Capítulo 3 CAPÍTULO 3
Ponto de vista de Amara
Eu esperava um monstro.
O que encontrei foi um homem lutando para não desmoronar.
A sala do trono se estendia diante de mim como o ventre de uma grande fera, toda em pedra negra e sombras que se moviam de maneiras que sombras não deveriam se mover. Tochas queimavam ao longo das paredes, suas chamas tremeluzindo nervosamente, como se elas também temessem o que estava sentado no centro daquele salão.
O Rei Lycan.
Ele não se parecia com a criatura das lendas. Não estava coberto de sangue nem rosnando de raiva. Em vez disso, ele estava sentado, perfeitamente imóvel em seu trono de ferro, me observando com olhos que guardavam algo muito pior do que a raiva.
Exaustão e dor. O tipo de cansaço que vinha de lutar uma batalha que você sabia que não poderia vencer.
A presença dele me atingiu como uma força física. O poder irradiava dele em ondas, pressionando contra a minha pele, tornando difícil respirar. Mas, por baixo daquele poder, senti outra coisa. Algo sombrio e contorcido, algo que não pertencia a ele.
Meus sentidos de bruxa despertaram, fracos, mas inconfundíveis.
Havia um demônio dentro dele.
E estava acordado.
— Dê um passo à frente — uma voz ordenou à minha esquerda.
Desviei meu olhar do rei para ver um homem em vestes caras de pé ao lado do trono. Seu rosto era anguloso, seus olhos, calculistas. O tipo de homem que media tudo em termos de poder e lucro.
— Sou o Lorde Cassian, chefe do conselho real — disse ele. — Você foi trazida perante Sua Majestade como parte da seleção de mães substitutas. Você se aproximará do trono e se apresentará adequadamente.
Minhas pernas se moveram antes que minha mente pudesse protestar. Cada passo ecoava no vasto salão, alto como um trovão no silêncio sufocante.
Mantive meus olhos baixos, interpretando o papel da loba assustada que eles esperavam. Mas meus sentidos gritavam para mim, me alertando do perigo.
O demônio dentro do rei não estava apenas presente. Ele estava me observando.
Parei na base do trono e fiz uma reverência, meus joelhos fracos batendo na pedra fria com mais força do que eu pretendia.
— Levante-se — disse o rei.
Sua voz era profunda, áspera, como se não a usasse há muito tempo. Levantei-me devagar, finalmente me permitindo olhar para ele por completo.
Ele era mais jovem do que eu esperava. Talvez apenas alguns anos mais velho do que eu. Seu cabelo escuro caía além dos ombros, emaranhado e desgrenhado. Seu maxilar era marcado, coberto por uma barba por fazer de dias. Mas foram seus olhos que me deixaram paralisada.
Eram dourados. Um dourado brilhante e ardente que parecia olhar diretamente através do corpo emprestado de Octavia e ver a alma escondida por baixo.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
— Octavia, Vossa Majestade — sussurrei, odiando o quão fraca aquele corpo me fazia soar.
Seus olhos se estreitaram levemente, me estudando com uma intensidade que fez minha pele formigar. Por um momento, achei que ele pudesse ver a verdade. Achei que ele sabia que eu não era quem aparentava ser.
Então, Lorde Cassian deu um passo à frente, quebrando a tensão.
— Vossa Majestade, como pode ver, a garota se recuperou de seu infeliz envenenamento. Os curandeiros nos garantem que ela está forte o suficiente para prosseguir com o ritual.
— Ritual? — Minha voz saiu mais afiada do que eu pretendia.
Os olhos de Lorde Cassian brilharam de irritação.
— Você não foi informada? Que descuido. — Ele se virou para mim com um sorriso que não chegava aos olhos. — Você foi escolhida como uma possível mãe substituta para Sua Majestade. Se o rei não encontrar sua companheira verdadeira antes da próxima Lua de Sangue, você terá a honra de carregar o herdeiro dele. O ritual para vinculá-la a esse dever acontecerá em três dias.
O horror subiu pela minha espinha. Três dias. Eles estavam me dando três dias antes de me forçarem a isso.
— Entendo — consegui dizer, mantendo minha voz neutra.
"Você deveria ser grata", disse outro membro do conselho, uma mulher de cabelos prateados e voz gélida. "A maioria mataria por essa oportunidade. Servir ao rei é a maior das honras."
Tive vontade de rir. Vontade de gritar que já havia entregado tudo a um homem que me prometera o mundo, e isso havia me destruído. Mas permaneci em silêncio, interpretando meu papel.
O rei não tirava os olhos de mim. Havia algo em seu olhar que me deixava inquieta. Não crueldade, mas reconhecimento. Como se estivesse procurando por algo que havia perdido.
"Deixem-nos a sós", disse ele de repente.
Os membros do conselho paralisaram.
"Vossa Majestade?", perguntou Lorde Cassian, cauteloso.
"Eu disse para saírem. Todos vocês."
O tom de comando em sua voz era absoluto. O conselho trocou olhares preocupados, mas obedeceu, saindo da sala do trono em fila, como crianças repreendidas. Seus passos ecoaram até as portas maciças se fecharem com um baque pesado.
Agora éramos apenas nós dois.
E o demônio dentro dele.
Eu conseguia senti-lo com mais clareza agora, sem a distração de outras pessoas. Ele forçava os limites do controle do rei, faminto e inquieto. A magia sombria aderia a ele como uma segunda pele, o mesmo tipo de magia sombria que eu sentira na noite em que meu coven ardeu em chamas.
Minha respiração engatou.
Aquela não era uma maldição comum. Era algo deliberado. Alguém havia colocado aquele demônio dentro dele, vinculado-o ao seu sangue, tornado-o parte de si.
Da mesma forma que alguém usara magia sombria para destruir o Coven Oris.
"Você está com medo", disse o rei, com a voz mais suave agora.
Olhei para ele, encarando aqueles olhos dourados. "E não deveria?"
Algo transpareceu em seu rosto. Surpresa, talvez. Ou respeito.
"A maioria das pessoas não consegue sequer olhar para mim sem tremer", disse ele. "E, no entanto, você está aí, me fazendo perguntas."
"Eu estou tremendo", admiti. "Este corpo é fraco. Mas medo e respeito não são a mesma coisa."
Ele trincou o maxilar. "Palavras sábias para alguém que foi comprada e trazida para cá acorrentada."
A amargura em sua voz me surpreendeu. Ele não estava falando de mim. Estava falando de si mesmo.
"Você também não escolheu isso", eu disse em voz baixa.
Seus olhos brilharam, o dourado escurecendo para um tom de âmbar. "O que você sabe sobre as minhas escolhas?"
"Nada", respondi com sinceridade. "Mas sei qual é a sensação de estar presa a algo do qual não se pode escapar."
Por um momento, nenhum de nós disse nada. O ar entre nós ficou pesado, carregado de algo que eu não sabia nomear.
Então, a expressão dele mudou.
A dor contorceu suas feições. Suas mãos agarraram os braços do trono com tanta força que o ferro rangeu. A temperatura no salão caiu de repente, e uma camada de gelo se espalhou pelo chão de pedra.
"Você precisa sair", disse ele entredentes. "Agora."
Dei um passo para trás, meus sentidos de bruxa gritando alertas.
O demônio estava emergindo.
"Vá!", ele rugiu, a voz já não soando inteiramente humana.
Mas eu não conseguia me mover. Porque, naquele momento, à medida que o controle dele falhava, o demônio em seu interior emergiu à superfície. E voltou sua atenção diretamente para mim.
Uma inteligência ancestral e maliciosa olhou através dos olhos do rei.
E me reconheceu.
Não como Octavia. Como Amara.
Como a bruxa cujos ancestrais o haviam selado séculos atrás.
O demônio dentro de Alaric jogou a cabeça para trás e gargalhou, um som que abalou as próprias fundações do palácio. A sala do trono tremeu. Rachaduras se espalharam como teias de aranha pelas paredes de pedra. As tochas explodiram em rajadas de chamas verdes.
"Você...", sibilou o demônio pela boca do rei, a voz carregada de algo inumano. "Você ousa retornar a mim vestindo carne roubada?"
O terror tomou conta de mim.
Ele sabia. O demônio sabia exatamente quem eu era.
E estava muito, muito furioso.
