Capítulo 2 Você é feio
No exato momento, o celular dela vibrou, chamando sua atenção para um alerta de notícia que imediatamente despertou seu interesse:
#Notícia Urgente: Sobreviventes do Terremoto da Montanha da Tartaruga se Reencontram Depois de 18 Anos – Incontáveis Órfãos Nunca Perderam a Esperança!
#Sobreviventes do Terremoto da Montanha da Tartaruga: Pais Passam 18 Anos Procurando por Seus Filhos Perdidos! #Anos de Angústia e Saudade: Mãe Finalmente se Reencontra com o Filho!
O terremoto da Montanha da Tartaruga? Isso foi há dezoito anos! Os olhos de Isabella se arregalaram de espanto quando, de repente, tudo começou a fazer sentido. Ela se deu conta, com um sobressalto, de que tinha exatamente dezoito anos.
Pelas palavras duras e cruéis de Julia, ela sempre ouvira que era filha ilegítima de alguma prostituta desconhecida, mas nenhum nome específico jamais fora mencionado. Talvez tudo não passasse de mentira.
Se ela não tivesse sido adotada de um orfanato, então a única outra possibilidade era que a tivessem conseguido de alguma outra pessoa.
Será que ela era uma daquelas órfãs do terremoto, vendida simplesmente por causa da aparência? A ideia, por mais perturbadora que fosse, parecia perfeitamente plausível.
Isabella guardou o celular no bolso, sentindo uma determinação silenciosa se firmar dentro dela. Quer conseguisse encontrar sua mentora ou não, ela sabia de uma coisa: Cascadia sempre estaria ali por ela.
Mas, se não aproveitasse agora a oportunidade de procurar por seus pais biológicos, corria o risco de nunca mais ter outra chance de descobrir a verdade. Se acabasse descobrindo que eles mesmos a tinham vendido, então a Cybernova não teria mais qualquer laço ou direito sobre ela. Ela dedicaria toda a sua vida a servir sua mentora, permanecendo fiel até o dia em que a morte finalmente as separasse.
Ela memorizou com cuidado os dados de contato que apareciam na reportagem e, sem hesitar nem por um instante, pegou o telefone e discou o número.
Na Vila Thornton.
— Maravilha! Aquela desgraçada da Isabella finalmente se foi! Tammy, esvazie o quarto do segundo andar imediatamente, eu preciso dele para a minha coleção de bolsas, que não para de crescer! — a voz de Stella ecoou, transbordando de maldade triunfante.
— Sim, senhorita Stella Thornton! Vou cuidar do quarto da senhorita Isabella Thornton imediatamente — respondeu Tammy Campbell, com a voz trêmula de obediência nervosa.
— Idiota! Ouça muito bem: agora só existe uma herdeira legítima nesta casa, e essa sou eu! Se eu ouvir você se atrever a chamar aquela desgraçada da Isabella de Thornton de novo, você vai ser jogada para fora da família Thornton sem a menor cerimônia! E não é só isso, eu mesma vou garantir que você nunca mais consiga trabalho em toda Eltheron! — a voz de Stella transbordava veneno, cada palavra carregada de rancor e ameaça fria.
— E-eu… me desculpe, senhorita Thornton! Eu prometo que vou me lembrar — gaguejou Tammy, com a voz trêmula de medo.
— Assim está bem melhor! — Stella finalmente largou qualquer fingimento, entregando-se à sensação embriagante do poder que acabara de reafirmar.
Por anos, os pais dela compravam tudo em dobro para manter a ilusão das gêmeas, algo que ela sempre detestara, odiando a ideia de dividir qualquer coisa com qualquer pessoa.
Isabella já devia estar morta há muito tempo!
Stella arrancou a roupa de cama da cama de Isabella e a atirou no chão, esmagando-a com o calcanhar, tomada por uma fúria cruel. Não percebeu a linha fina e negra que subia devagar pelo seu pulso em direção ao cotovelo, sumindo debaixo da pele como se uma serpente se esgueirasse em silêncio para o próprio esconderijo.
Stella esfregou o nariz, um arrepio súbito percorrendo-lhe o corpo sem motivo aparente. “Claro”, pensou, amarga, “só podia mesmo: o quarto daquela desgraçada da Isabella tinha que ser amaldiçoado.”
O Solar dos Tudor
— Pai! O senhor precisa ver isso! Ela é a cara da mamãe! — Brandon Tudor saltou da poltrona, apontando para a imagem de Isabella na tela da televisão, a voz trêmula de pura emoção.
Sua empolgação era totalmente compreensível. Depois de perder a filha recém-nascida, dezoito anos atrás, a mãe dele fora tomada por uma culpa devastadora, chorando até a exaustão todos os dias, até erguer ao redor de si mesma uma prisão invisível de penitência.
Ela se isolara por completo, saindo apenas para fazer suas orações, que iam ficando cada vez mais baixas e fracas a cada ano que passava. Brandon havia implorado incontáveis vezes para que ela abandonasse aquele confinamento autoimposto, mas ela recusara cada súplica, uma por uma.
Se a jovem que aparecia na tela da televisão fosse mesmo sua irmã, então talvez — só talvez — a mãe finalmente pudesse sentir um pouco da paz que desejava há tanto tempo.
Raymond Tudor gritou, em puro sobressalto:
— Não fica aí parado, em choque! Pega o telefone e liga agora mesmo!
Ele também se levantou, o olhar cravado em Isabella na tela, incapaz de desviar os olhos, por mais que tentasse.
Ele e a esposa tinham sido namorados de infância, um amor que só se aprofundou com o passar dos anos. Depois de se casarem, receberam com alegria o filho, Brandon, carinhosamente apelidado de “Sunny” por todos que o conheciam.
Planejavam aproveitar alguns anos tranquilos antes de aumentar a família, mas a filha — apelidada com ternura de “Bunny” — chegara antes do esperado, trazendo uma sensação de plenitude e alegria que tornava aquela família perfeitamente completa.
Estavam tão tomados por aquela felicidade tranquila que nem sequer tinham escolhido ainda um nome definitivo para ela. Então, de repente, veio a noite terrível em que as chamas engoliram o Solar dos Tudor, virando o mundo deles de cabeça para baixo num instante. Em meio ao pânico crescente, correram para o quarto do bebê apenas para encontrá-lo completamente vazio; a filha tinha desaparecido sem deixar o menor vestígio.
A esposa de Raymond, Gloria Stewart, chegou ao ponto de acusar a sogra, Yvette Lancaster, de ter armado deliberadamente o desaparecimento do bebê, movida pelo ressentimento de o neto ser, na verdade, uma neta.
Raymond defendeu a mãe com ferocidade e firmeza inabaláveis, e a intensidade desse conflito acabou destruindo o casamento de um jeito irreparável. Só o filho deles, Brandon, junto com o voto solene de Raymond de fazer tudo o que fosse preciso para encontrar a filha desaparecida, impediu Gloria de levar adiante o pedido de divórcio. Em vez disso, ela escolheu se afastar de tudo, construindo um refúgio isolado nas montanhas atrás da mansão e passando a viver ali, em silenciosa reclusão, como uma espécie de monja penitente em busca de expiação.
Durante dezoito longos anos, Raymond jamais abandonou a busca — esgotou todas as possibilidades, de anúncios e panfletos a apelos na televisão, tentando todo método que conseguia imaginar. Nunca tinha passado pela cabeça dele que, assistindo distraidamente a um programa qualquer de notícias, acabaria encontrando uma garota tão incrivelmente parecida com a esposa.
Ela se apresentou como Isabella, uma garota de dezoito anos, e ali, no lóbulo da orelha esquerda, estava a marca inconfundível — não uma marca de nascença, mas sim o furo cerimonial que toda criança da família Tudor recebia ao nascer, feito de propósito com uma agulha em brasa como parte de uma tradição antiga. Era o método que os antepassados deles usavam para identificação, uma prática que Raymond sempre considerara apenas simbólica, jamais imaginando que um dia poderia ter um uso real.
Ele não esperou nem pela confirmação do exame de DNA antes de sair às pressas direto para a Emissora de Televisão de Eltheron, com Brandon logo atrás dele.
— Isabella, você enlouqueceu de vez? O que, em nome de Deus, você quer dizer com “não faço parte da família Thornton”? Você é minha irmã há dezoito anos! Nós somos gêmeas! Como é possível que você não me reconheça mais? Mesmo que de alguma forma você tenha se esquecido de mim, pelo menos da Mamãe você precisa se lembrar! — Stella enxugou os olhos secos com um cuidado quase teatral, lançando olhares rápidos e calculados ao redor, para a plateia que murmurava em volta.
Se não tivesse assistido com os próprios olhos ao reencontro no programa daquela manhã, Stella jamais acreditaria que Isabella realmente sobrevivera à queda; de verdade, aquela garota parecia ter sete vidas.
A intenção inicial de Stella era simplesmente ignorar Isabella, mantê-la à distância, mas o pai insistira com firmeza para que fossem buscá-la.
Depois de dezoito anos sendo criada como filha dos Thornton, a recusa de Isabella em voltar para casa depois do incidente no penhasco deixava claro que ela havia descoberto algo importante. Os Thornton sabiam que não podiam permitir que uma ponta solta tão perigosa ficasse solta por aí, vagando livremente e com potencial para causar caos.
Se Isabella começasse a espalhar boatos, a reputação meticulosamente construída, pela qual haviam trabalhado tanto para se firmar como a nova família da elite de Eltheron, correria um sério risco de desmoronar por completo.
Gareth estava decidido a não deixar que uma adotada encontrada sabe-se-lá-onde minasse o legado dos Thornton, então obrigara Julia a arrastar Stella à força para o estúdio ao raiar do dia, para garantir que Isabella fosse trazida de volta para casa.
O que acontecesse com Isabella a partir daí seria estritamente um assunto privado da família; ela até podia correr perigo, mas não podia ser deixada livre em público.
— Me solta! Você vai mesmo fazer esse showzinho patético na televisão ao vivo, Stella? Não acha isso absolutamente nojento? — sibilou Isabella, com veneno escorrendo de cada palavra enquanto sussurrava no ouvido de Stella.
Stella sentiu o sangue gelar. Será que Isabella realmente sabia de alguma coisa? Como diabos isso seria possível?
A família inteira era composta de atores talentosos — afinal, Julia já fora celebrada como a mais famosa atriz de teatro de Cybernova. O talento para atuar claramente corria fundo naquele sangue.
Teria aquela camponesa simples os traído por causa do dinheiro de Isabella? Maldita! Stella sempre suspeitara que aquela mulher quieta era encrenca, e cuidaria daquela criada traidora no momento certo.
A expressão de Stella tremeluzia e mudava com a imprevisibilidade do mercúrio, e Isabella respondeu com uma risada fria, completamente sem humor.
— Alguém já te falou que você é como um camaleão, mudando o tempo todo conforme o ambiente? Eu sempre ficava me perguntando: se nós somos mesmo gêmeas, e eu sou alta e marcante, com cabelo grosso e farto, como é que você mal chega a um metro e meio mesmo usando salto plataforma? E eu consigo ver suas entradas carecas! — disse Isabella, a voz carregada de uma falsa preocupação debochada.
— Sua mãe sempre insistiu que nós éramos gêmeas fraternas e, segundo ela, isso significava que era natural uma parecer com o pai e a outra puxar à mãe. Agora eu vejo que só você acabou herdando esses genes infelizes. Graças aos céus eu não sou realmente aparentada com eles — completou, com um sorriso de desdém.
— Como você ousa me chamar de feia! — disparou Stella, explodindo como um gato com o rabo pisado, a fachada cuidadosamente construída desmoronando num instante.
Ela podia aguentar participar das manipulações de Isabella, mas sua aparência e sua altura eram intocáveis, territórios sagrados. Era exatamente por isso que ela odiava Isabella há tantos anos: ao lado dela, Stella se sentia reduzida à condição de simples criada. Até seus pretendentes pareciam notá-la apenas em comparação com a beleza impressionante de Isabella.
Ao ver o sorriso zombeteiro de Isabella e ouvir o fio cortante de suas provocações, Stella perdeu completamente o controle e avançou, as mãos em forma de garras apontadas direto para o rosto de Isabella.
