Capítulo 3
Elara
O Drowning Poet ocupava a esquina de um prédio no distrito industrial do Brooklyn — aquele tipo de lugar que parecia abandonado até você notar a luz quente vazando pelas janelas foscas. Uma placa pintada à mão balançava ao vento: uma figura se afogando em tinta, uma das mãos estendida em direção à superfície.
Apropriado.
O sino tocou quando empurrei a porta. O ar quente me atingiu como uma força física — eu não tinha percebido o quanto tinha ficado com frio até o calor fazer minha pele congelada queimar.
O interior era mal iluminado. Paredes de tijolo aparente forradas de estantes de livros. Móveis desalinhados. Cheiro de café e papel velho. Só três outros clientes — todos mergulhados em laptops ou livros.
Um homem estava sentado no reservado do canto dos fundos. Tinha algo em torno dos trinta e poucos anos, corpo atlético sob uma jaqueta de couro. Cabelo castanho um pouco mais comprido, óculos de armação preta, olhos azul-acinzentados. Ele me observava com uma intensidade que fez minha pele arrepiar.
Quando nossos olhares se encontraram, ele ergueu a mão.
Aproximei-me devagar, apertando a urna da Lily contra o peito. Minhas roupas encharcadas pingavam no assoalho de madeira gasta.
— Elara Vance. — A voz dele era baixa, controlada. — Obrigado por ter vindo.
— Quem é você?
— Me chama de Ethan. — Ele indicou o assento à sua frente. — Por favor. Senta. Você parece que vai desabar a qualquer momento.
Sentei. Não porque confiava nele, mas porque minhas pernas já não me sustentavam.
Uma garçonete apareceu — senhora idosa, de olhos gentis que, com cuidado, não demoraram na minha aparência.
— Chocolate quente — Ethan disse em voz baixa. — Com bastante chantilly. E traz umas toalhas.
Ela assentiu e sumiu.
Ethan me estudava.
— Você está se perguntando se isso é uma armadilha.
— A ideia passou pela minha cabeça.
— Não é. — Ele fez uma pausa, como se escolhesse as próximas palavras com cuidado. — Eu sei o que o Julian Vane fez com você. Sei como ele destruiu a sua vida. E sei de algo que pode devolver o favor.
A garçonete voltou com o chocolate quente fumegando e uma pilha de toalhas. Enrolei uma em volta dos ombros, sentindo o calor aos poucos voltar para o meu corpo.
— Tô ouvindo.
Ethan tirou um envelope pardo de dentro da jaqueta. Colocou-o sobre a mesa, entre nós.
— O que eu vou te contar… tem a ver com o filho do Julian. O Alexei.
Meus dedos apertaram o copo.
— O que tem ele?
— Ele não é filho biológico do Julian. — A voz de Ethan era neutra, factual. — Eu tenho provas.
As palavras ficaram suspensas no ar entre nós.
— Isso é impossível. A família do Julian teria…
— Eles não sabem. — Ethan se inclinou para a frente. — Ninguém sabe. Só a Sloane. E agora, eu.
— Como é que você sabe disso?
Algo passou pelos olhos dele. Dor. Raiva. Algo pessoal.
— Porque eu tenho acesso a informações que a família Vane não tem. — Ele deu leves toques no envelope. — Prontuários médicos. Documentos particulares. Evidências de que a Sloane engravidou do Alexei antes de ficar com o Julian. De outra pessoa.
— Por que você está me contando isso?
— Porque o Julian Vane merece perder tudo. — O maxilar de Ethan se contraiu. — Do mesmo jeito que você perdeu tudo.
Olhei para ele com mais atenção. A jaqueta de couro cara que não combinava exatamente com o jeito calculado como ele falava. A forma como suas mãos se agarravam à borda da mesa. A fúria contida na voz.
— Isso é pessoal pra você também.
— É. — Ele não entrou em detalhes. — Mas isso não torna menos verdade. Eu posso provar que o Alexei não é filho do Julian. Tudo que eu preciso é de uma amostra de DNA. Um exame decente. Aí a gente expõe a verdade.
— Como a gente consegue uma amostra?
— O Alexei estuda na Rosewood Academy. Amanhã de manhã vai ter um exame médico escolar. Coleta de sangue de rotina. Eu tenho um contato — alguém que pode separar um tubo extra sem ninguém perceber. — Ethan tirou um cartão de visita. — Esse é o laboratório. Eles processam rápido. Quarenta e oito horas pro resultado.
— E depois?
— Depois a gente torna tudo público. Coletiva de imprensa. Ações judiciais. Ataque na mídia. — Os olhos dele brilharam. — O Julian vai ser obrigado a encarar o fato de que o filho que ele ama — o herdeiro que ele está preparando — não é dele. O conselho da Vane vai virar contra ele. A família vai rachar. E o Julian vai saber como é perder tudo o que importa.
Fiquei encarando o envelope. Aquele estranho me oferecendo exatamente o que eu queria.
— Por que eu deveria confiar em você?
— Você não deveria. — Ethan empurrou o envelope na minha direção. — Mas olha as evidências. Confere por conta própria. Depois decide se quer justiça ou se quer continuar sendo o fantasma invisível do Julian.
Abri o envelope com as mãos trêmulas.
Dentro: prontuários médicos com os nomes cuidadosamente apagados. Documentos de uma clínica de fertilidade. Uma linha do tempo mostrando que a gravidez de Sloane veio antes do relacionamento dela com Julian. Fotografias de Alexei com uma análise de reconhecimento facial destacando traços incompatíveis com os marcadores genéticos de Julian.
Era minucioso. Convincente.
Mas havia algo errado.
— Isso é muita pesquisa — falei devagar. — Prontuários médicos sigilosos. Informação restrita. Como você…?
— Isso não é o que importa. — Ethan me interrompeu. — O que importa é: você quer fazer o Julian pagar?
Olhei para a urna da Lily na mesa ao meu lado.
Eu queria vingança? Queria.
Eu confiava nesse estranho? Não.
Mas que escolha eu tinha?
— Amanhã de manhã — disse, quase num sussurro. — Onde eu te encontro?
— Rosewood Medical Center. Em frente à escola. Dez da manhã. — Ethan se levantou, tirou dinheiro para pagar as bebidas. — Traga um documento. E… — Ele lançou um olhar para a urna. — Traga ela. Porque, quando tudo isso acabar, você finalmente vai ter algo pra dizer pra ela.
Ele caminhou até a porta, depois parou.
— Mais uma coisa, Elara. Não fale disso com ninguém. Se o Julian ficar sabendo antes de a gente ter os resultados… — Ele balançou a cabeça. — A família Vane tem seus jeitos de fazer problemas desaparecerem.
E então ele se foi, me deixando sozinha com as provas e com os meus pensamentos.
Fiquei encarando os documentos. Os prontuários. A linha do tempo que provava que Alexei não podia ser filho biológico do Julian.
Isso pode destruir ele. Isso pode finalmente fazer ele sentir o que eu senti.
Mas uma vozinha sussurrou: É perfeito demais. Conveniente demais.
Empurrei a dúvida para longe.
— Amanhã — murmurei para a urna de Lily. — Amanhã a gente começa a pegar de volta o que eles roubaram da gente.
Do lado de fora, a neve continuava a cair.
E, pela primeira vez em anos, eu senti algo além de luto.
Esperança.
Uma esperança perigosa, frágil.
O Rosewood Medical Center ficava em frente à prestigiada Rosewood Academy — todo de vidro e aço, com aquele tipo de minimalismo arquitetônico que gritava “a gente é caro demais pra você”.
Cheguei às 9h45. Nervosa.
O prédio médico estava movimentado — mães com filhos, casais de idosos, alguns engravatados pegando café no Starbucks do térreo.
Encontrei um banco perto da fonte e esperei.
10h00 veio e passou. Nada do Ethan.
10h15. Ainda nada.
Às 10h30, peguei o celular. Tentei ligar para o número de que ele tinha mandado mensagem na noite anterior.
“O número que você discou não está mais em serviço.”
Meu estômago afundou.
Tentei de novo. A mesma mensagem.
Não. Não, não, não. Isso não pode…
Às 10h45, uma mulher de jaleco e roupa de enfermagem saiu do prédio médico. Ela olhou em volta, até que seus olhos me encontraram.
Veio na minha direção, apressada.
— Você é a Elara Vance?
— Sou. Quem é você?
— Trabalho no laboratório daqui. — Ela tirou um envelope da bolsa. — Alguém me pagou para processar um exame de DNA. Resultado de urgência. Disseram que você ia estar aqui para buscar.
— Onde está o Ethan?
— Não conheço nenhum Ethan. Fui contatada por telefone, recebi instruções bem específicas e fui paga em dinheiro vivo. — Ela enfiou o envelope nas minhas mãos. — Não quero me envolver no que quer que isso seja. Pega o resultado e vai embora.
Ela se afastou antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa.
Sentei de novo, com o envelope pesando nas minhas mãos. Meus dedos tremiam enquanto eu rompia o lacre.
Dentro: duas páginas de resultados de laboratório. Terminologia médica densa. Números de referência. E, embaixo, destacado em amarelo:
CONCLUSÃO: A criança testada (Amostra A) e o suposto pai (Amostra B) NÃO compartilham paternidade biológica. Probabilidade de paternidade: 0%
Amostra A: Alexei Vane
Amostra B: Julian Vane
Li três vezes.
Alexei não era filho do Julian.
Ethan tinha dito a verdade.
Minhas mãos tremiam tanto que eu quase deixei os papéis caírem. Tirei fotos com o celular — de vários ângulos, imagens nítidas de cada página.
É isso. É assim que eu destruo ele.
Imaginei a cena: entrando na coletiva de imprensa no dia seguinte. Mostrando o resultado de DNA para as câmeras. Vendo a vida perfeita do Julian desmoronar em tempo real.
Ele vai saber como é. Finalmente.
