqui — Ryn rosnou, excitado, dentro da minha cabeça. — Nossa companheira está aqui.
Minha respiração falhou.
— Ela está aqui — ele repetiu, inquieto, quase perdendo o controle.
Olhei ao redor, desesperado, meus olhos vasculhando cada canto, cada rosto, mas eu não conseguia encontrá-la.
— Meu senhor? — perguntou Dax ao perceber que eu tinha parado de andar. — Aconteceu alguma coisa?
Eu o ignorei, continuando a procurar.
Uma felicidade poderosa, avassaladora, subiu por mim. Depois de todos esses anos… eu finalmente a tinha encontrado. Eu queria puxá-la para os meus braços, respirar o perfume dela, marcá-la e reivindicá-la como minha.
Mas ela não estava em lugar nenhum.
Meus olhos escureceram de frustração.
Onde ela estava?
Eu estava perto de perder a cabeça.
Então…
Levantei o olhar.
E o meu mundo parou.
Dois olhos lindos me encaravam de cima. Eu nem conseguia dizer a cor; eram raros, assombrosos e dolorosamente hipnotizantes. Por um instante, nada mais existiu.
Eles estavam cheios de dor.
Ela era a garota mais bonita que eu já tinha visto.
Minha companheira.
Depois de anos procurando, de noites intermináveis de vazio, eu a tinha encontrado. Cada instinto gritava para eu correr até ela, puxá-la para perto e torná-la minha.
Mas então ela fez algo que eu nunca esperei.
Ela se escondeu.
O choque me atravessou como uma lâmina.
Ela não estava feliz. Não estava aliviada. Não havia alegria nos olhos dela, só medo e tristeza. E, por razões que eu não compreendia, aquilo despedaçou alguma coisa bem fundo dentro de mim.
— Vai atrás dela — exigiu Ryn, urgente.
Virei-me para Dax, que parecia completamente confuso.
— Vamos — ordenei, ríspido.
Por que ela se escondeu?
Companheiros não deveriam ter medo um do outro. Eram feitos para se atrair, ligados pelo destino.
A menos que…
Talvez ela não me quisesse.
E esse pensamento doeu mais do que eu jamais achei possível.
Quando entrei no salão, todos os olhares se voltaram para mim.
Ignorei os encaramentos. Eu estava acostumado a ser observado aonde quer que fosse. Eu conseguia ouvir donzelas sussurrando excitadas entre si, mas mantive a expressão calma e indecifrável enquanto caminhava até o rei Raze, que estava sentado, orgulhoso, em seu trono.
— Saudações, rei Raze — eu disse.
Ao me curvar, meu olhar caiu sobre a jovem sentada à direita dele. Ela vestia roupas reais elegantes… claramente uma princesa.
Minha respiração travou.
Ela se parecia exatamente com a minha companheira.
O mesmo rosto. Os mesmos traços. Por um breve momento, meu coração saltou, mas então percebi que havia algo errado. Eu não conseguia sentir o cheiro dela. Aquele perfume doce e inebriante não estava ali.
Estudei os olhos dela com cuidado.
Não eram os olhos que eu tinha visto do lado de fora.
Os olhos da minha companheira estavam cheios de dor, profundidade e algo raro. Os olhos dessa garota eram diferentes.
— Bem-vindo à minha alcateia — disse o rei Raze, arrancando-me dos meus pensamentos. — Fico satisfeito que tenha aceitado meu convite para celebrar este grande festival conosco.
Olhei de volta para ele e fiz um pequeno aceno.
— O prazer é meu.
— Esta é minha filha, Mila — ele disse com orgulho, gesticulando para a jovem ao lado.
Eu a encarei. Ela me deu um sorriso doce.
Ela era bonita, não havia como negar, mas não era ela. Ninguém podia se comparar à minha companheira, mesmo que compartilhasse o mesmo rosto.
Eu não retribuí o sorriso e, em vez disso, voltei minha atenção ao rei.
— E este é meu filho, Kael — continuou o rei Raze. — Ele fará companhia a você durante sua estadia em nossa alcateia.
Assenti de leve para Kael, reconhecendo-o, e então me curvei mais uma vez diante do rei Raze antes de me afastar para tomar meu lugar.
Mas minha mente já não estava mais no salão.
Estava lá fora.
Com uma garota cujo cheiro me assombrava, e cujos olhos eu não conseguia esquecer.
