Capítulo 8 Incentivos para a malícia

Brandon tinha sido puxado pela Isabella instantes antes e, num piscar de olhos, ela tinha sumido.

O fato de ela desaparecer com tanta facilidade deixava Brandon nervoso — afinal, “cuidar da Isabella” era a tarefa mais importante que o pai tinha confiado a ele.

Ao ver Isabella acenando para Stephen, Brandon soltou o ar, aliviado, e se aproximou dos dois.

— Então você veio pro jardim? Podia ter me avisado que ia acompanhar o doutor York até a saída, em vez de me deixar te procurando por todo lado.

— Desculpa, Brandon. Eu só queria conversar sobre o estado da mamãe com o Stephen — respondeu Isabella.

— E o que o doutor York disse?

— Bom… eu te conto depois.

— Quê? — Brandon franziu a testa, sem entender.

Isabella hesitou um instante e continuou:

— Acho que, Brandon, não dá pra esconder isso de você. A doença da mamãe… pode ter sido provocada de propósito por alguém.

— O quê? Isso é impossível. — Brandon ficou paralisado. — Como você pode saber disso? O doutor York acabou de te contar?

— Brandon, na verdade eu sou uma bruxa — disse Isabella, com total seriedade.

Brandon a encarou por um momento e soltou uma risada seca.

— Uma bruxa? Tipo aquelas que preparam poções mágicas?

Isabella assentiu, muito séria.

— Sim. Eu consigo fazer poções mágicas que fazem a pessoa desmaiar, acordar ou perder a memória.

Brandon se dobrou de tanto rir.

— Isabella, você não anda vendo desenho demais, não?

Isabella apontou para um jardineiro que trabalhava ali por perto.

— Brandon, você acredita que eu consigo contar a história de vida inteira desse homem usando só um baralho de tarô?

— Mesmo que você consiga, ele não vai ter coragem de confirmar — zombou Brandon. — Além do mais, quem é que prevê o futuro? Então lê só a vida atual dele. Vai, tô ouvindo.

Brandon cruzou os braços, observando enquanto Isabella, muito concentrada, tirava as cartas e espalhava o baralho sobre o colo para fazer a leitura.

Depois de alguns minutos, Isabella se levantou e apontou para o jardineiro de chapéu.

— Ele tem entre 35 e 38 anos, nasceu perto do litoral. Não tem pais ou, melhor dizendo, foi separado deles na infância. Mora com um idoso que não é parente, tem uma irmã e duas filhas, mas não tem esposa.

Ao ouvir Isabella, Brandon ficou boquiaberto. Ele não conhecia a fundo todos os empregados e serviçais da casa dos Tudor, então não tinha como saber se Isabella estava certa ou errada. Acabou apenas acenando para o funcionário de chapéu.

Vendo o jovem patrão chamá‑lo, o homem largou depressa a tesoura de poda comprida e se aproximou às pressas.

— Senhor Tudor, o senhor me chamou?

— Vou te perguntar uma coisa: você é órfão?

O jardineiro congelou, surpreso. A pergunta era meio rude, mas, como empregado, ele tinha que responder ao que o patrão quisesse saber, então balançou a cabeça.

— Não, não sou.

Quando viu o homem negar, Brandon deu uns tapinhas no braço de Isabella, como quem diz: “Viu? Sua adivinhação errou dessa vez.”

Isabella percebeu o olhar de Brandon, achando que ele a considerava uma farsante, e afastou a mão dele com um gesto desafiador.

— Deixa eu perguntar.

Ela fez mais algumas perguntas, e o jardineiro confirmou todas com um aceno de cabeça. Por fim, Isabella voltou a perguntar se ele era órfão, e dessa vez o homem assentiu, com os olhos marejados.

No fim, descobriu‑se que ele tinha negado antes porque lembrar da morte precoce dos pais o deixava muito triste, então geralmente evitava admitir que era órfão.

Brandon parecia espantado.

— Você e a minha irmã se conhecem?

O homem balançou a cabeça depressa.

— Não, não conheço.

Ele não fazia ideia de quem era aquela jovem que estava tão à vontade ao lado de Brandon, mas, pela intimidade com que falava com o jovem senhor, só podia ser parente da família Tudor. Ele não ousaria ofendê‑la, mas também não mentiria para Brandon.

Isabella então ergueu o rosto para Brandon com uma expressão triunfante.

Brandon franziu os lábios.

— Vou admitir: suas habilidades de adivinhação têm lá o seu fundamento.

— Brandon, na verdade eu queria era te provar que também fiz uma leitura pra mamãe mais cedo.

— Então você passou por todo esse trabalho porque tinha medo de que eu não acreditasse no que você tinha pra dizer? — Brandon bagunçou o cabelo de Isabella. — Você não precisa provar nada pra mim. O que você disser, eu vou acreditar.

Dez minutos depois

Brandon puxou Isabella para dentro de um gazebo afastado.

— Você disse que alguém usou bruxaria pra machucar a mamãe — quem faria uma coisa dessas? — A testa dele se franzia. — A mamãe passa todo o tempo naquele prédio, não sai pra trabalhar, não ofendeu ninguém de fora. Ela mal convive com outras pessoas. O que alguém ganharia machucando ela? Se alguém quisesse atingir alguém, não seria mais lógico mirar no pai, que tem muito mais inimigos? Será que é alguém querendo atingir o pai, mas acertou a pessoa errada?

Brandon quebrava a cabeça tentando entender o motivo do ataque.

Isabella ergueu o rosto e viu uma figura parada no segundo andar do prédio principal — uma mulher de tailleur preto conversando com vários empregados, que só faltavam se dobrar de tanta bajulação, claramente intimidados por ela.

— Ela sabe usar muitas máscaras — murmurou Isabella. — Brandon, ela não teria o motivo mais forte?

Brandon acompanhou o olhar de Isabella.

— Você quer dizer a Jennifer?

— Você acreditaria em mim?

Brandon franziu a testa, mas assentiu.

— Acredito, Isabella. Eu já disse, vou acreditar em tudo o que você me contar.

Isabella respirou fundo.

— Acho que a gente precisa investigar melhor a nossa querida tia. Brandon, o que você disse antes não tá bem certo — na verdade tem bastante gente nessa casa com motivos. Mas a Jennifer com certeza é quem tem o motivo mais forte!

Brandon não era cego aos sentimentos de Jennifer, claro. Mas Jennifer sempre tinha sido boa com ele. Depois que o marido morreu cedo, ela foi morar com a família da irmã, levando a filha junto. E ela não foi lá só pra viver às custas deles — ajudou Raymond a administrar toda a casa dos Tudor.

Ela era como uma governanta-chefe: acordava às cinco da manhã e só ia dormir às dez da noite, dedicada de corpo e alma à família Tudor. Poucos conseguiam achar defeito nela, e ela tinha treinado todos os empregados para serem perfeitamente educados e obedientes.

O cuidado dela com o pai dele também parecia ficar dentro dos limites apropriados, e era por isso que Brandon hesitava.

— Homem enxerga mulher de um jeito diferente do que mulher enxerga mulher — disse Isabella, em voz baixa.

Ela pegou sem muita cerimônia um grande podão de jardinagem que tinham deixado ali no gazebo.

Ela sempre sentiu que Jennifer olhava pra ela com rejeição e nojo, mas não ia dividir esse sentimento com Brandon. Ela com certeza iria atrás da verdade, e se alguém tivesse feito mal à família dela, ia pagar caro por isso!

Isabella abriu e fechou o podão, fazendo sons secos de “tec, tec”.

A Jennifer do segundo andar tinha sumido da janela sem que eles percebessem.

Vila Thornton

— Pai, você não tinha dito que aquela vadia da Isabella era filha de qualquer uma? Então quem eram aquelas pessoas que foram buscar ela na emissora naquele dia? E aquele homem da família Hamilton — ele era mesmo o Jonathan? — Stella não conseguia dormir, ainda fervendo de raiva com a imagem de Isabella sendo escoltada por aquela frota de Bentleys.

Gareth recostou no sofá, acendeu um cigarro e soltou uma argola de fumaça.

— Depois que você e sua mãe foram à emissora naquele dia, eu fui atrás da história com base no que vocês me contaram. Cheguei à conclusão de que aquelas pessoas eram atores que a Isabella contratou.

Julia emendou:

— Amor, você tá absolutamente certo! Aqui é Eltheron — quem é que anda com um comboio de trinta, cinquenta carros? Nem se fosse uma família real em visita oficial ia ter uma comitiva tão exagerada!

— Pai, você tem certeza de que não achou nada? Mãe, você lembra daquele homem que chamou a Isabella de “irmã”? Ele não podia ser alguém importante, podia?

Gareth balançou a cabeça.

— Não achei nenhum histórico impressionante sobre ele. Nem o nome verdadeiro eu consegui. Deve ser um Zé Ninguém qualquer.

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