Sangue do Demônio - I - Legado dos Tempos Antigos

Sangue do Demônio - I - Legado dos Tempos Antigos

Feyna aka the witch · Atualizando · 37.3k Palavras

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Introdução

Ela viveu centenas de vidas e cada uma terminou de forma horrível.
Ele, que já foi seu companheiro, não consegue esquecê-la além do tempo.
Ela, sequestrada para um mundo desconhecido, tenta de tudo para voltar para casa. Mas o que são esses sonhos?

[…] Pedras são jogadas em vira-latas sujos… Ratos são queimados… […]

Mergulhe no mundo de Athaerion.

Capítulo 1

Já estava escurecendo quando Kyla destrancou a porta do seu apartamento. Ela colocou a chave na cômoda, fechou a porta por dentro e foi direto para a sala de estar. Liara estava deitada no sofá, dormindo. Como fazia frequentemente, Kyla pegou o cobertor e o espalhou gentilmente sobre sua amiga.

Ela voltou para o corredor, tirando o casaco e os sapatos. Não era surpresa para ela que Liara estivesse de volta. Elas cresceram juntas e compartilhavam tudo, incluindo o apartamento de Kyla. Kyla caminhou silenciosamente até a cozinha, pegou uma xícara do armário e fez um café para si. Quando Liara estava ali, significava que ela estava com problemas em casa novamente. Ela nunca se deu bem com os pais, então a amizade com Kyla era ainda mais importante para ela. Na casa de infância de Kyla, ela não só encontrou refúgio do pai, que precisava de sua bebida todos os dias e era rápido em explodir, mas também da mãe, que não se interessava por ela. Ela aprendeu com os pais de Kyla o que é e o que significa amor.

Elas se conhecem há mais de 15 anos e são inseparáveis desde o primeiro dia. Kyla tem 21 anos agora, Liara faria a mesma idade este ano. Perdida em seus pensamentos, Kyla estudava a parede à sua frente. Ela tinha tentado muitas vezes tirar Liara de lá, mas sempre falhou. Agora que estava trabalhando, tinha seu próprio apartamento, e esperava que Liara encontrasse um emprego em breve, teriam a opção de morar juntas? Não havia dúvida de que um dia compartilhariam um apartamento. A chaleira desligou e Kyla serviu seu café. Ela se sentou à mesa da cozinha e pegou os cigarros. Enquanto seguia com os olhos a fumaça que subia em formas selvagens, ouviu passos se aproximando lentamente. Ela não sabia o que mais fazer.

Um par de olhos azuis espiou pela esquina. Logo depois, Liara apareceu e suspirou aliviada: "Você deveria me acordar quando chega! Pensei que fosse um ladrão, ou um assassino."

Kyla sorriu.

"Você andou assistindo meus filmes de terror de novo?"

Liara sorriu de volta.

"De alguma forma, tenho que passar o tempo até você chegar em casa."

"Sim, mas você é uma medrosa de carteirinha." Kyla apagou o cigarro no cinzeiro, pegou sua caneca e voltou para a sala com Liara. O sofá verde escuro estava bem no meio da sala e cortinas vermelhas sangue adornavam a janela oposta de ambos os lados. Em frente a ela havia uma mesinha e a TV estava bem em frente à janela. À direita do sofá havia uma cômoda de madeira, também tingida de escuro, e as paredes brilhavam em um verde menta claro. A última luz do sol fazia o quarto brilhar calorosamente. Liara se jogou no sofá e Kyla sentou-se ao lado dela.

"Como foi seu dia?" ela perguntou a Kyla.

"Funcionou." Isso encerrou o assunto. Liara sabia que Kyla não falaria mais sobre isso, não importava o quanto insistisse. Ela conhecia sua amiga. Elas ficaram em silêncio por um tempo, mas era um silêncio confortável. Assim como Liara sabia que Kyla precisava de tempo para relaxar, Kyla sabia que Liara lhe daria esse tempo. Kyla tomou um gole de seu café.

"Vamos dar uma volta?" Kyla finalmente quebrou o silêncio.

Liara olhou para ela com olhos arregalados.

"Se você quer dar uma volta, isso significa que vai ter outra tempestade! Esquece, ninguém me tira daqui hoje!"

Com os braços cruzados, Liara se afundou ainda mais no sofá. Ela há muito tempo parou de se perguntar como Kyla sempre sabia quando ia ter uma tempestade. Ela simplesmente aceitava. Antes, sim, antes, elas especulavam loucamente sobre isso, imaginando que eram bruxas com habilidades mágicas e como ajudariam as pessoas. Elas operariam em segredo e ninguém saberia sobre elas. Mas, quanto mais velhas ficavam, mais essas ideias desapareciam. Kyla adorava tempestades, ela frequentemente se sentava em frente à janela e observava os relâmpagos iluminarem o céu. Suas formas abstratas literalmente a encantavam. Liara, por outro lado, preferia se enfiar na cama. Trovão era ruim para ela, mas relâmpago? Só de pensar em ser atingida por um, ela sentia arrepios na espinha. Não, ela não colocaria os pés fora da porta novamente hoje.

Kyla sorriu. "O que queremos assistir hoje à noite? Acho que você não quer ver outro filme de terror, quer?"

Liara balançou a cabeça. "Algo engraçado."

Kyla assentiu e folheou a programação da TV.

"Aí! Para aí!" Liara finalmente gritou animada. Então Kyla colocou o controle remoto de volta na mesa e se recostou. Não demorou muito até que Liara risse com vontade e tivesse que enxugar as primeiras lágrimas. "Fuahahaha... Ele é tão idiota... hahaha... Isso é demais..."

Kyla também teve que rir um pouco, mas mais por causa de sua amiga do que pelo filme. Ela gostava de ouvir Liara rir e ela fazia isso frequentemente. Apesar do histórico familiar, ela era uma pessoa feliz, sempre de bom humor. Kyla a observava. O cabelo loiro caía sobre os ombros em cachos leves, os olhos azuis brilhavam de felicidade e ela parecia simplesmente feliz. Então, ela voltou seu olhar para a televisão e tentou entender do que se tratava aquele filme.

Já estava escuro quando Kyla desligou a TV. A comédia já tinha acabado há muito tempo e Liara adormeceu no sofá novamente. Kyla se levantou e ficou em frente à janela. As nuvens tinham se reunido e a tempestade começaria a qualquer momento. O ar estava elétrico e Kyla sentia uma alegria como a de uma criança pequena antes de uma surpresa. Seus olhos brilhavam ao pensar na chuva batendo contra a janela, nos relâmpagos riscando o céu e no trovão a perseguindo como se tentasse empurrá-la para frente. Mas ela se negou a alegria desse espetáculo, voltou para Liara e gentilmente afastou uma mecha de cabelo do rosto dela.

"Ei, vamos. Vamos para a cama."

Sonolenta, a menor se levantou do sofá e seguiu sua amiga. Kyla tirou a colcha da cama, dobrou-a e pegou sua camisola, que caía até um pouco acima dos joelhos. Liara foi até o armário e pegou aleatoriamente um pijama. Assim que ambas estavam na cama, o trovão começou. Liara involuntariamente se aproximou mais de Kyla.

"Você tem que trabalhar de novo amanhã?" ela perguntou murmurando.

"Não, mas eu ainda quero dormir agora." Se ela abria mão de uma tempestade por amor a Liara, era melhor que simplesmente dormisse durante ela. Kyla se aconchegou em seu cobertor e logo adormeceu.

Liara se aproximou um pouco mais de sua amiga. Ela não sabia por que tinha tanto medo de tempestades, mas era grata sempre que Kyla estava por perto. Sentia-se segura com ela. Quando sua respiração ficou um pouco mais calma, Liara fechou os olhos e adormeceu.

A tempestade ficou mais forte e, despertada pelo estrondo do trovão, Liara se sentou. Raramente uma tempestade era tão forte assim. Ela pegou a garrafa de água que estava no chão ao lado dela e tomou um gole. Estava prestes a se deitar novamente quando olhou para a janela. Nesse momento, um relâmpago iluminou o quarto e Liara viu uma figura sombria em frente à janela. Ela esfregou os olhos, confusa. Isso não podia ser, elas estavam no segundo andar, ninguém poderia estar em frente à janela delas. Um sentimento de desconforto se espalhou no estômago de Liara. Sem tirar os olhos da janela, sua mão procurou por Kyla. Quando a cutucou levemente, ela apenas resmungou.

"Kyla!" A voz de Liara era pouco mais que um sussurro. "Kyla!"

"O quê?" Sem abrir os olhos ou se virar para a amiga, Kyla tentou resistir a acordar. "T-tem alguém!" "Onde?" ela murmurou contra o travesseiro. "Em frente à janela!"

"Mmm, volte a dormir, você só teve um pesadelo." Foi uma tentativa meia-boca de acalmar Liara. Alguns segundos se passaram. Tudo o que se podia ouvir era a chuva batendo contra o vidro. Liara deslizou contra a cabeceira e encostou as costas na parede fria. Ela ainda não conseguia tirar os olhos da janela oposta. Outro relâmpago iluminou o quarto e novamente a figura pôde ser vista por alguns segundos. Agora ela estava ficando assustada. Não se importava se Kyla fosse brigar com ela. Começou a sacudir sua amiga sem parar.

"Kyla! Kyla! Eu não imaginei isso! Realmente tem alguém! Kyla! Por favor, acorde!" Lágrimas brotaram nos olhos de Liara, cheias de puro medo. Kyla fez um som de resmungo, virou a cabeça para Liara e sibilou:

"Mulher! Se isso te acalma, então eu vou dar uma olhada, mas depois me deixe voltar a dormir!" Frustrada, ela jogou as cobertas para trás e foi até a janela. Ela puxou a persiana para o lado e olhou para fora. Nada. Apenas a chuva deixando suas marcas no vidro e as nuvens escuras no céu. Kyla se virou para Liara.

"Viu? Nada! Então deite-se e volte a dormir, por favor!" Assim que Kyla terminou sua frase, outro relâmpago cruzou o céu e agora ela também viu aquela sombra na parede atrás de Liara. Ela se virou abruptamente, levantou a persiana e abriu a janela. A chuva batia em seu rosto enquanto ela se inclinava para frente, mas não havia mais nada para ver. Será que ambas tinham imaginado isso?

"Feche a janela de novo! Por favor!" Liara implorou como se sua vida dependesse disso. Kyla ouviu o medo na voz dela e atendeu ao pedido de Liara. Ela ficou em frente à janela por um momento, depois se virou abruptamente e saiu para o corredor. Liara imediatamente pulou da cama.

"Onde você vai?" ela perguntou desesperada.

"Vou dar uma olhada agora. Se tem alguém que ousa brincar com a gente, então ele vai ver só!" Kyla estava com raiva, Liara ouviu isso na voz dela.

"Não! Não me deixe aqui sozinha!" Suplicando, ela agarrou a mão da amiga, mas Kyla a puxou de volta.

"Ou você vem comigo, ou fica aqui e espera!" Liara olhou nos olhos de Kyla, que brilhavam de raiva. Ela percebeu que não conseguiria mudar a opinião dela.

"Eu vou esperar aqui." Kyla assentiu para ela.

"Então volte para a cama e fique longe da janela, entendeu?" Liara apenas assentiu e Kyla correu pelo corredor. Assim que ficou em frente à escada, a chuva a encharcou até os ossos. Seu cabelo castanho escuro pendia em mechas molhadas. Ela ainda estava apenas com a camisola, mas não se importava. Queria saber quem ou o que era aquilo. Virou à esquerda e correu ao redor do quarteirão onde morava, pois seu quarto dava para o outro lado do bloco de apartamentos.

Kyla diminuiu o ritmo ao chegar ao gramado. A terra amolecida a fez afundar alguns centímetros no chão, mas ela não prestou atenção a isso. Caminhou lentamente e finalmente parou bem em frente à janela do seu quarto. Olhou para cima, mas não havia nada para ver ali. Kyla suspirou. Então elas tinham apenas imaginado aquilo e ela se deixou contagiar pelo ataque de pânico de Liara. Sorrindo para si mesma, balançou a cabeça.

Liara não aguentou. Andava de um lado para o outro até que sua curiosidade falou mais alto. Foi até a janela e olhou para fora. Viu Kyla parada lá embaixo olhando para cima. Então abriu a janela. Ela também ficou encharcada em segundos e mechas loiras emolduraram seu rosto.

"E aí?" ela perguntou lá de cima.

"Nada," Kyla respondeu, balançando a cabeça para reforçar suas palavras.

Ela estava prestes a entrar quando reconheceu a expressão no rosto de Liara. Os olhos se arregalaram e todo o sangue sumiu do rosto. Tudo o que Liara fez foi levantar o braço e apontar para trás de Kyla. Sim, aquela árvore velha está lá, ela disse a si mesma, se perguntando o que Liara poderia ter visto para reagir daquela maneira. Então ela também viu.

Curiosa, deu um passo mais perto. Parecia que uma névoa escura estava se reunindo atrás da árvore.

"Quem está aí?" Kyla perguntou com confiança. Ela não sentia medo. Era algo que tinha perdido desde que conhecia Liara. Quando não houve reação, ela caminhou um pouco mais em direção à árvore. "Saia daí, idiota!" Sua voz tentava lutar contra a chuva.

Kyla olhou para Liara mais uma vez e, quando olhou para frente novamente, viu a figura alta na sua frente. Seu olhar subiu lentamente e encontrou os olhos dele. Eles literalmente a atraíam. Kyla balançou a cabeça como se quisesse sair desse transe e automaticamente deu alguns passos para trás. Ela não sabia quem era aquele cara, por que ele estava parado na frente dela com aquela roupa estranha, ou o que ele estava fazendo ali. Uma leve palpitação não pressagiava nada de bom para ela.

Seu cabelo longo e escuro balançava levemente, mas o vento não permitia. Isso desafia todas as leis da física, Kyla pensou consigo mesma. Sua forma estava escondida sob um manto escuro que chegava ao chão. Quando ele deu um passo mais perto dela, Kyla ergueu o queixo desafiadoramente. Pronta para enfrentar qualquer coisa e qualquer um. Eles se encararam por um momento até que ela não pôde mais conter sua curiosidade.

"Quem é você?" ela perguntou tentando ser confiante. Mas em vez de responder, ele continuou andando em direção a ela até ficar a apenas meio metro de distância. Ele colocou a mão quase ternamente em sua bochecha e, quando Kyla ouviu sua voz, um tremor percorreu todo o seu corpo:

"Finalmente te encontrei de novo."

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Esta não é uma história de romance leve. É intensa, crua e desordenada, e explora o lado mais sombrio do desejo.


"Tire o vestido, Meadow."

"Por quê?"

"Porque seu ex está assistindo," ele disse, recostando-se na cadeira. "E eu quero que ele veja o que perdeu."

••••••••••••*
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