Capítulo 2

Elara

A lembrança me puxou mais fundo, me arrastando de volta para o dia em que levaram ela embora.

Um ano antes. Vara de Família de Nova York.

A sala de audiências cheirava a madeira velha e colônia cara. A equipe jurídica do Julian ocupava um banco inteiro — cinco advogados em ternos que custavam mais do que o salário anual da minha mãe. Do outro lado estava meu advogado nomeado pelo tribunal, um garoto com cara de quem tinha se formado na faculdade de Direito na semana anterior.

Eu segurava a Lily no colo, o corpinho dela quente encostado em mim. Ela brincava com o meu cabelo, cantarolando sem melodia, sem imaginar que aquele era o dia em que iam decidir se eu poderia ficar com ela.

O psiquiatra foi o primeiro a depor. Dr. Richard Brennan — contratado pela família Vane, pago pela família Vane, leal à família Vane.

— A senhorita Vance apresentou comportamentos de automutilação aos dezoito anos — declarou ele, lendo das anotações com um distanciamento clínico. — Após um incidente na residência de Hampton, ela precisou de intervenção medicamentosa forçada na propriedade Blackwood. O diagnóstico clínico indica transtorno delirante grave e dependência emocional patológica.

Meu advogado contestou.

— Meritíssimo, esses diagnósticos foram feitos sob coação, e as medicações foram administradas sem...

— A testemunha é um psiquiatra licenciado — o juiz interrompeu. — Pode continuar, doutor Brennan.

— Na minha opinião profissional, a senhorita Vance não tem estabilidade psicológica para manter a guarda de uma criança menor de idade. O risco de dano — seja por negligência, seja pela ideação suicida já documentada da mãe — é simplesmente grande demais.

Depois foi a vez do Julian depor.

Ele estava impecável — terno azul-marinho Tom Ford, abotoaduras de prata, cabelo precisamente penteado. Quando falou, a voz dele saiu medida. Arrependida. A voz de um homem razoável, obrigado a tomar decisões difíceis.

— Meritíssimo, quero deixar claro: eu nunca tive um relacionamento com a senhorita Vance. O que aconteceu... foi um erro. Um incidente lamentável envolvendo julgamento comprometido de ambas as partes. — Ele fez uma pausa. — Mas, desde então, a Elara demonstrou uma obsessão doentia. Múltiplas ameaças de se machucar se eu não reconhecesse a paternidade. Exigências de dinheiro. Assédio à minha noiva.

— Isso não é verdade! — tentei me levantar, mas meu advogado me puxou de volta para o banco. Lily começou a chorar.

— Uma mulher com uma instabilidade mental tão profunda — continuou Julian, sem nem olhar pra gente — representa um perigo para qualquer criança sob seus cuidados.

Meu advogado tentou apresentar provas — os prontuários médicos mostrando que os diagnósticos psiquiátricos tinham sido forjados, que a “automutilação” eram, na verdade, ferimentos de defesa de quando me drogaram à força. O juiz — um homem de cabelos brancos, cujas doações de campanha feitas pela Fundação da Família Vane eram de conhecimento público — mal lançou um olhar aos documentos.

— Cadeia de custódia insuficiente. Pedido indeferido.

O som do martelo ecoou com a mesma definição de uma sentença de morte.

— Com base nas provas apresentadas acerca do estado de saúde mental da mãe biológica e do impacto disso no bem-estar da criança, este juízo considera que a destituição do poder familiar é o que melhor atende aos interesses da menor. Fica, portanto, decretada a perda do poder familiar de Elara Vance. Os Serviços de Proteção à Criança ficam autorizados a dar seguimento ao processo de colocação em família adotiva. O pedido da família adotante requerente é deferido.

Dois assistentes sociais do equivalente ao Conselho Tutelar se aproximaram dos nossos lugares. Profissionais. Eficientes. Já tinham feito aquilo muitas vezes.

Os dedinhos da Lily se agarraram ao meu suéter.

— Mamãe?

— Tá tudo bem, meu amor. Tá...

— Senhora, precisamos que a senhora entregue a criança.

— Mamãe! Mamãe, não vai!

Arrancaram ela dos meus braços. Ela gritou — um som que eu ainda ouço nos meus pesadelos, agudo, apavorado, confuso. Eu me lancei pra frente. Os oficiais de justiça me seguraram, as mãos deles apertando meus braços como torniquetes.

— Ela é alérgica! — eu gritava por cima do choro da Lily. — Amendoim, castanhas, frutos do mar! Vocês têm que anotar isso! Por favor! Vocês precisam lembrar!

Mas eles já estavam levando ela embora. As mãozinhas dela se estendiam na minha direção, o rostinho vermelho, riscado de lágrimas.

A última coisa que vi foi o Julian sentado na galeria, a Sloane ao lado dele, com a mão delicadamente pousada no braço dele. Nenhum dos dois olhou para a criança chorando que estava sendo carregada para fora da sala.

Nenhum dos dois olhou para mim.

Depois, no banheiro do fórum, eu li a sentença de destituição com as mãos tremendo:

“Os direitos parentais de Elara Vance estão permanentemente e irrevogavelmente encerrados. A ex-mãe biológica não poderá ter contato com a menor. Todos os direitos e responsabilidades legais são transferidos para o Serviço de Proteção à Criança, pendente a finalização do processo de adoção. Qualquer tentativa de contato ou interferência na colocação da criança poderá resultar em violação de ordem de restrição e acusação de desacato ao tribunal.”

Eles tinham tirado tudo de mim. Não só minha filha, mas o meu direito legal de um dia voltar a vê-la.


“Senhora Vance?”

Pisquei, a lembrança se desfazendo como fumaça. Uma funcionária da funerária estava parada na minha frente, o rosto cuidadosamente neutro. Percebi que ainda estava ali, em pé, do lado de fora das portas do crematório, a neve se acumulando nos meus ombros.

Pelo vidro atrás dela, dava pra ver que a capela já estava vazia — as cadeiras dobráveis empilhadas contra a parede, as flores sendo recolhidas.

Quanto tempo eu tinha ficado ali parada? A cerimônia tinha acabado. Todo mundo já tinha ido embora.

Minha filha tinha ido embora.

“Me desculpe”, disse a funcionária, com delicadeza. “Eu chamei seu nome várias vezes. O velório terminou faz uns vinte minutos.” Ela olhou em volta, nervosa, e abaixou a voz. “Os pais adotivos... eles assinaram os papéis e foram embora. Eles não...” Ela parou, procurando as palavras. “Eles não levaram ela.”

Meu coração congelou. “Como assim?”

“Eles disseram que já tinham se despedido. Que não precisavam...” Ela fez um gesto impotente na direção do crematório. “Olha, isso não era pra acontecer. Legalmente, a senhora não tem nenhum direito aqui. Mas eu não posso simplesmente... eu não posso deixar uma criança esquecida numa prateleira.”

Ela sumiu lá dentro e voltou alguns instantes depois com algo nos braços — uma urna de plástico, não aquele tipo de madeira preta elegante que ficava em exposição, mas um recipiente cinza-esbranquiçado e barato, com um canto rachado, segurado com fita adesiva transparente. Na tampa, alguém tinha rabiscado com marcador permanente: Lily Vance, 2019–2023.

Quatro anos. A vida inteira dela reduzida a dez dígitos e uma caixa de plástico.

“Eu não deveria estar fazendo isso”, sussurrou a funcionária, empurrando a urna para os meus braços. “Se alguém perguntar, você nunca esteve aqui. Mas nenhuma criança deveria... ninguém deveria ser esquecido assim.”

A urna era mais leve do que eu imaginava — como se os quatro anos de vida da minha filha não pesassem nada. Apertei-a contra o peito, e as lágrimas vieram de uma vez, violentas, incontroláveis.

“Obrigada”, solucei contra a tampa de plástico. “Muito obrigada. Eu... eu não sei como...”

“Só cuide dela”, disse a funcionária, baixinho. “É isso que qualquer mãe pode fazer.”

Tirei o meu casaco — a única coisa quente que eu tinha — e o enrolei com cuidado em volta da urna. Minhas mãos se moviam com a precisão de um ritual, dobrando as pontas, certificando-me de que o frio não ia alcançá-la.

“Lily”, sussurrei contra o plástico. “A mamãe não vai deixar você passar frio.”

Foi então que a Mercedes S-Class preta deslizou bem na minha frente — tão perto que eu poderia ter tocado. Pelo vidro escuro de trás, eu vi o perfil de Julian. Marcado. Perfeito. Ele estava ao telefone, sorrindo aquele sorriso terno que eu não via havia anos.

“Eu sei, meu bem. A cerimonialista está esperando. Eu já estou indo pra casa.”

O carro não diminuiu. Não parou. Simplesmente seguiu pela rua congelada em direção à rodovia, o interior aquecido e o ar-condicionado automático protegendo quem estava lá dentro da tempestade.

Eu fiquei ali, com meu suéter fino, segurando as cinzas da minha filha, e vi ele ir embora.

A passagem de ônibus até a Blackwood Estate custava seis dólares e cinquenta. Contei as moedas com os dedos dormentes — quarters, dimes, nickels tirados do fundo da bolsa. O motorista observava com uma impaciência mal disfarçada. Atrás de mim, os outros passageiros desviavam o olhar da garota de suéter encharcado abraçando um embrulho.

Pelas janelas embaçadas, vi Nova York se transformar. O trecho industrial dando lugar a mansões cuidadas ao milímetro. Muros de pedra. Portões de ferro. Casas com nomes em vez de números.

O território da família Vane.

Quando o ônibus parou na entrada de serviço da Blackwood Estate, eu hesitei antes de descer.

“Tem certeza disso, moça?” O motorista me olhava pelo retrovisor. “Lá é propriedade particular. E a tempestade só tá piorando.”

“Tenho, sim. Obrigada.”

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