Capítulo 2 A verdade que eu carrego

O elevador desceu, andar por andar, levando-me para longe do homem que um dia tinha sido meu marido. Minhas costas estavam coladas à parede de metal gelada, minhas mãos tremiam, minha respiração era curta.

Gêmeos.

A palavra ecoou na minha mente como uma batida de tambor. Damian tinha gêmeos. Crianças que ele nunca mencionara. Crianças que existiam num mundo sobre o qual eu não sabia nada.

Empurrei as portas giratórias da Blackwood Tower e saí para o sol da tarde. A cidade zumbia ao meu redor, mas eu me sentia congelada. Cinco anos. Cinco anos que eu passara construindo uma vida, criando nossas filhas, me convencendo de que tinha seguido em frente. E agora, num único instante, tudo o que eu enterrara estava arranhando para voltar à superfície.

Meu celular vibrou. Rosa. As meninas estão perguntando de você. A Lily quer saber se você vai chegar em casa logo.

Respondi: Dez minutos. Não deixa ela comer mais nenhum giz de cera.

Rosa respondeu com uma sequência de emojis rindo e, assim, o nó no meu peito afrouxou. Esta era a minha vida agora. Não salas de reunião e olhos cinzentos e frios, e sim giz de cera nas paredes e mãozinhas que procuravam a minha no escuro.

Chamei um táxi e passei meu endereço ao motorista. A cidade desfilou pela janela, mas eu mal a via. Minha cabeça estava em outro lugar, repassando os acontecimentos da última hora.

Damian tinha me olhado sem me reconhecer. Tinha falado comigo como se eu fosse uma estranha. Não fazia ideia de que eu era a mulher com quem ele se casara, a mulher que ele descartara, a mulher que tirara os filhos dele da vida dele sem dizer uma palavra.

E agora ele tinha gêmeos. Outros filhos. Filhos que ele estava criando, protegendo, amando.

Encostei a testa no vidro frio da janela do táxi. Eu não queria me importar. Eu passara cinco anos aprendendo a não me importar. Toda vez que o rosto dele aparecia numa revista de negócios ou o nome dele surgia numa conversa, eu me treinava para não sentir nada. Ele era um capítulo que eu tinha fechado. Uma ferida que finalmente tinha cicatrizado.

Mas agora eu estava no escritório dele, planejando o casamento dele com uma mulher chamada Isabelle, e ele tinha filhos sobre os quais eu não sabia nada.

O táxi parou em frente ao meu prédio, uma casa geminada modesta de fachada marrom, num bairro que estava ficando na moda, mas ainda não tinha chegado lá. Paguei o motorista e subi os degraus, meus saltos estalando na pedra antiga.

Eu as ouvi antes mesmo de abrir a porta. A risadinha aguda de Lily, o riso mais suave de Rose, a voz de Rosa cantando junto com uma música infantil no rádio.

Destranquei a porta e entrei.

— Mamãe!

Lily se atirou nas minhas pernas, um borrão de cachos escuros e dedos pegajosos. Ela era a cara do Damian, do formato dos olhos ao jeito teimoso do queixo. Rose ficou um pouco atrás, mais reservada, me estudando com aqueles mesmos olhos cinzentos que tinham me encarado por cima de uma mesa uma hora antes.

Peguei Lily no colo e estendi o braço livre para Rose.

— Minhas meninas.

— Você tá com cheiro de chique — Lily anunciou, enfiando o nariz no meu pescoço.

— É porque eu tive uma reunião com uma pessoa muito importante — eu disse.

— Ele foi legal? — Rose perguntou baixinho.

A pergunta caiu como uma pedra no meu peito. Eu não sabia como dizer à minha filha de quatro anos que o homem que lhe dera aqueles olhos cinzentos um dia prometera me amar para sempre e depois me jogara fora como lixo. Eu não sabia como explicar que eu as mantivera em segredo não por rancor, mas por medo. Medo de que ele as tirasse de mim. Medo de que ele não as quisesse. Medo de que ele as quisesse demais.

— Ele foi muito educado — eu disse, com cuidado. — Mas não tão legal quanto vocês duas.

Lily aceitou aquilo com um aceno. O olhar de Rose ficou no meu rosto por mais um instante, e eu tive a sensação inquietante de que ela via mais do que devia.

Rosa apareceu na porta da cozinha, com um pano de prato sobre o ombro.

— Como foi?

— Consegui o emprego — eu disse, colocando as meninas no chão. Vi as duas dispararem de volta para os brinquedos. — Ele vai se casar.

Os olhos de Rosa se arregalaram. Ela era a única pessoa no mundo que sabia de tudo. O casamento, o divórcio, a gravidez que eu escondi até não conseguir mais. Ela tinha estado comigo quando as gêmeas nasceram, quando eu chorei de exaustão e terror e pelo peso esmagador de fazer tudo sozinha.

— Você está bem? — ela perguntou.

Abri a boca para dizer que sim, a resposta automática que eu tinha aperfeiçoado ao longo de cinco anos. Mas a palavra não saiu.

— Ele tem gêmeos, Rosa — sussurrei. — Ouvi a assistente dele mencionar. Ele tem filhos de quem eu nunca soube.

O rosto de Rosa empalideceu.

— Ele… ele se casou de novo?

— Não. Acho que não. Eu não sei. — Pressionei os dedos nas têmporas. — Eu achei que tinha acabado com segredos. Achei que tinha construído algo sólido, algo que ele não pudesse tocar. Mas agora…

— Agora você está de novo no escritório dele. — A voz de Rosa foi suave. — Ava, você não precisa fazer isso. Você pode ir embora. Dizer a ele que está ocupada demais.

Olhei para o outro lado da sala, para minhas filhas. Lily estava construindo uma torre de blocos, com a língua para fora de tanta concentração. Rose sentou ao lado dela, escolhendo com cuidado a próxima peça, os movimentos precisos e ponderados.

Elas eram minhas. Cada dia dos últimos cinco anos tinha sido por elas.

Mas Damian não sabia que elas existiam.

E agora havia outros gêmeos na vida dele. Crianças que o chamavam do jeito que chamavam. A ideia revirou meu estômago.

— Eu não posso ir embora — eu disse, baixo. — Não até eu entender.

Rosa estendeu a mão e apertou a minha.

— Tome cuidado. Segredos têm um jeito de vir à tona quando você menos espera.

Assenti, mas minha mente já estava em outro lugar. Eu precisava saber sobre aqueles gêmeos. Precisava saber quem eram, de onde vieram e por que Damian tinha filhos sobre os quais eu nunca tinha ouvido falar.

Porque, se eu ia proteger minhas meninas, eu precisava entender exatamente com que tipo de homem eu estava lidando.

E talvez, em algum lugar bem fundo, naquela parte de mim que eu não queria admitir que existia, eu precisasse saber se ele tinha se tornado alguém novo. Alguém capaz de amar crianças do jeito que nunca me amou.

Naquela noite, depois que as meninas dormiram, eu me sentei sozinha na sala escura. Meu celular brilhava em cima da mesa de centro. A mensagem de Damian ainda estava ali, um fio digital ligando meu passado ao meu presente.

Foi bom ver você hoje. Talvez algum dia você possa me contar mais sobre suas filhas.

Li de novo, e de novo, e de novo. Ele estava se aproximando. Não como cliente, mas como pessoa. Uma pessoa que tinha filhos sobre os quais não falava.

Quem eram eles? Por que ele os escondia? E por que meu segredo de repente parecia uma bomba-relógio?

Respondi: Eu gostaria. Obrigada.

Então larguei o celular e pressionei as mãos contra o rosto.

A verdade estava chegando. Eu sentia ela se acumulando, uma pressão atrás das costelas que não parava. Cada conversa com Damian, cada olhar, cada momento de gentileza me empurrava mais para a beira.

Eu tinha vindo aqui por vingança. Tinha planejado machucá-lo do jeito que ele tinha me machucado. Mas Damian não era o monstro em que eu o transformara. E, em algum lugar desta cidade, havia duas crianças que ele protegia com uma ferocidade que eu reconhecia, porque era a mesma ferocidade que eu sentia pelas minhas próprias filhas.

Quem eram os gêmeos dele? Por que ele não falava deles? E o que aconteceria quando o meu segredo e o dele finalmente colidissem?

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