Capítulo 4

Elara

— Por favor, entregue isto ao senhor Vane.

Apertei o colar na mão enluvada do segurança. Minha voz saiu plana, esvaziada de tudo.

— Diz pra ele que a bússola quebrou. Que não aponta mais pra casa.

Parei. Enchi os pulmões. Obriguei as próximas palavras a saírem.

— Diz pra ele que conseguiu o que queria. Ele não tem mais filha agora. E eu nunca mais vou incomodar ele.

O segurança pareceu desconfortável — a primeira rachadura na fachada profissional.

— Senhorita Vance, talvez a senhora devesse...

— Só entrega pra ele.

Uma porta lateral se abriu. Uma empregada de uniforme preto e branco apareceu para pegar o colar. De meia-idade, o rosto repuxado pela desaprovação permanente de quem passou tempo demais servindo gente rica.

Os olhos dela caíram no embrulho nos meus braços.

— Que coisa é essa?

— É... — Minha garganta fechou. — É a Lily.

O rosto dela se retorceu de nojo.

— Que lixo! Isso não pode entrar aqui!

Antes que eu pudesse reagir, ela deu um chute no volume enrolado no casaco, tentando me empurrar pra longe da divisa da propriedade. O tecido gasto se soltou.

A urna de plástico rolou na neve.

A tampa rachada saltou.

Cinzas se espalharam pelo chão branco — pó cinzento chocando contra a neve imaculada, misturando-se ao gelo e à sujeira. Minha filha. Meu bebê. Reduzida a pó e se espalhando pela entrada da casa que destruiu nós duas.

Caí de joelhos.

Meus dedos — nus, congelados, sangrando onde a pele tinha rachado — rasparam a neve. Tentando juntar ela de volta. Tentando separar a Lily do gelo e da lama. Mas era impossível. O vento pegou parte do pó, carregou pra longe, no meio da nevasca.

Acabou. Espalhada. Perdida.

— Me desculpa. — Eu soluçava agora, pouco ligando pra quem estivesse vendo. — Me desculpa, Lily. A mamãe não conseguiu te proteger. A mamãe não conseguiu nem...

Minha voz falhou.

Lá de dentro da Mansão Blackwood, a música do piano cresceu. Canon em Ré Maior, de Pachelbel, tocado com perfeição de sala de concerto. Pelas janelas do chão ao teto, eu conseguia ver a recepção. Lustres de cristal. Esculturas de gelo. Champanhe.

Julian estava com o braço em volta da cintura da Sloane, girando ela numa dança lenta. Um garotinho de smoking em miniatura — o filho deles, três anos — passava de colo em colo entre parentes em êxtase.

— O herdeiro dos Vane! — alguém declarou. — Olha pra ele! Cuspido e escarrado!

Uma criança legítima. Uma criança desejada. Uma criança cuja existência nunca seria negada, cuja morte nunca seria ignorada, cujas cinzas descansariam numa sepultura de verdade, com flores e dignidade.

Ergui o olhar pro segundo andar. Terceira janela da direita.

Meu quarto. Ou o que tinha sido meu quarto por sete anos.

As cortinas agora estavam fechadas. As luzes, apagadas. Segundo a empregada, tinha virado suíte de hóspedes. Tinta nova. Móveis novos. Qualquer vestígio de Elara Vance apagado como se eu nunca tivesse existido.

Ninguém naquela casa lembrava da garota que tinha morado ali. Ninguém se importava que uma criança chamada Lily tinha morrido sozinha e com medo.

Juntei o máximo de cinzas que consegui de volta pra urna. Minhas mãos deixaram manchas de sangue no plástico. O casaco estava arruinado — encharcado, coberto de lama e cinza —, mas eu o enrolei em volta do recipiente mesmo assim.

Os seguranças observavam com uma piedade desconfortável. Nenhum deles se mexeu para ajudar.

Eu me levantei. Virei de costas para a Mansão Blackwood. Comecei a andar em direção à estrada.

Atrás de mim, a celebração continuava. As curtidas no Instagram subiam para os milhões. Comentários no TikTok derramavam-se em elogios sobre contos de fadas, amor verdadeiro e sonhos realizados.

Ninguém percebeu a câmera de segurança registrando a imagem de uma figura encharcada, de suéter molhado, caminhando sozinha em meio à nevasca, carregando uma urna quebrada, embrulhada em um casaco arruinado.

A bússola tinha acertado em uma coisa: eu tinha encontrado o caminho de casa.

E a casa tinha me mostrado a verdade — eu nunca pertenci àquele lugar.


O ônibus para Rockaway Beach custou meus últimos 47 dólares. Quando o motorista perguntou se eu tinha certeza de que queria descer no meio de uma nevasca, eu apenas assenti com a cabeça.

A Casa de Vidro ficava no fim da praia — todas as paredes transparentes, uma exposição sem piedade. Julian a tinha construído durante a minha gravidez, chamando aquilo de “retiro de recuperação”. A verdade: um aquário em que cada momento do meu cativeiro era visível. Observado. Controlado.

Agora, ela brilhava de luzes, equipes de obra a deixando pronta para Sloane.

Não olhei por muito tempo.

Caminhei até a beira da água. Tirei do bolso o frasco de comprimidos — o remédio para ansiedade que eu vinha acumulando havia meses, fingindo engolir enquanto escondia cada pílula debaixo da língua.

Desrosqueei a tampa. Derramei os comprimidos brancos na palma da mão. Engoli em punhados, empurrando tudo para baixo com água do mar que tinha gosto de sal e de morte.

Depois, entrei no mar, com a urna apertada contra o peito.

A água bateu nos meus tornozelos. Nos meus joelhos. Na minha cintura. Tão gelada que parecia fogo, como se meu corpo estivesse sendo apagado, centímetro por centímetro.

A cada passo mais fundo, eu sussurrava para o recipiente de plástico nos meus braços:

“Não tenha medo, Lily. A mamãe está aqui agora. A gente está indo pra um lugar sem dor. Sem frio. Um lugar onde os Vanes não podem alcançar a gente. Um lugar onde nunca mais vão nos separar.”

O oceano me engoliu. Os comprimidos já estavam fazendo efeito — meu coração desacelerando, meus pensamentos se fragmentando. A última coisa que eu vi foi o rosto de Lily numa fotografia, sorrindo com aquele sorriso cheio de janelinhas.

Meu último pensamento consciente se formou com uma clareza perfeita:

“Se eu pudesse fazer tudo de novo... eu nunca ia te amar. Nunca ia deixar que encostassem na gente. Nunca...”

Então, escuridão.

Acima da mulher que se afogava, a tempestade continuava em fúria. As luzes da Casa de Vidro seguiam acesas, quentes e indiferentes. Ao longe, as janelas da Mansão Blackwood começaram a se apagar, uma a uma, enquanto a casa ia se recolhendo para a noite. O Atlântico aceitou o que lhe foi oferecido — mãe e filha reunidas — e não fez perguntas.

De manhã, não haveria vestígio algum, exceto uma urna plástica rachada encalhando na praia e um pingente de bússola de prata devolvido ao dono, que jamais entenderia o que aquilo um dia significara.

A bússola tinha razão afinal — não restava mais lar nenhum a ser encontrado.

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