Capítulo 8 0008
Ele me carregou até o banheiro e me colocou com cuidado na banheira. Observei enquanto ele abria a água; a água morna escorria pela minha pele antes de ele entrar comigo. Minhas bochechas arderam de timidez. Nós dois estávamos nus.
Ele se mexia devagar, com cuidado, como se tivesse medo de me machucar. As mãos dele deslizaram pela minha pele, me lavando com delicadeza, e cada toque mandava um arrepio suave pela minha espinha. Eu permaneci em silêncio, com o coração disparado, deixando que ele cuidasse de mim de um jeito que ninguém jamais tinha cuidado.
Quando terminou, ele fechou a água e me ajudou a sair da banheira, me enrolando como se eu fosse algo precioso. Lado a lado, voltamos para o quarto, com o coração cheio.
Sentei na cama, usando o cobertor para me cobrir. Ele se sentou ao meu lado e me envolveu com os braços. Ficamos assim, sem dizer nada. Depois de um tempo, ergui o olhar para ele.
— Eu tenho que ir agora — eu disse, tentando me afastar, mas ele me segurou com força.
— Por quê? — ele perguntou.
— Eu… eu não posso ficar — murmurei. Por mais que eu quisesse ficar ali e deixar que ele me abraçasse assim, eu estava com medo. Se meu pai descobrisse, ele me mataria.
— Fica comigo. Não vai — ele pediu, com os olhos suplicantes.
Eu olhei para ele, sem saber o que dizer. Nunca na minha vida eu tinha sentido o que estava sentindo agora. Eu não conseguia expressar; era simplesmente demais para explicar. Eu me sentia especial. Eu nem percebi quando as lágrimas começaram a cair dos meus olhos.
— Mira — ele chamou baixinho, enquanto enxugava minhas lágrimas.
— Para de chorar, tá? Eu tô aqui agora — ele disse.
Ele me olhou e beijou meus olhos. — Eu amo seus olhos — sussurrou.
Eu sorri, feliz. Eu não conseguia acreditar que ele amava meus olhos, apesar de tão diferentes, os mesmos olhos que meu pai dizia serem uma maldição.
Ele me deitou e se deitou ao meu lado, a mão dele ainda segurando meu pulso, enquanto nos encaramos até eu, aos poucos, adormecer.
Ponto de vista de Ashuer
Eu a observei dormir tranquila de lado, a respiração suave e constante. Eu não me cansava de olhar para ela. Minha mão continuou envolvendo seu pulso, meus dedos firmes, mas gentis, com medo de que, se eu a soltasse, ela pudesse desaparecer como um sonho ao amanhecer.
Durante anos, eu desejei essa sensação — finalmente segurar minha companheira nos braços, sentir essa completude silenciosa se acomodar no meu peito. E, esta noite, depois de toda a espera, de todas as batalhas dentro de mim, eu finalmente estava fazendo isso.
“Ela é tão linda...” Ryn disse baixinho na minha cabeça, a voz cheia de admiração.
— É — respondi, sem tirar os olhos do rosto dela. Minha outra mão se moveu sozinha, brincando de leve com o cabelo dela, ainda úmido do banho. Cada fio parecia seda sob meus dedos, e o cheiro dela me envolvia, acalmando o lobo inquieto dentro de mim.
“Por que você não a marcou?” Ryn perguntou, depois de um momento.
A pergunta permaneceu no ar, mais pesada do que eu esperava. Dei por mim pensando a mesma coisa. Eu devia marcá-la; era o que os lobos faziam no instante em que encontravam a companheira. Nós as marcávamos, as reivindicávamos, as prendíamos a nós para sempre. Era instinto. Era tradição.
Ainda assim, alguma coisa em mim recuou.
De algum modo, não parecia a hora certa. Eu não conseguia explicar, nem para mim mesmo.
Observei o rosto dela adormecido, gravando cada detalhe, e não pude deixar de notar o quanto ela se parecia com a princesa. A única diferença eram os olhos.
Eu não via a hora de amanhecer. Não via a hora de contar a todos que eu tinha encontrado minha companheira, de levá-la de volta para a minha matilha, de ficar ao lado dela e declará-la minha Luna.
Apertei um pouco mais o meu aperto no pulso dela, depositando um beijo suave sobre os nós dos dedos. Fiquei ali, vigiando-a como um guarda silencioso, até que o sono finalmente me puxou para baixo também.
NA MANHÃ SEGUINTE…
Senti um braço forte ao meu redor. Meus olhos ainda estavam fechados quando, aos poucos, me dei conta do calor ao meu lado, meu corpo afundando naquele conforto desconhecido. O sono ainda me agarrava enquanto eu me perguntava quem estava me segurando de um jeito tão possessivo.
Abri os olhos, preguiçosamente.
Meu coração quase saltou do peito quando vi um rosto dormindo ao meu lado.
Por um instante, o pânico me invadiu e eu quase pulei da cama, até que as lembranças da noite passada voltaram de uma vez só. Meu peito se apertou quando a compreensão me atingiu.
Na noite passada… eu encontrei meu companheiro.
Ashuer.
Eu tinha passado a noite nos braços dele. Cada beijo, cada toque, se repetia na minha mente, e o calor subiu às minhas bochechas. Eu não conseguia acreditar que tinha feito coisas tão safadas com ele.
Virei um pouco e o observei dormir.
Um sorriso repuxou meus lábios.
Eu estava feliz.
Feliz por ter encontrado meu companheiro.
Feliz por ele me amar.
Feliz porque ele ia me tirar daqui, para longe da dor, do medo, do sofrimento.
Pela primeira vez na minha vida, a esperança pareceu real.
Então um pensamento perturbador atravessou minha mente.
O que o Pai vai dizer se descobrir que meu companheiro é um Alfa?
Meu coração afundou.
Não… ele nunca ficaria feliz por mim. Isso eu sabia. Mas, pela primeira vez, eu não me importava. O que importava era que Ashuer me amava, e eu também o amava.
Virei a cabeça na direção da janela e congelei ao ver a luz do sol entrando. A manhã já tinha chegado, o sol brilhando forte no céu.
Meus olhos se arregalaram em choque.
Era a primeira vez que eu dormia até tão tarde.
O medo se apertou ao redor do meu peito. Eu não tinha preparado o café da manhã.
Olhei depressa de volta para o homem que ainda dormia ao meu lado. Com cuidado, levantei o braço dele da minha cintura, tentando não acordá-lo. Saí da cama de mansinho, vestindo meu vestido às pressas.
“O que você pensa que está fazendo? Aonde você vai?” A voz de Elena ecoou na minha cabeça.
“Eu preciso ir. Tenho que preparar o café da manhã”, respondi em voz baixa, enquanto ajustava meu vestido.
“Você não é mais escrava deles”, Elena disse com firmeza. “Você vai ser uma Luna. Não deveria ser vista fazendo esse tipo de coisa.”
“Até lá”, respondi suavemente. Eu não podia me dar ao luxo de irritar meu pai. Eu sabia bem demais que ele não aceitaria desculpa nenhuma se o café da manhã dele não estivesse pronto.
“Mas o nosso companheiro vai te proteger”, Elena insistiu. “Ele não vai deixar ninguém nos machucar de novo.”
Eu não respondi.
Em vez disso, me virei e olhei para Ashuer uma última vez, com o coração doendo e cheio ao mesmo tempo. Então caminhei até a porta, abrindo-a com cuidado para não acordá-lo, e saí do quarto em silêncio.
Andei o mais rápido que minhas pernas conseguiram me levar em direção à cozinha, com o coração martelando alto no peito. O medo me empurrava para a frente; minhas mãos já tremiam antes mesmo de eu chegar à porta.
No instante em que entrei, corri para juntar os ingredientes do café da manhã, me movendo tão depressa que mal conseguia pensar direito. Meus dedos tremiam quando estendi a mão para o fogão, com o pânico rastejando pelas minhas veias.
Eu estava prestes a acender o fogo quando.....
BANG!
A porta da cozinha foi chutada com tanta força que bateu com estrondo na parede.
Girei, em choque, com o ar preso na garganta, mas antes que eu conseguisse sequer falar, um tapa seco atingiu meu rosto.
A força jogou minha cabeça para o lado.
Por um instante, minha mente ficou completamente em branco. Parecia que o tempo tinha parado. Meus ouvidos zuniram alto, e pequenas estrelas dançaram diante dos meus olhos enquanto meu corpo cambaleava, instável.
Eu nem percebi o que tinha acontecido até sentir algo quente escorrendo pelos meus lábios.
Confusa, levantei devagar a mão até a boca.
Sangue.
Minha respiração falhou quando encarei aquilo, com as mãos tremendo ainda mais.
Ergui os olhos e vi dois guardas diante de mim, com expressões duras e cheias de raiva. O jeito como me olhavam fez meu corpo inteiro congelar; parecia que podiam me matar ali mesmo, sem pensar duas vezes.
“O Rei quer você no salão”, disse um deles, frio.
Antes que eu pudesse reagir, eles agarraram meu braço com brutalidade e começaram a me arrastar para fora da cozinha.
“Por favor…”, eu chorei, tentando me soltar. “Por favor, eu só estava…..”
Eles não ouviram.
Meus pés tropeçavam enquanto me puxavam, com as lágrimas embaçando minha visão. O medo se apertou ao redor do meu peito, dificultando respirar. Por mais que eu tentasse resistir, o aperto deles só se fortalecia, e continuaram a me arrastar em direção ao salão.
Meu coração afundou no estômago.
Eu sabia que o que quer que me esperasse lá…
não seria gentil.
As portas do salão se escancararam quando fui arrastada para dentro, com meus pés mal tocando o chão. Os guardas me empurraram para a frente, e eu caí com força no piso gelado diante do trono.
O Rei Raze estava sentado acima de mim’
— Façam ela se ajoelhar! — rugiu o rei Raze.
Mãos ásperas agarraram meus braços, puxando-me para cima com dor antes de me obrigarem a descer de novo, de joelhos. Uma fisgada atravessou minhas pernas, mas eu não ousei gritar.
Ergui a cabeça devagar e congelei.
O salão estava cheio.
Gente demais — anciões, guerreiros, serviçais — todos em volta, me encarando com nojo escancarado, o ódio estampado sem disfarce no rosto. Meu coração disparou, e a confusão me inundou.
O que eu tinha feito desta vez?
Eu não me lembrava de ter cometido crime algum.
— Onde você estava ontem à noite? — o rei Raze perguntou, seco.
Virei a cabeça num golpe, prendendo o fôlego.
Eu não sabia o que dizer. Abri a boca, mas não saiu som nenhum. Eu devia falar a verdade? Que eu estava com o meu companheiro? Passar a noite com o próprio companheiro não era crime… mas, de algum jeito, eu sabia que, para mim, seria diferente.
— Não me faça repetir! — ele trovejou. — Eu ordenei aos guardas que fossem verificar você ontem à noite, e você não estava no seu quarto. Depois de eu ter avisado especificamente para não sair! Como ousa me desobedecer!
A voz dele ecoou pelo salão.
Meu corpo se sentia fraco, como se pudesse desabar a qualquer momento. Lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto eu permanecia ali, de joelhos, tremendo, completamente sem fala.
Meus olhos correram pelo salão.
Eu vi Mila sorrindo.
Sorrindo feliz, como se estivesse saboreando cada segundo do meu sofrimento.
Então meu olhar caiu sobre Kael. Os olhos dele estavam cheios de pena de mim, mas ele não disse nada.
— Pai — disse Mila, com doçura. — Parece que ela se divertiu ontem à noite… com um homem. Ou talvez homens. — Ela abriu um sorriso cruel. — O que são essas marcas no seu pescoço?
Meu coração despencou.
Por instinto, levei a mão ao pescoço para cobri-lo, o rosto queimando de vergonha. Eu nem tinha percebido; meu companheiro deixara marcas na minha pele.
O salão explodiu em murmúrios.
Ergui o olhar devagar para meu pai.
Os olhos dele haviam escurecido por completo, cheios de uma fúria incontrolável.
— Ela é uma vergonha para esta matilha — alguém disse.
— Ela tem que ser banida! — gritou outro.
O ar ficou preso na minha garganta.
Banimento.
Meu coração começou a disparar sem controle. Banimento era o castigo dado a mulheres acusadas de dormir com vários — expulsas, largadas para morrer.
Eu me virei para o rei Raze, pronta para falar, pronta para dizer a verdade: que eu estava com meu companheiro ontem à noite.
Mas ele falou primeiro.
— Pela minha autoridade como Rei e Alfa da Matilha Nightwood — declarou, frio — eu profiro o julgamento.
O salão ficou em silêncio.
— Mira está, a partir deste momento, banida da Matilha Nightwood.
As palavras me atingiram como uma sentença de morte.
Meu mundo se despedaçou.
Meus joelhos tremeram. Minhas lágrimas caíram com mais força.
E então...
As portas se escancararam de novo.
— Não! Ela não pode ser banida!
Congelei, os olhos correndo para a entrada, o coração falhando uma batida.
Ashuer.
Choque e esperança colidiram no meu peito. Meu companheiro… ele estava ali.
