Capítulo 4
Elara
— Ora, ora. Olha só o que temos aqui.
A voz era seda por cima de lâminas.
Olhei para cima.
Sloane Kennedy-Vane estava na minha frente, óculos de sol de grife apoiados na cabeça, um casaco creme da Hermès caindo sobre os ombros. Parecia ter acabado de sair de uma revista de moda.
Atrás dela: dois homens de terno escuro. Segurança. Ou coisa pior.
— Me dá os papéis, Elara.
Meus dedos se fecharam em volta do envelope.
— Não.
— Isso não foi um pedido.
Ela fez um sinal com a cabeça. Um dos homens avançou — rápido, profissional — e arrancou o envelope das minhas mãos antes que eu conseguisse reagir.
— Não! Devolve isso!
Sloane pegou o envelope, puxou o resultado do exame de DNA e o examinou com uma expressão de leve divertimento.
— Fascinante. O Ethan se superou desta vez. — Ela me encarou, com algo parecido com pena nos olhos. — Deixa eu adivinhar. Ele disse que tinha prova de que o Alexei não era filho do Julian. Se ofereceu pra te ajudar a se vingar. Fez você acreditar que finalmente tinha uma arma.
Meu sangue gelou.
— Como você…?
— Porque o Ethan é meu ex-namorado. — A voz de Sloane era casual, como se estivesse falando do tempo. — A gente namorou anos atrás. Antes do Julian. Antes de tudo. E ele nunca superou direito.
Ela examinou as unhas perfeitamente feitas.
— Quando eu escolhi o Julian — quando eu escolhi a vida que eu merecia — o Ethan levou pro lado bem pessoal. Desde então vive procurando um jeito de voltar pra mim.
— O teste de DNA é verdadeiro — eu disse, com a voz trêmula. — Esses resultados…
— Ah, tenho certeza de que os resultados são reais. O Ethan pode ser muita coisa, menos relaxado. — Sloane sorriu. — Mas é aí que você não entende, Elara. Isso não importa.
— Como é que não importa? O Julian não é…
— O Julian é quem eu digo que ele é. — A voz de Sloane cortou como vidro. — Quanto ao pai biológico do Alexei? Isso é problema meu. E, sinceramente, pode ser qualquer um. Talvez seja o Julian. Talvez seja o Ethan. Talvez seja outra pessoa totalmente diferente.
Ela se inclinou pra mais perto, abaixando a voz até um sussurro.
— A beleza de ser Sloane Kennedy-Vane é que eu é que decido. A narrativa é minha pra controlar. E, neste momento, o Julian acredita que o Alexei é filho dele. Ele ama aquele menino. Daria a vida por ele. E isso é tudo que importa.
— Você tá mentindo pra ele…
— Eu tô protegendo a minha família. — Sloane se endireitou. — O Ethan queria destruir isso. Queria usar você como arma porque ainda é pateticamente apaixonado por mim. Porque ele não aceita que eu escolhi alguém melhor.
Ela tirou o celular e me mostrou uma conversa de mensagens.
Sloane: Ethan, eu sei o que você tá planejando. Por favor, não faz isso.
Sloane: Eu nunca quis te machucar. Mas isso não vai mudar nada. Só vai destruir gente inocente.
Sloane: Se você algum dia se importou comigo de verdade… por favor, para.
Os horários marcavam hoje de manhã. 6h47.
— Liguei pra ele hoje cedo — disse Sloane, suavemente. — Lembrei ele do que a gente já significou um pro outro. Pedi pra ele desistir. Pra deixar pra lá. — Ela sorriu. — E graças a Deus ele me ouviu. Caso contrário, isso aqui podia ter ficado bem feio.
— Você manipulou ele…
— Eu apele[i] pro lado dele que ainda me ama. Pro lado que sabe, lá no fundo, que eu fiz a escolha certa. — Os olhos de Sloane endureceram. — O Ethan não é o pai do Alexei, Elara. Não de um jeito que importe. Ele é só um ex amargo tentando sabotar a minha felicidade.
— Então por que ele não apareceu? Por que ele abandonou…?
— Porque eu convenci ele de que destruir o meu casamento não ia trazer eu de volta. Só ia machucar uma criança inocente. Que talvez, só talvez, ele devesse me deixar ser feliz. — Sloane guardou o celular. — Na verdade eu sou grata por ter feito aquela ligação. Nos poupou de muita dor de cabeça.
Ela ergueu o resultado do exame de DNA.
— Esses papéis? Não significam nada. Mesmo que sejam exatos — o que eu não tô confirmando — eles não provam nada além de que o Ethan tá desesperado o suficiente pra te arrastar pras loucuras dele.
— A linha do tempo não bate. Você já tava grávida antes de você e o Julian assumirem o relacionamento…
— A gente tava junto em segredo muito antes de tornar público. Mas é claro que o Ethan não te contou essa parte, contou? — A voz de Sloane pingava de desdém. — Ele te deu só verdade o bastante pra fazer as mentiras dele parecerem críveis.
Ela fez uma pausa, a expressão mudando para algo quase gentil.
— Sabe qual é a parte mais triste, Elara? Você realmente achou que isso ia dar certo. Achou que um teste de DNA ia ser suficiente pra destruir a família Vane. — Ela riu — baixa, com pena. — Você perdeu a sua própria filha porque não conseguiu proteger ela. E agora quer vir atrás do meu filho?
As palavras me atingiram como um golpe físico.
— A Lily morreu porque você foi considerada incapaz. Porque até o tribunal — até estranhos — conseguiram ver que você não tinha condições de ser mãe. — A voz de Sloane estava quase dócil agora, o que só deixava tudo pior. — E em vez de aceitar isso, em vez de conviver com o seu fracasso, você tá tentando arrastar todo mundo pro fundo junto com você.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto.
— Você é patética, Elara. Uma mulher patética, quebrada, que não consegue deixar o passado ir embora. — Sloane entregou os papéis pra um dos seguranças. — Faz.
Ele tirou um isqueiro do bolso. Abriu. Encostou a chama nos resultados de DNA.
Eu fiquei olhando enquanto eles queimavam. A fumaça se enrolando no ar gelado. Minha última prova virando cinza.
Como a Lily.
— Apaga as fotos do seu celular — disse Sloane, em voz baixa. — Agora. Enquanto eu olho.
Minhas mãos tremiam quando peguei o celular. Os seguranças se aproximaram.
Olhei pras fotos dos resultados de DNA. Minha última prova. Minha última esperança.
Devagar, eu as apaguei.
Uma por uma.
Até não sobrar nada.
— Boa menina. — A voz de Sloane era quase terna. — Viu? Não foi tão difícil assim.
Ela começou a se virar, depois parou.
— Ah, e Elara? Se eu te vir perto da minha família de novo — perto do Julian, do Alexei, de qualquer um de nós — eu não vou ser tão misericordiosa. — Os olhos dela ficaram gelados. — Vou dar um jeito de te internar. Pra sempre. E dessa vez, não vai ter data de alta.
Ela foi embora, com os seguranças a cercando como lobos.
Eu fiquei sentada naquele banco por muito tempo depois que eles se foram.
O Ethan tinha me abandonado. Me usado. Me dado esperança só o suficiente pra queda doer mais.
E agora eu não tinha nada.
De novo.
A Casa de Vidro ficava no fim de Hampton Beach — todas as paredes transparentes e uma exposição sem piedade. O Julian tinha construído aquilo anos atrás, durante a minha gravidez. Chamava de “retiro de recuperação”.
A verdade: um aquário humano onde cada momento do meu cativeiro tinha sido visível. Observado. Controlado.
Agora ela brilhava de luz. Eu conseguia ver pelas janelas — equipes de obra preparando tudo pra reforma. A Sloane tinha comentado numa entrevista na semana passada. A “casa de praia dos sonhos” onde ela e o Julian iam passar os verões com o Alexei.
Minha prisão, reaproveitada pro paraíso dela.
Não fiquei olhando por muito tempo.
Fui até a beira da água, a urna da Lily apertada contra o peito. O oceano se estendia sem fim na minha frente — escuro, gelado, indiferente.
Tirei o frasco de comprimidos do bolso. O ansiolítico que tinham receitado depois que levaram a Lily embora. Sessenta comprimidos. Eu nunca tinha tomado um sequer.
Desrosqueei a tampa. Virei os comprimidos brancos na palma da mão.
Por um momento, eu hesitei.
Pensei nas fotos que eu tinha apagado. No Ethan, onde quer que estivesse, provavelmente já esquecendo que eu existia. No sorriso cheio de pena da Sloane e na crueldade casual dela.
No Julian, que nunca ia saber — nunca ia se importar — que eu tinha morrido.
“Você me dá nojo, Elara.”
Engoli o primeiro punhado de comprimidos. Depois outro. E outro.
Desciam com gosto amargo e químico, mas eu continuei até o frasco ficar vazio.
Então entrei no mar.
A água bateu nos meus tornozelos. Nos meus joelhos. Na minha cintura. Tão gelada que parecia queimar, como se meu corpo estivesse sendo apagado centímetro por centímetro.
A cada passo mais fundo, eu sussurrava pra urna nos meus braços:
— Não fica com medo, Lily. A mamãe tá aqui agora.
Minha voz já saía arrastada. Os remédios estavam fazendo efeito rápido.
— A gente tá indo pra um lugar sem dor. Um lugar onde os Vane não conseguem alcançar a gente.
O oceano me engoliu até os ombros. O peito. O pescoço.
— Um lugar onde a gente nunca mais vai ser separada.
Meu último pensamento consciente se formou com uma clareza perfeita, afiado como vidro quebrado:
Se eu pudesse fazer tudo de novo... eu nunca mais te amaria, Julian Vane. Nunca deixaria você encostar em mim. Nunca te daria o poder de destruir a gente.
Eu queimaria o seu mundo inteiro.
Então veio a escuridão.
