Capítulo 2

Elara

No momento em que desci do ônibus, eu entendi no que tinha me metido.

A Mansão Blackwood ardia como uma fogueira contra o céu que escurecia. Todas as janelas acesas. A entrada circular entupida de carros de luxo—Rolls-Royces, Bentleys, um Maybach com placa diplomática. Um tapete vermelho ia dos degraus da frente até o posto de manobrista, onde homens de fraque preto organizavam o trânsito.

Equipes de filmagem. Ring lights. Uma mulher de headset coordenando os takes.

Nos telões de LED gigantes de cada lado da porta:

Instagram: 534 mil assistindo

TikTok: 612 mil assistindo

Fui chegando mais perto, puxada por uma fascinação doentia.

Na tela, Sloane descia a grande escadaria num vestido que provavelmente custava trezentos mil dólares. Seda branca e renda francesa, a cauda se derramando atrás dela como uma cachoeira.

Julian esperava no pé da escada, num smoking azul‑marinho quase preto. Quando ela chegou até ele, ele deslizou um anel no dedo dela—um diamante tão grande que estilhaçava todas as luzes do salão.

Os comentários subiam sem parar:

“MEU DEUS CASAL PERFEITO”

“É ISSO QUE É AMOR DE VERDADE!!!”

“META META META”

Eu fiquei ali, na neve, com as cinzas da minha filha apertadas contra o peito, e assisti os dois se beijarem sob aplausos ensurdecedores.

Um garotinho de smoking em miniatura—no máximo três anos—correu na direção de Julian. As câmeras deram zoom quando Julian o ergueu no colo, rindo.

— Dá um oi pra todo mundo, Alexei!

O menino acenou. Os comentários explodiram:

“O HERDEIRO VANE!!!”

“Ele é tão fofo que eu tô chorando”

Eu vi Julian beijar o alto da cabeça do filho—uma ternura naquele gesto tão familiar que doía. Eu tinha imaginado ele fazendo isso com a Lily.

Eu tinha sido muito idiota.

— Senhorita Vance.

Dois seguranças surgiram da guarita—ambos do tamanho de linebackers, ambos usando fones no ouvido.

— O senhor Vane deu instruções explícitas. A senhora não tem permissão para entrar na propriedade.

Eu já sabia disso. Mas não tinha vindo para estragar o casamento.

Meus dedos congelados se atrapalharam no fecho à altura da garganta. A corrente de prata deslizou livre depois de um momento de resistência.

O pingente de bússola caiu na minha palma.

Pequeno—não maior que uma moeda de vinte e cinco centavos—o metal da gravação já gasto por anos de uso. N. S. L. O. E embaixo: Você sempre vai encontrar o caminho de volta pra casa.

Julian tinha me dado aquilo cinco anos atrás. No meu décimo sétimo aniversário. Dois anos depois que meu pai morreu salvando a vida do avô dele. Dois anos morando na Mansão Blackwood de favor.

— Considere como um lembrete de que você tem um lugar aqui — ele tinha dito.

Eu usei aquela corrente todos os dias desde então. Tocava nela quando me sentia sozinha. Me convencia de que aquilo significava alguma coisa.

Eu era tão nova. Tão desesperada pra acreditar que eu importava.

— Por favor, entregue isso ao senhor Vane.

Eu apertei o colar na mão enluvada do segurança.

— Diz pra ele que a bússola quebrou. Que ela não aponta mais pra casa.

Eu parei. Enchi o pulmão.

— Diz que ele conseguiu o que queria. Que agora ele não tem mais filha. E que eu nunca mais vou incomodar ele.

O segurança pareceu desconfortável.

— Senhorita Vance, talvez a senhora devesse…

— Só entrega pra ele.

Uma porta lateral se abriu. Uma empregada de uniforme preto e branco apareceu. De meia‑idade, o rosto sempre franzido numa expressão de desaprovação.

Os olhos dela caíram no embrulho nos meus braços.

— O que é essa coisa?

— É… — minha garganta fechou. — É minha filha.

O rosto dela se contorceu.

— Que nojo! Você não pode trazer essa imundície perto da casa!

Ela deu um chute no embrulho enrolado no casaco.

O tecido gasto se soltou.

A urna de plástico rolou pela neve.

A tampa rachada se abriu com um estalo.

Cinzas se espalharam pelo chão branco—pó cinza gritante sobre a neve imaculada, se misturando com gelo, terra e pétalas de rosa. Minha filha. Meu bebê. Reduzida a pó e se derramando pela entrada da casa que destruiu nós duas.

— Não—

Eu caí de joelhos.

Meus dedos—nus, congelados, em sangue—raspavam a neve. Tentando juntar minha filha de volta. Tentando separar a Lily do gelo e da lama. Mas era impossível. O vento pegou parte daquele pó e levou embora.

Acabou. Espalhada. Perdida.

— Me desculpa. — Agora eu soluçava. — Me desculpa, Lily. A mamãe não conseguiu te proteger.

De dentro da Mansão Blackwood, a música de piano aumentou. Pelas janelas, eu via Julian girando Sloane em uma dança lenta. O pequeno Alexei batendo palmas, encantado.

Uma família. Perfeita. Legítima. Desejada.

Tudo o que Lily e eu nunca seríamos.

Recolhi o máximo de cinzas que consegui de volta pra urna. Minhas mãos deixaram manchas de sangue no plástico. O casaco estava arruinado — cinza e neve amassadas no tecido.

— Moça, a senhora precisa ir embora agora. — A voz do segurança tinha um tom mais duro. — A segurança já foi chamada. Se a senhora não for…

— Eu já estou indo.

Eu me levantei. Minhas pernas mal me sustentavam.

O segurança olhou pras manchas de sangue que eu tinha deixado na entrada branca. Para as minhas mãos destruídas. Algo mudou na expressão dele — não era bem pena, mas chegava perto.

— Tem um ponto de ônibus a uns oitocentos metros descendo a estrada. Vira à esquerda no portão.

Assenti. Comecei a andar.

Atrás de mim, a música cresceu. Aplausos. Risadas.

Eu não olhei pra trás.


A caminhada pareceu interminável. Meus pés tinham ficado dormentes. O vento cortava o meu suéter fino como se fosse faca. A neve se acumulava nos meus ombros, me transformando em algo entre uma pessoa e um fantasma.

Quando cheguei no abrigo, o visor digital dizia: PRÓXIMO ÔNIBUS: 47 MIN

Quarenta e sete minutos em temperatura abaixo de zero. Com a roupa molhada. Com as mãos que tinham parado de sangrar só porque o frio tinha congelado os cortes.

Sentei no banco de metal e puxei a urna pra perto. Meu corpo se curvou em volta dela, num gesto de proteção.

— Me desculpa — sussurrei. — Me desculpa mesmo, meu amor. A mamãe tentou.

O vento uivava pelo abrigo. Minha visão começou a ficar embaçada — não dava pra saber se era por causa das lágrimas ou da hipotermia.

É assim que termina. Congelada num ponto de ônibus. Esquecida.

Meu celular vibrou.

Peguei com os dedos duros, desajeitados. Mensagem de texto. Número desconhecido.

Desconhecido: Esse número é da Elara Vance?

Fiquei encarando a tela. Provavelmente spam. Mas meus dedos congelados digitaram mesmo assim:

Eu: Sim. Quem é?

Três pontinhos apareceram. Sumiram. Apareceram de novo.

Desconhecido: Você não me conhece. Mas eu sei quem você é.

Desconhecido: Eu vi o que aconteceu na Mansão Blackwood hoje à noite.

Meu coração parou.

Eu: Você é da segurança? Eu já tô indo embora. Não vou voltar.

Desconhecido: Eu não sou da segurança.

Desconhecido: Eu sou alguém que sabe de uma coisa que o Julian Vane não quer que venha à tona.

Desconhecido: Algo que pode destruir tudo o que ele construiu.

Eu devia ter bloqueado o número. Devia ter feito qualquer coisa, menos o que fiz em seguida.

Eu: Do que você tá falando?

Os três pontinhos voltaram a pulsar.

Desconhecido: Não dá pra explicar por mensagem. A gente precisa conversar cara a cara.

Desconhecido: Tem um café chamado O Poeta Afogado. Fica a vinte minutos de onde você está. Vou te mandar o endereço.

Desconhecido: Venha sozinha. Não conte pra ninguém. O que eu tenho pra te dizer... vai mudar tudo.

Desconhecido: A questão é: você tem coragem de ouvir?

Eu fiquei olhando pro celular. Pro endereço que apareceu. Pro visor: PRÓXIMO ÔNIBUS: 43 MIN

Ao longe, eu ainda via o clarão da Mansão Blackwood. A festa continuava. A música ainda tocava.

Digitei três palavras:

Eu: Eu vou sim.

A resposta veio na hora:

Desconhecido: Ótimo. Vou estar te esperando.

Desconhecido: Ah, e Elara? Traz a urna. Pra onde a gente vai, você vai querer manter ela por perto.

Desconhecido: Afinal de contas — é sobre justiça por ela, não é?

Olhei pra o recipiente de plástico no meu colo.

— É — sussurrei pro vento que uivava. — Isso é por você, Lily. Eu prometo.

O ônibus chegou três minutos adiantado. Subi com as pernas quase sem força, paguei com as últimas moedas que eu tinha e desabei num assento lá no fundo.

Pela janela, vi a Mansão Blackwood ficando pra trás, cada vez menor.

Seja lá o que essa pessoa souber — é bom que valha a pena.

Porque eu não tinha mais nada a perder.

E isso me tornava perigosa.

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