Ser Amada pelos Três que Eu Temia

Ser Amada pelos Três que Eu Temia

Harper Rivers · Atualizando · 434.6k Palavras

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Introdução

Quando o mundo caiu nas garras dos monstros, Avery era só uma garota que não tinha nada além de um nome.

Agora ela é caçada por Titãs ancestrais — criaturas da mitologia que nunca deveriam ter sido reais — e salva por três irmãos mortais, ligados por sangue, magia e segredos. Damien é frio e cruel, convencido de que ela está escondendo alguma coisa. Ezra é o protetor relutante dela, disposto a desafiar o próprio sangue por causa dela. E Rowan… usa uma focinheira por um motivo.

Eles dizem que ela foi marcada. Escolhida. Que os Titãs a querem pelo que ela é — ou pelo que está se tornando.

Ela diz que só quer voltar para casa.

Mas amar em meio às ruínas é perigoso, e Avery está prestes a aprender:
ninguém sobrevive ao fim do mundo sem se quebrar — ou sem ser reclamado.

Capítulo 1

Avery

—Então… era pra esse café ter gosto de isso?

A garota diz aquilo encarando a caneca, como se ela fosse responder.

Eu paro na ponta da mesa e olho para baixo. O café parece exatamente igual ao que esteve a noite toda — escuro, soltando vapor, na dele. Ela nem levanta a cabeça pra mim; só continua franzindo a testa para dentro da xícara, como se tivesse sido pessoalmente ofendida.

—Sim —eu digo. —Isso é café.

Ela finalmente ergue o olhar. Cabelo impecável, boca brilhando, aquela confiança sem esforço de quem nunca precisou perguntar quanto custa. As amigas dela ficam recostadas, assistindo; uma já está com meio sorriso, como se estivesse torcendo pra isso virar assunto depois.

—Bom —a garota diz, batendo na borda com um dedo de unha feita —, tá com gosto de queimado.

—Desculpa —eu digo, com a voz automaticamente educada. —Posso trazer outro, fresquinho.

—Eu já peguei um fresquinho.

Eu paro por um instante, depois faço que sim com a cabeça.

—Posso trazer uma caneca cheia de outra garrafa.

Ela inclina a cabeça.

—Vocês limpam a máquina pelo menos? Ou só vão… servindo, servindo, até parar de funcionar?

Eu mantenho o sorriso no rosto. É um bom sorriso. Anos de treino.

—A gente limpa toda noite.

Ela não parece convencida.

—É só estranho. Café não devia ter esse gosto. Tipo… você já foi no Starbucks? Era pra ser assim.

Eu penso em todas as coisas que café não deveria ter gosto — incluindo de arrogância —, mas não digo nenhuma.

—Vou trazer outra xícara. Sem cobrar.

Ela suspira, como se eu tivesse acabado com as energias dela.

—Tá. Mas se vier ruim de novo, vou ter que falar com o seu gerente.

—Ah, não —eu digo. —Não a ameaça do gerente.

Ela estreita os olhos pra mim.

—Você tá sendo sarcástica?

Eu sustento o olhar dela, um segundo a mais do que deveria. Aí dou o meu melhor sorriso de atendimento.

—Claro que não.

Eu me viro antes que ela decida se vai discutir.

Atrás do balcão, o sorriso some na hora. Eu me inclino pra frente, apoiando as mãos na borda, e solto um ar que eu estava segurando há mais tempo do que eu imaginava. Sai como um som baixo e irritado — mais bicho do que garçonete educada.

Um peso encosta nos meus ombros. Uma mão dá tapinhas nas minhas costas, lentos e exagerados.

—Por que você tá fazendo barulho de ameaça? —o Ricky pergunta.

Eu olho de lado. Ele está inclinado sobre o balcão, só cotovelos e postura horrível, cachos loiros caindo nos olhos, parecendo divertido demais com a minha desgraça.

—Uma das minhas mesas acha que café de lanchonete tinha que ter gosto de Starbucks de quinze dólares e fundo fiduciário —eu digo. —Pelo visto, o nosso tem gosto de decepção e bairro pobre.

Ele ri.

—Isso não é nada.

Eu olho pra ele e ergo uma sobrancelha.

—Eu acabei de ver um toddler enfiar o canudo no nariz —ele diz. —Depois ele se inclinou pra frente e tentou beber o achocolatado por ali.

Eu encaro por um segundo.

—…Funcionou?

—Não.

—Covarde.

A risada escapa de mim antes que eu consiga segurar, seca e repentina. Eu não quis insultar uma criança, mas, poxa, se vai enfiar o canudo no nariz, melhor fazer isso valer a pena, né? No boxe do canto, a voz de uma mulher se ergue, em pânico e estridente, seguida por um homem gritando alguma coisa sobre más ideias e germes. A criança começa a chorar. Ricky aperta os lábios, com os ombros tremendo.

— Eu tive que me afastar — ele diz. — Pela minha própria segurança.

— Sei — eu digo, enxugando os olhos. — Tá bom. Você ganhou.

Eu me endireito, alisando o avental, deixando o barulho da lanchonete voltar a um nível administrável. — Pelo menos o turno já tá quase acabando.

— Quase — ele diz. — Que é quando as coisas geralmente dão errado.

O braço dele continua jogado sobre meus ombros, familiar e fácil. — Uns drinks depois?

Eu olho pra ele. O Ricky sempre foi fácil — alguém que não faz perguntas que eu não quero responder, que entende o que é estar cansada, dura e ainda assim tentando. Às vezes a gente vai tomar alguma coisa, às vezes essa “alguma coisa” vira o sofá e a cama dele, vira risada e calor e nada complicado. Sem promessas. Sem expectativas.

Eu não tenho espaço pra mais do que isso. Não com a minha faculdade de Tradução devorando cada minuto livre, não com mensalidade e aluguel e a matemática constante da sobrevivência rodando no fundo da minha cabeça.

Ricky é só braço e perna, pura energia inquieta — aquele tipo de magrelo comprido que, ainda assim, passa uma impressão atlética, como se ele pudesse entrar numa quadra de basquete e se garantir sem nem se esforçar. Ele tem cachos bagunçados que nunca ficam no lugar e um sorriso que funciona com quase todo mundo. As meninas notam ele. Sempre notaram. Ele nunca parece surpreso com isso, e também nunca se gaba — é só uma coisa que acontece ao redor dele.

Mas comigo ele é diferente.

Ele é gentil de um jeito que a maioria das pessoas não espera de alguém que chama atenção com tanta facilidade. Ele escuta. Ele se importa. Ele confere se eu tô bem. Ele faz questão de que eu me sinta querida, respeitada e segura — não só desejada. Quando a gente acaba embolado nos lençóis dele depois de drinks demais e risadas demais, ele me trata como se eu importasse — como se eu não fosse só mais uma noite, mas alguém com quem vale a pena ter cuidado.

E é por isso que eu sempre volto.

Então, drinks? Drinks eu dou conta.

— Sim — eu digo. — Eu ia gostar.

Uma sombra cai sobre o balcão antes que ele consiga responder.

Frank está ali, de braços cruzados, a expressão esculpida numa irritação permanente. Os olhos dele vão pro braço do Ricky, depois voltam pra mim. — A gente tá trabalhando — ele pergunta — ou tá de papo?

— Trabalhando — nós dois respondemos ao mesmo tempo.

— A mesa doze precisa de mais bebida — ele acrescenta, já se virando. — Menos conversa.

— Tô indo.

Ricky se inclina só o suficiente pra murmurar: — Ainda vale a pena.

Eu balanço a cabeça, pego a garrafa de café e volto pro salão, o sino acima da porta tilintando quando mais alguém entra.

Eu ainda não sei que esta é a última noite normal da minha vida. Eu ainda não sei que alguma coisa antiga já está se movendo, ou que o mundo que eu entendo está prestes a se rachar inteiro.

Por enquanto, eu só sirvo café e continuo sorrindo, acreditando — como uma idiota — que é só isso.

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