Capítulo 1

Elara

Os flocos de neve caíam como cinzas sobre o prédio cinzento do crematório, e cada um se desfazia no instante em que tocava a ponta congelada dos meus dedos. Eu estava parada do lado de fora das portas de vidro, observando, através dos vidros embaçados pela condensação, o casal de meia-idade do abrigo assinando papéis na recepção. Uma assistente social de blazer azul-marinho estava ao lado deles, prancheta na mão, balançando a cabeça com uma simpatia ensaiada.

Meus pés estavam dormentes dentro dos tênis gastos. O casaco de lã de segunda mão que eu tinha comprado num brechó no Bronx não fazia nada contra o vento de Nova York que cortava o estacionamento como faca. Quando encostei a palma da mão na porta de vidro, o frio queimou—mas não tanto quanto a visão daquele pequeno caixão branco no canto do saguão da funerária.

Tão pequeno. Como uma caixa de joias. Como algo feito para bonecas, não para crianças.

Não para a minha filha.

— Com licença, senhorita Vance.

Um homem de terno bem cortado surgiu ao meu lado—um daqueles advogados corporativos com um Rolex que custava mais do que o salário anual da minha mãe. O hálito dele formava nuvens brancas enquanto falava, cada palavra precisa, eficiente.

— De acordo com a ordem de curatela médica assinada pelo Tribunal de Família de Nova York, a senhora não tem autoridade legal para participar dos preparativos do funeral da menor Lily Vance — ele tirou um documento da pasta de couro com a agilidade de quem já tinha feito aquilo muitas vezes. — Isto é uma ordem de restrição. Se a senhora continuar tentando fazer contato, vamos notificar as autoridades.

As palavras me atingiram como pancadas, mas meu corpo já tinha parado de registrar dor havia muito tempo. Caí de joelhos na neve enlameada. O frio úmido atravessou meu jeans na mesma hora.

— Por favor. — Minha voz saiu estrangulada, irreconhecível. — Só me deixem ver ela. Uma última vez. Eu sou a mãe dela...

— O tribunal decidiu o contrário.

A frase acionou alguma coisa na minha mente—uma porta se abrindo para uma lembrança que eu vinha tentando manter trancada. Mas o luto tem a própria lógica, o próprio tempo. O presente se desfez, e eu estava em outro lugar.


Três dias antes. A ligação.

Eu estava no meio de uma pintura—com as mãos cobertas de vermelho de cádmio e terra de sombra queimada—quando o telefone tocou. Número desconhecido. Quase não atendi.

— É a Elara Vance?

A voz da mulher tinha aquela simpatia cuidadosamente modulada que devem ensinar na faculdade de Serviço Social. Profissional. Distante. Como se ela fizesse esse tipo de ligação todos os dias.

— É. Quem está falando?

— Aqui é a Jennifer Marks, do Serviço de Proteção à Criança do Estado de Nova York. Estou ligando por causa da Lily Vance. — Uma pausa. Longa demais. — Senhorita Vance, sinto muito informar que a Lily morreu hoje de manhã às 11h32. Choque anafilático. Hospital Geral de Rochester. Nossos sentimentos.

O pincel escorregou dos meus dedos. Tinta vermelha espirrou pelo chão de concreto do meu ateliê—se parecendo demais com sangue, com evidência de violência.

— Como assim, morreu? O que aconteceu? Cadê a EpiPen dela? Por que não me ligaram?

— A família acolhedora aplicou a EpiPen imediatamente, mas a reação foi muito severa. Quando a ambulância chegou...

— O que causou isso? O que deram pra ela?

Houve outra pausa. Folhas de papel se mexendo. “De acordo com o laudo preliminar… cookies de aveia. Com pedaços de noz. A mãe acolhedora declarou que não sabia—”

“Está no prontuário dela!” Eu já estava gritando. “Alergia severa a nozes de árvore! Eu avisei eles! Eu avisei o juiz! Eu avisei todo mundo que quisesse ouvir!”

“Eu entendo que a senhora esteja abalada, senhorita Vance, mas a família acolhedora agiu dentro—”

Eu desliguei. Depois vomitei dentro do meu balde de tinta.


Foram três ônibus e um trem até chegar ao Rochester General. Quando cheguei, o hospital já tinha levado ela para o necrotério. Subsolo. Luzes fluorescentes zumbindo como insetos. O cheiro de desinfetante industrial tentando, e falhando, encobrir o cheiro de morte.

O atendente — um homem de aparência exausta, de pijama hospitalar — puxou o lençol só o suficiente para que eu visse o rosto dela.

Lily. A minha Lily.

A pele dela tinha ficado acinzentada. Os lábios estavam entreabertos, como se ela tivesse fazendo uma pergunta quando a morte chegou. Ainda havia migalhas no queixo — dos cookies que mataram ela.

Eu estendi a mão para tocar a bochecha dela. Fria. Tão fria. Como tocar mármore.

“O laudo do médico legista ainda é preliminar”, disse o atendente, a voz cuidadosamente neutra. “Mas tudo indica que a família acolhedora deu a ela cookies de aveia caseiros com pedaços de noz. A alergia está claramente registrada no prontuário médico dela.”

Meus dedos agarraram a borda da mesa de aço. “Onde eles estão?”

“Os pais acolhedores?”

“Onde. Eles. Estão.”

“No andar de cima. Com o advogado deles.” Ele se remexeu, desconfortável. “Senhorita Vance, existe uma cláusula de responsabilidade no termo de acolhimento. O estado assume a responsabilidade pelas decisões de colocação, mas os pais acolhedores, individualmente, são protegidos de—”

“Ela tinha quatro anos.”

Ele desviou o olhar. “Sinto muito. Eu tenho outros corpos para liberar.”

Fiquei ali parada por muito tempo depois que ele saiu, apenas olhando para ela. Decorando a curva da bochecha, as sardas espalhadas pelo nariz, o jeito que o cabelo dela enrolava nas têmporas. Todos os detalhes que eu tinha sido proibida de ver por um ano.

Então peguei o celular e disquei o número do Julian.

Uma vez. Duas. Dez vezes. Ele não atendeu.

Na décima sétima ligação, ele atendeu.

“Julian.” Minha voz falhou no nome dele. “A Lily morreu.”

Silêncio.

“Você me ouviu? A nossa filha está morta. Eles mataram ela. A família acolhedora… eles não conferiram os ingredientes, não seguiram o prontuário médico. A gente pode processar. Você tem advogados, você tem dinheiro, você pode—”

“Elara.” A voz dele era gelo. “Vou dizer isso uma última vez. Eu não tenho uma filha assim.”

As palavras eram tão frias que queimavam.

“A única criança que vai me chamar de ‘papai’ é uma que a Sloane colocar no mundo. Se você continuar com esse assédio, vou mandar minha equipe jurídica entrar com uma ordem de cessar e desistir.”

Ao fundo, eu ouvi a risada dela — a risada cristalina e radiante da Sloane. Depois a voz dela, leve e brincalhona: “Amor, a cerimonialista está ficando impaciente~”

A linha caiu.

Eu fiquei ali naquele necrotério de subsolo, cercada pelo cheiro de morte e desinfetante, e entendi com uma clareza absoluta: ninguém vinha salvar a gente. Ninguém nunca veio.

Mas nem aquela tinha sido a primeira vez que eu tinha perdido ela.

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