Capítulo 3

Elara

No momento em que desci do ônibus, entendi o que eu tinha vindo ver.

A Mansão Blackwood ardia como uma fogueira contra o céu que escurecia. Todas as janelas acesas. A entrada circular entupida de carros de luxo—Rolls-Royces, Bentleys, um Maybach com placa diplomática. Um tapete vermelho ia dos degraus da frente até o ponto do valet, onde homens de fraque preto organizavam o trânsito com uma precisão coreografada.

Equipes de filmagem. Ring lights. Uma mulher de headset coordenando as tomadas.

Nos telões de LED enormes que ladeavam a porta, eu via o número de espectadores ao vivo: Instagram: 534K. TikTok: 612K.

Aproximando-me, puxada por uma fascinação doentia.

Na tela, Sloane descia a grande escadaria num vestido que provavelmente custava trezentos mil dólares. Seda branca e renda francesa, a cauda despencando atrás dela como uma cachoeira. Ela estava luminosa—o tipo de beleza que não parecia real nem ao vivo.

Julian esperava ao pé da escada, em um smoking azul-marinho quase preto. Quando ela chegou até ele, ele deslizou um anel em seu dedo—um diamante tão enorme que quebrava cada luz do salão em arco-íris.

Os comentários passavam rápido, um borrão:

“MEU DEUS CASAL PERFEITO”

“É ISSO QUE É AMOR DE VERDADE!!!”

“GOALS GOALS GOALS”

“Literalmente um conto de fadas”

“Por que eu não encontro um homem assim”

Eu fiquei ali, na neve, com as cinzas da minha filha apertadas contra o peito, e assisti aos dois se beijarem sob aplausos estrondosos.

“Senhorita Vance.”

Dois seguranças tinham surgido da guarita—ambos do tamanho de linebackers, ambos usando fones discretos e expressões de cortesia profissional que não chegavam aos olhos.

“O senhor Vane deu instruções explícitas. A senhora não tem permissão para entrar na propriedade.”

Eu já sabia disso, claro. Mas eu não tinha vindo para invadir o casamento.

Minha mão foi à garganta. À corrente de prata que ficara ali tanto tempo que eu tinha parado de notar o peso. Meus dedos congelados lutavam com o fecho, mal conseguindo mexer no mecanismo minúsculo.

O pingente de bússola escorregou para a minha palma.

Era pequeno—não maior que uma moeda de vinte e cinco centavos—com a gravação gasta de tantos anos de uso. N. S. L. O. E, embaixo, em letra cursiva tão minúscula que era preciso erguer à luz para conseguir ler: Você sempre vai encontrar o caminho de volta pra casa.

O peso dele acionou outra lembrança. A última lembrança boa que eu tinha.


Cinco anos antes. Final de verão. A biblioteca da Mansão Blackwood.

Eu tinha dezessete anos. Dois anos morando em Blackwood—dois anos sendo lembrada todos os dias de que eu estava ali por caridade, que eu devia ser grata, que eu nunca pertenceria de verdade.

Victoria tinha sido particularmente cruel naquele dia. Ela tinha “acidentalmente” derramado café no meu dever de casa e depois riu enquanto eu tentava salvar as folhas. Tristan observou tudo com aquele distanciamento frio que ele tinha aperfeiçoado, sem oferecer ajuda, deixando claro de que lado ele estava.

Eu tinha fugido para a biblioteca—o único lugar onde eles quase nunca iam. Eu chorava em cima do meu livro de álgebra quando Julian entrou.

Na época, ele tinha vinte anos, estava em casa, em Harvard, só para o fim de semana. Ele parou quando me viu, a expressão ilegível.

“O que aconteceu?”

Não foi “você tá bem?”. Não foi “o que houve?”. Só uma pergunta simples, feita no mesmo tom que ele usaria para comentar o tempo.

“Nada”, eu disse rapidamente, enxugando o rosto. “Tô bem.”

Ele atravessou até a escrivaninha onde eu estava sentada, o olhar caindo sobre as folhas manchadas de café. Por um longo momento, não disse nada. Então enfiou a mão no bolso do paletó e tirou uma pequena caixa de veludo.

“Seu aniversário foi ontem. Dezessete, certo?”

Eu olhei para a caixa, quase sem conseguir respirar. Ele tinha se lembrado. Ele realmente tinha se lembrado.

“Sim.”

Ele mesmo abriu, revelando o colar de bússola. Prata. Simples. Elegante. Nada a ver com as joias espalhafatosas que Victoria usava.

— Seu pai salvou a vida do meu avô — ele disse, numa voz neutra. — Isso faz de você alguém que deve ser tratado com respeito nesta casa. O fato de certos membros da família não terem entendido isso é... lamentável.

Ele estendeu a caixinha. Não se ofereceu para pôr em mim. Não me tocou. Só apresentou como se fosse uma transação.

— A gravação diz que você sempre vai encontrar o caminho de volta pra casa. Considere um lembrete de que você tem um lugar aqui. Não por caridade, mas porque isso é devido à memória do seu pai.

Peguei a caixinha com as mãos tremendo.

— Obrigada, Julian.

Ele assentiu uma vez, já se virando pra ir embora.

— Você não devia deixar que eles te façam chorar. Isso é abaixo de você.

— Julian? — chamei.

Ele parou na porta, mas não se virou.

— Isso significa... isso significa muito pra mim.

— É o que é apropriado — ele respondeu. Aí foi embora.

Fiquei ali sentada por horas, segurando aquela caixinha. Repetindo cada palavra na cabeça. Me convencendo de que “você tem um lugar aqui” significava algo além de obrigação. Que “é o que é apropriado” era só o jeito formal dele falar.

Coloquei o colar e nunca mais tirei.

Durante o ano seguinte, usei o colar como um talismã. Tocava nele quando a Victoria zombava. Apertava quando me sentia sozinha. Me convencia de que aquilo era a prova de que eu importava — de que o Julian me via como mais do que a filha de um funcionário morto.

Eu tinha sido tão idiota.

Quando fiz dezoito anos, aconteceu a coisa que mudou meu relacionamento com o Julian.

Acordei naquela cama estranha, a cabeça latejando, o corpo doendo de maneiras que eu não entendia. A luz do sol entrava sem piedade pelas janelas do chão ao teto.

Julian estava de pé perto da janela, totalmente vestido, as costas rígidas.

— Você acordou.

Tentei me sentar, percebi que estava nua debaixo dos lençóis. Fragmentos da noite anterior — eu bebendo champanhe que algumas pessoas me deram numa festa, ficando tonta, um braço me guiando pra algum lugar, e tudo depois disso em branco.

— Julian? O que aconteceu?

Ele se virou então, e o olhar no rosto dele quebrou alguma coisa dentro de mim.

Puro nojo.

— Você realmente não lembra? Ou isso faz parte da encenação?

— Eu não entendo...

— Não. — A palavra saiu seca, cortante. — Não insulte a minha inteligência, Elara.

Ele pegou meu vestido do chão e jogou em cima de mim, sem chegar perto o suficiente pra me tocar.

— Se vista. Tem um carro te esperando.

— Julian, por favor, eu não sei o que...

— Você me dá nojo, Elara.

As palavras foram tão frias que queimaram.

— Eu achei que você entendia o seu lugar aqui. Achei que respeitava o que seu pai fez o suficiente pra não jogar isso fora. Mas você é igual a todas as outras — ardilosa, manipuladora, tentando prender um Vane.

— Não! Eu nunca...

— Você drogou minha bebida. — A voz dele estava vazia, mas cheia de certeza. — Ou mandou um dos seus amiguinhos fazer isso. Não nega. Eu sei o que eu senti. O que aconteceu.

— Alguém deve ter drogado nós dois...

— Eu acordei com a cabeça limpa. Você é quem orquestrou isso. — Ele virou de novo pra janela, a postura toda exalando desprezo. — A única razão de eu não mandar te prender é por causa do que seu pai fez pelo meu avô. Mas essa dívida está quitada agora, Elara. Estamos quites.

— Por favor, você precisa acreditar em mim...

— Cai fora.

— Julian...

— Cai. Fora. — Ele se virou num rompante, e a raiva nos olhos dele foi apavorante. — Antes que eu mude de ideia sobre chamar a polícia. Fica longe de mim. Você me dá ânsia.

Eu juntei minhas roupas com as mãos tremendo. O colar-bússola ainda estava no meu pescoço — eu tinha usado todos os dias por um ano.

Quando tropecei até a porta, olhei pra trás pela última vez.

— Eu te amo — sussurrei. — Sempre te amei.

A expressão dele não mudou. Não amoleceu. Se é que alguma coisa, o nojo só aumentou.

— Isso torna tudo patético.

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