Capítulo 4 Capítulo 4

"Você", disse o demônio pela boca do rei. "Você ousa voltar a mim vestindo carne roubada?"

Todos os meus instintos gritavam para que eu fugisse.

Eu não fugi.

Eu já havia morrido uma vez. Eu havia queimado, sangrado e implorado em uma vida que deveria ser minha, e nada disso tinha me salvado. Fugir não me salvou naquela época. Eu não tinha certeza de que me salvaria agora.

Então, firmei meus pés no chão de pedra fria da sala do trono e olhei diretamente para a coisa que usava o rosto do rei.

Aquilo era errado de um jeito difícil de descrever. O corpo do rei ainda estava ali — a altura, os cabelos escuros, a mandíbula —, mas tudo por trás dos olhos havia sido substituído. O que olhava para mim agora era velho. Antigo de um jeito que fazia o palácio ao nosso redor parecer ter sido construído ontem.

"Eu me lembro de você", disse ele. A voz tinha uma segunda camada por baixo, como duas pedras raspando uma na outra. "Eu me lembro do cheiro da sua linhagem. Sempre fui capaz de encontrar os da sua espécie."

"Então você sabe o que a minha espécie pode fazer com você", eu disse.

Ele riu. O som preencheu a sala do trono do chão ao teto, ecoou nas paredes e voltou errado.

"Sua espécie." Ele desceu do trono, e o corpo do rei se moveu junto, como um casaco que ele tivesse vestido. "Sua espécie virou cinzas. Eu me certifiquei disso."

Meu peito se apertou. Mantive meu rosto imóvel.

"O Coven Oris." Falei num tom neutro, não como uma pergunta.

"Quarenta e três mulheres." Ele inclinou a cabeça do rei, me estudando. "Eu contei. Eu sempre conto. Quer saber quanto tempo levou?"

"Eu quero saber o porquê." Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. "Nós éramos curandeiras. Não caçávamos. Não atacávamos. Nós nos limitávamos às nossas terras e ao nosso pacto, e não machucávamos nada que não nos ameaçasse primeiro. Então me diga por quê."

O demônio parou de se mover.

Por um momento, ele simplesmente olhou para mim, e a inteligência ancestral por trás dos olhos dourados do rei fez algo que eu não esperava.

Considerou a pergunta seriamente.

"Porque vocês eram as únicas que podiam me deter", disse ele, por fim. "Não me machucar. Não me enfraquecer. Me deter. Permanentemente." Ele começou a me rodear pela esquerda, de forma lenta e sem pressa. "Existe um selo. Tão antigo quanto a primeira lua, entrelaçado na fundação da sua linhagem. Apenas uma bruxa Oris, em pleno poder, pisando em solo consagrado, pode me aprisionar para sempre." Ele fez uma pausa. "Eu não podia permitir isso."

A dimensão daquilo desabou sobre mim de uma só vez.

Meu coven não tinha morrido porque Michael queria poder. Michael tinha sido uma porta — ambicioso, ganancioso e fácil de abrir. Mas a coisa que tinha passado por aquela porta, a coisa que tinha guiado a mão dele, a coisa que tinha sussurrado para moldar suas escolhas — era aquilo. Parado na minha frente agora. Usando o corpo de outra pessoa.

Nós não estávamos em seu caminho.

Nós éramos sua única ameaça.

— Você nos caçou — eu disse. — Por gerações. Isso nunca foi sobre Michael.

— Michael foi útil. — A criatura acenou com a mão do rei como se dispensasse algo insignificante. — Homens que querem coisas são sempre úteis. Mas você... sua linhagem está na minha lista desde antes de a avó da sua avó dar o primeiro suspiro. — Ela parou de andar em círculos. — E, no entanto, aqui está você. De novo. Em um corpo novo, no meu reino, parada na minha frente como se já não tivesse morrido uma vez esta semana.

— Eu morri por sua causa — eu disse. — Eu voltei por sua causa. A Deusa da Lua não desperdiça uma alma. Ela me mandou de volta por um motivo.

Algo mudou em sua expressão. A curiosidade se esvaiu.

O que a substituiu foi muito mais simples.

— Ela mandou você de volta para fracassar — disse a criatura. — Não resta nenhum solo consagrado. Seu coven virou cinzas. Sua linhagem termina com você, dentro de um corpo emprestado, em um reino que já me pertence. — Sorriu com a boca do rei. — Não precisei caçar você desta vez. Você entrou pelo portão da frente.

Avançou.

Sem aviso. Sem cerimônia. Em um momento, estava a três metros de mim e, no seguinte, todo o corpo do rei estava em movimento, cruzando a sala do trono no tempo que levei para inspirar uma única vez.

Eu me joguei para o lado.

O punho do rei atingiu o pilar de pedra onde minha cabeça estava. O estrondo ecoou como um trovão. Poeira choveu do teto.

Eu corri.

Não havia estratégia nisso, nenhum cálculo. Minhas pernas simplesmente decidiram antes da minha mente. Eu disparei em direção às portas de ferro no outro extremo da sala do trono e, atrás de mim, ouvi o demônio rir de novo — mais baixo desta vez, mais satisfeito, a risada de algo que não estava preocupado em me alcançar.

Essa foi a parte que mais me assustou.

Ele não estava me perseguindo porque tinha certeza de que eu não tinha para onde ir.

As portas estavam ficando mais perto. Minhas mãos bateram forte nelas e elas cederam — pesadas, mas não trancadas — e eu irrompi pelo corredor adiante e continuei correndo, este corpo fraco e emprestado queimando com o esforço, os pulmões gritando, o som da sala do trono ficando para trás.

Eu não parei.

Eu não olhei para trás.

E as últimas palavras do demônio me perseguiram pelo corredor como fumaça encontrando uma rachadura na parede.

— Corra, bruxinha. Você não pode selar o que não consegue alcançar. E não consegue me alcançar sem um coven que não tem mais.

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