Capítulo 3 Rachaduras na armadura
O sono não veio fácil naquela noite.
Eu me deitei com Rose aninhada contra o meu lado esquerdo e Lily esparramada sobre o meu direito, com o pezinho dela pressionado na minha barriga. Elas tinham aparecido às duas da manhã, como sempre faziam quando o apartamento parecia grande demais, ou quando a escuridão parecia perto demais. Eu nunca as mandava embora. O calor delas era a única coisa que, de fato, já tinha me curado.
Mas, hoje, nem a respiração suave delas conseguiu acalmar a minha mente.
Gêmeos.
A palavra circulava na minha cabeça como uma música que eu não conseguia parar de cantarolar. Damian tinha gêmeos. A ideia deveria ser irrelevante. Ele era meu ex-marido, um homem com quem eu não falava havia cinco anos. Quem ele criava não deveria importar.
Mas importava. Porque eu tinha passado aqueles cinco anos contando a mim mesma uma história: Damian Blackwood era incapaz de amar. Tinha se casado comigo por impulso e me descartado quando eu deixei de servir aos seus propósitos. Ele era frio, calculista, vazio por dentro. Ele não merecia conhecer as filhas porque, de qualquer forma, não as amaria.
Agora eu tinha de me perguntar se aquela história era uma mentira.
Na manhã seguinte, deixei as meninas na pré-escola e fui para o meu escritório. A Ever After Events era uma pequena loja de rua numa via ladeada por boutiques e cafeterias. Não era a Blackwood Tower, mas era minha. Eu mesma tinha pintado as paredes, pendurado as letras douradas sobre a porta, construído o negócio cliente por cliente, avaliação por avaliação.
Destranquei a porta e encontrei uma mensagem na secretária eletrônica.
“Srta. Winters, aqui é a assistente de Damian Blackwood. O Sr. Blackwood gostaria de uma reunião de acompanhamento hoje à tarde, às quatro. Por favor, confirme assim que for possível.”
Minha mão pairou sobre o telefone. Eu podia recusar. Podia ir embora.
Mas meus dedos discaram o número. “Eu estarei lá.”
Às quatro em ponto, eu estava de novo do lado de fora da Blackwood Tower.
Entrei direto no elevador, subi até o último andar e segui a assistente até o escritório dele sem me permitir pensar.
Damian estava junto à janela, de costas para mim, as mãos entrelaçadas atrás do corpo. Ele não se virou de imediato. Naquele breve silêncio, eu me permiti olhá-lo. Os ombros dele estavam mais largos do que eu me lembrava. Havia fios prateados nas têmporas que não existiam cinco anos atrás. A postura dele era rígida, controlada. Um homem que nunca deixava ninguém vê-lo ceder.
“Srta. Winters.” Ele se virou. “Obrigada por ter vindo com tão pouca antecedência.”
“Você disse que queria discutir os detalhes do casamento.”
Ele foi até a mesa. “Revisei sua proposta. O orçamento é aceitável. O cronograma é agressivo, mas possível. Tenho uma exigência adicional.”
Eu peguei meu caderno.
Ele se sentou devagar, os dedos batendo uma única vez na mesa. “Isabelle quer cobertura da mídia. Eu quero que você gerencie isso. Nada de fotógrafos dentro da cerimônia. Nada de entrevistas com os convidados. Eu quero controle sobre cada imagem que for divulgada.”
— Procedimento padrão — eu disse. — Posso redigir um protocolo para a imprensa. Vou precisar saber quais publicações ela convidou e que tipo de acesso foi prometido a elas.
Ele assentiu. — Tem mais uma coisa.
Esperei.
O maxilar dele se retesou. — O noivado tem sido... complicado. Isabelle e eu temos expectativas diferentes. Preciso de alguém que consiga navegar por isso sem tomar partido.
Ele estava falando de um casamento que já estava desmoronando antes mesmo de começar. Do mesmo tipo em que tinha entrado comigo.
— Você está preocupado que ela seja difícil — eu disse.
— Estou preocupado que ela faça exigências que eu não consiga atender. — Ele sustentou meu olhar e, por um instante, a máscara escorregou. Vi algo por baixo. Exaustão. — Eu não quero um espetáculo. Quero um casamento que aconteça sem incidentes. Só isso. Foi tudo o que eu sempre quis.
As palavras atingiram algum lugar fundo. Só isso. Foi tudo o que eu sempre quis. Era isso que ele queria do nosso casamento? Um dia tranquilo, um casamento que simplesmente acontecesse sem incidentes?
Ou era só a história que ele contava para si mesmo para justificar o quão facilmente me deixou ir?
— Eu dou conta disso — eu disse, mais suave do que pretendia. — Já lidei com clientes difíceis antes.
Ele me observou por um longo momento. — Você me lembra alguém.
Minha caneta parou de se mover. — Quem?
Ele balançou a cabeça, algo quase como um sorriso puxando seus lábios. — Ninguém. Faz muito tempo.
O silêncio se estendeu entre nós, pesado com coisas que nenhum dos dois disse. Eu queria perguntar quem ele via quando olhava para mim. Queria saber se alguma parte dele se lembrava da mulher que o tinha amado.
Mas eu não era mais aquela mulher.
Fechei meu caderno e me levantei. — Vou redigir o protocolo para a imprensa e enviar até amanhã. Também vou entrar em contato com a equipe da Isabelle para marcar uma reunião inicial de planejamento.
Ele também se levantou. — Srta. Winters.
Parei.
— Eu aprecio seu profissionalismo — ele disse. — É raro encontrar alguém que simplesmente faça o que diz que vai fazer.
As palavras cortaram mais fundo do que ele imaginava. Eu tinha feito tudo o que disse que faria. Eu o tinha amado, apoiado, acreditado nele. E ele me retribuíra com um cheque e uma escolta de segurança.
Mas ele não sabia disso. Ele não me conhecia nem um pouco.
— Obrigada, Sr. Blackwood — eu disse. — Eu entro em contato.
Saí de lá com a coluna ereta e as mãos firmes. Mas, no instante em que as portas do elevador se fecharam, soltei um ar que eu nem sabia que estava prendendo.
Ele continuava o mesmo. Frio, controlado, incapaz de enxergar além da própria versão dos acontecimentos. E, ainda assim, havia algo na voz dele. Algo que soou quase humano.
Encostei a testa na parede do elevador e fechei os olhos.
Você me lembra alguém.
Ele tinha chegado tão perto de se lembrar. E, por um segundo aterrorizante, eu não tinha certeza se queria que ele esquecesse ou que, enfim, me enxergasse.
