Capítulo 5 Rosas brancas

Quando cheguei ao sobrado, a pasta de conto de fadas já estava com as pontas amolecidas pela chuva. Eu a apertei contra o peito como se fosse um segredo, e não um monte de fotografias.

Rosa abriu a porta antes que eu pudesse procurar minhas chaves.

— Você se atrasou.

— Três minutos.

— Três minutos é atraso quando duas crianças de quatro anos estão esperando para perguntar por que a mãe delas parece que está carregando um pássaro morto.

— Eu não estou com essa cara.

— Está pior. Está com cara de quem ficou pensando.

Ela se afastou para eu entrar. O cheiro de molho de tomate e manjericão invadiu o corredor. Da sala veio o baque suave de um brinquedo caindo, seguido do anúncio triunfante de Lily de que tinha ganhado um jogo que ninguém mais sabia que estava jogando.

Eu coloquei o meu sorriso de trabalho. Era mais fácil do que o outro.

Lily apareceu primeiro, com cachos escapando das duas presilhas que Rosa tinha colocado no cabelo dela. Rose veio atrás, com um livro ilustrado aberto como um escudo. As duas estavam de meia. As de Rose eram diferentes uma da outra, como sempre.

— Mamãe! — Lily abraçou minha cintura. — Você trouxe as flores?

Olhei para a pasta.

— Que flores?

— As do casamento. — O olhar dela já tinha encontrado a amostra de rosa branca enfiada no bolso lateral. — Eu vi quando você entrou.

Os olhos de Rose se ergueram do livro.

— Você está planejando um casamento?

— Não, meu amor. Isso é do trabalho. — Eu me agachei até ficar na altura delas e coloquei um cacho atrás da orelha de Lily. — Eu estou ajudando outra pessoa a planejar um casamento.

— Pra um papai? — Lily perguntou.

A pergunta acertou em cheio o lugar exato que eu passei cinco anos protegendo.

A voz de Rosa veio de trás de mim.

— Lavem as mãos, as duas. O jantar está pronto.

Foi um resgate, e todas nós sabíamos disso.

Lily estudou meu rosto.

— Mas no fim a noiva ganha um papai.

— Não é assim que casamento funciona — disse Rose, baixinho. — A noiva já conhece o noivo.

— Você conhece? — Lily me perguntou.

O cômodo pareceu se estreitar. Eu alisei a prega na manga dela, comprando um fôlego, depois outro.

— Eu conheço as pessoas com quem estou trabalhando. Isso é diferente de conhecer do jeito que vocês conhecem a Rosa, ou uma à outra.

— Você conhece o noivo? — Rose insistiu.

Eu conhecia. Eu conhecia o som da risada de Damian antes que o luto tirasse as bordas dela. Eu sabia que ele não gostava de canela no café e odiava ser surpreendido em público. Eu sabia que ele uma vez prometeu que ninguém nunca mais me faria me sentir pequena.

— Eu sei o nome dele — eu disse.

Lily franziu a testa.

— Isso não é conhecer.

— Não — eu sussurrei. — Não é.

Rosa apareceu com dois pratinhos e conduziu o momento para o jantar. As meninas subiram nas cadeiras, ainda me observando. Eu coloquei a pasta na prateleira alta da cozinha, onde mãos pequenas não alcançavam. Eu disse a mim mesma que rosas brancas eram só flores. Eu disse a mim mesma que a palavra casamento não pertencia ao passado.

Eu era boa em dizer coisas a mim mesma.

Depois do jantar, eu coloquei Lily na cama enquanto Rose negociava por mais uma página. O quarto delas era pintado de um azul desbotado que Rosa tinha escolhido porque dizia que criança precisava de uma cor que não gritasse com ela. Duas camas ficavam sob uma lua de papel. As luzes noturnas faziam pequenas poças de ouro no chão.

Lily segurou minha mão.

— Quando eu crescer, eu posso ter rosas brancas?

— Se você quiser.

— Meu papai viria?

Minha garganta se fechou.

Rose ergueu o olhar do travesseiro.

— Você disse que era do trabalho.

— É. — Beijei a testa dela. — Isso não muda nada entre nós.

— O papai sabe disso? — Lily perguntou.

Eu poderia ter mentido. Quase menti.

— Ele não sabe de vocês — eu disse em vez disso, tão baixo que nem tive certeza de que elas ouviram.

Os dedos de Lily se apertaram em torno dos meus. — Por quê?

Eu não podia contar a elas sobre a acusação, os papéis do divórcio, a carta que eu tinha enviado e o medo de que qualquer verdade que eu desse a Damian virasse mais uma arma nas mãos dele. Elas tinham quatro anos. Mereciam hora de dormir, não a minha história.

— Porque adultos fizeram escolhas antes de vocês nascerem — eu disse. — E eu estou tentando fazer as escolhas certas agora.

Rose aceitou aquela resposta com a solenidade de uma juíza. Lily não. Ela se virou de lado, os cachos caindo sobre a bochecha.

— Ele é legal? — ela perguntou.

Eu vi Damian do outro lado de uma mesa, o olhar dele passando por mim sem reconhecimento. — Não sei.

Essa foi a primeira resposta honesta que eu tinha dado o dia inteiro.

Quando desci, Rosa estava esperando à mesa da cozinha. A pasta estava aberta ao lado dela, e a amostra da rosa branca repousava sobre a capa.

— Você levou isso para o quarto delas — ela disse.

— Eu não levei.

— Você levou o trabalho para dentro de casa. A pasta é só papel. — Ela deu um toque nela. — Não finja que o perigo termina na porta.

— Eu não estou investigando ele.

— Ainda não.

A confiança dela doeu porque era merecida. Rosa tinha estado lá quando eu voltei do fórum com uma mala e sem aliança. Ela tinha segurado meu cabelo quando os enjoos matinais começaram e, depois, quando as gêmeas nasceram antes do tempo e meu corpo não parava de tremer. Ela nunca, nem uma vez, me pediu para perdoar Damian. Só me pediu para eu não deixar que a minha raiva escolhesse pelas meninas.

— Eu preciso entender quem ele é agora — eu disse. — Se aquelas crianças são dele, eu preciso saber que tipo de pai ele é.

— E se ele for um bom pai?

Eu não tinha resposta.

Rosa fechou a pasta. — Você pode olhar para a vida dele de longe. Mas não confunda observar com manter as meninas em segurança. Se você puxar esse fio, ele pode seguir o caminho de volta até você.

— Eu dou conta dele.

— Você também dava conta dele antes. Isso não impediu que ele te machucasse.

As palavras pesaram mais do que eu queria. Estendi a mão para a pasta, mas Rosa manteve a mão dela em cima.

— Prometa que não vai levar as meninas para perto da propriedade dele.

— Eu prometo que não vou levá-las lá.

Rosa soltou a pasta, sem se convencer. Eu a levei para cima e a tranquei na gaveta da escrivaninha, sob faturas antigas. Depois fiquei no corredor escuro, ouvindo minhas filhas respirarem.

— Você comeu? — ela perguntou.

— A maior parte do jantar.

— Então largue uma coisa. — Ela tirou o pano de prato da minha mão. — Você consegue planejar um casamento sem transformá-lo num veredito sobre a sua própria vida.

Olhei na direção da escada. — Eu sei.

— Não. Você sabe as palavras. Eu estou pedindo que você acredite nelas.

Ela me devolveu o pano. Terminei de secar o último prato e então subi para checar as meninas mais uma vez. As mãos delas estavam entrelaçadas no vão entre as camas. Por um instante, eu quis poder pegar emprestada a certeza delas de que toda história tinha um final seguro. Fiquei ali até a respiração delas ficar mais lenta, e então voltei para baixo, para a pasta e para a pergunta que eu tinha prometido a Rosa que lidaria com cuidado.

Eu não deixaria que ele descobrisse sobre as minhas.

Amanhã, eu vasculharia todo registro público e descobriria o que Damian tinha escondido de mim.

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