Capítulo 6 A saudade

Três dias se passaram desde a minha visita à casa de Damian. Eu disse a mim mesma que não significava nada. Um cliente sendo educado. Um homem ocupado entrando em contato sem pensar. Eu não tinha motivo para me importar com as crianças que ele estava criando, nem motivo para deixar a imagem daquelas fotografias ficar rondando a minha mente.

Mas me peguei conferindo o celular. Esperando.

Era perigoso. Eu sabia que era perigoso. As palavras de Rosa ecoavam na minha cabeça: Não deixe seu coração reescrever a história. Eu não tinha esquecido o que Damian fez. O jeito frio com que me entregou os papéis do divórcio. Os seguranças que me escoltaram para fora. O silêncio que veio depois por cinco anos.

E, ainda assim, o homem que acolheu os filhos órfãos do próprio irmão não combinava com aquela imagem. O homem que abriu mão da própria liberdade por dois garotinhos não combinava com o monstro que eu tinha criado na minha mente.

Na manhã de quinta-feira, cheguei à Blackwood Tower para nossa reunião remarcada. O saguão parecia menos intimidador agora, ou talvez eu só estivesse me acostumando ao mármore e ao dourado. Peguei o elevador até o último andar, meu portfólio apertado contra o peito.

A assistente de Damian fez um gesto para eu entrar. “Ele já vem falar com você.”

Entrei no escritório e parei.

Damian não estava sozinho.

Um garotinho estava sentado no sofá de couro perto da janela, com as pernas balançando, um livro ilustrado aberto no colo. Ele ergueu o olhar quando eu entrei, e meu fôlego travou.

Olhos cinzentos. Cabelo escuro. A mesma teimosia marcada no maxilar que eu via em Lily todos os dias.

Ele tinha quatro anos, talvez cinco. E era a cara de Damian.

“Você deve ser a Srta. Winters.” A voz de Damian veio de trás de mim. Eu me virei. Ele estava de pé ao lado da mesa, me observando com uma expressão indecifrável. “Peço desculpas pela interrupção. A babá teve uma emergência.”

“Não tem problema”, consegui dizer. Minha voz soou distante, como se pertencesse a outra pessoa.

O menino desceu do sofá e caminhou até Damian, enfiando a mão na dele. Tudo o que eu vi foi uma criança se agarrando a Damian, e a mão de Damian repousando no ombro pequeno dele com uma delicadeza que abriu uma rachadura no meu peito.

“Este é o Leo”, Damian disse. “Leo, diga olá para a Srta. Winters.”

“Olá.” A voz de Leo era baixa, tímida.

“Oi, Leo.” Eu me agachei à altura dele, com o coração disparado. “Parece um livro bem legal esse que você tem aí.”

Ele assentiu, apertando o livro com mais força. “É sobre dinossauros.”

“Eu adoro dinossauros. Qual é o seu favorito?”

“Tricerátopo.”

“Uma ótima escolha.” Eu sorri, e parte da tensão no rostinho dele diminuiu.

Damian observou a troca, a expressão indecifrável. Então disse: “Leo, por que você não senta na mesa e desenha por alguns minutos? Eu preciso conversar com a Srta. Winters.”

Leo assentiu e foi até uma mesinha no canto, pegando giz de cera e papel.

Eu me levantei devagar, com as pernas bambas. Damian indicou a cadeira do outro lado da mesa, e eu me sentei, forçando minhas mãos a ficarem quietas.

“Peço desculpas de novo”, ele disse, sentando-se. “Pensei em cancelar, mas a planta precisava ser aprovada antes do fim de semana.”

“Tudo bem. Eu entendo.” Abri meu portfólio, mas meus olhos continuavam desviando para o menino no canto. “Ele é… um dos gêmeos?”

O olhar de Damian acompanhou o meu. Algo tremulou nos olhos dele. “Sim. Leo. O irmão dele está em casa, resfriado.”

Um dos gêmeos. A verdade que eu tinha descoberto dias antes se acomodou no meu peito como uma pedra. Aquelas não eram crianças biológicas dele. Eram seus sobrinhos. Os órfãos que ele acolhera. As crianças por quem ele abrira mão de tudo.

Eu deveria ter me sentido satisfeita. A narrativa de vingança que eu tinha construído exigia que ele fosse um homem que seguiu em frente, que me substituiu, que formou uma família com outra pessoa enquanto eu criava as filhas dele sozinha. Mas, olhando para Leo, vendo Damian lançar a ele um olhar de preocupação silenciosa, eu não senti satisfação alguma. Só um vazio dolorido.

— Ele parece um bom menino — eu disse.

— Ele é. — A voz de Damian estava mais suave do que eu já tinha ouvido. — Os dois são. Tem sido… uma adaptação.

Eu quis perguntar o que ele queria dizer. Quis perguntar quem era a mãe deles, por que não havia uma aliança no dedo dele, por que ele ia se casar com Isabelle se já tinha filhos. Mas as perguntas ficaram presas na minha garganta. Eu já sabia as respostas.

Em vez disso, tirei a planta revisada. — Fiz as alterações que o senhor pediu. A suíte nupcial agora fica na ala leste, e eu acrescentei iluminação adicional conforme as preferências da Isabelle.

Damian pegou o documento, e o foco dele mudou para os negócios. Nos vinte minutos seguintes, discutimos disposição das mesas, opções de menu e o protocolo com a imprensa. Eu respondi às perguntas dele, anotei, e fingi que meu mundo não estava tombando de lado.

Leo desenhava em silêncio no canto, de vez em quando erguendo um desenho para a aprovação de Damian. Todas as vezes, Damian olhava e assentia, ou oferecia uma palavra baixa de incentivo. Ele nunca levantou a voz. Nunca dispensou o menino.

Aquele não era o homem de quem eu me lembrava.

A reunião terminou. Eu juntei minhas coisas, com movimentos mecânicos.

— Srta. Winters. — Damian se levantou quando eu me ergui. — Obrigado pela sua paciência hoje.

— Claro.

Leo levantou os olhos do desenho. — Você vai embora?

— Vou — eu disse. — Foi um prazer conhecer você, Leo.

Ele estendeu uma folha de papel. — Isto é pra você.

Eu peguei. Um desenho de giz de cera de um tricerátopo, verde e cheio de caroços, com um sorriso torto. Meus olhos arderam.

— Obrigada — sussurrei. — Vou guardar com carinho.

Caminhei até o elevador, segurando o desenho como uma tábua de salvação. As portas se abriram, e eu entrei.

Pouco antes de se fecharem, ouvi a voz de Leo. — Papai, ela vai voltar?

A resposta de Damian foi baixa demais para eu entender.

As portas se fecharam, e eu encostei as costas na parede, o desenho amassando no meu punho.

Papai. Ele era o pai deles agora. Ele acolhera duas crianças órfãs e lhes dera um lar. Tinha se tornado o pai de que eles precisavam.

Eu passei cinco anos escondendo dele as filhas dele. E agora eu sabia que ele vinha criando filhos na mesma cidade, no mesmo mundo, sem nunca saber que também tinha filhas.

Meu celular vibrou. Uma mensagem.

Leo perguntou se você gostou do desenho. Eu disse que sim. Ele quer saber se você vai à festa de aniversário dele no mês que vem.

Eu encarei a tela. Damian estava me convidando para a vida dos filhos dele. Ele não fazia ideia de que minhas filhas compartilhavam os olhos cinzentos de Leo. Não fazia ideia de que cada momento que eu passava com os filhos dele era um momento em que eu mentia para ele sobre as filhas dele.

Eu digitei: Eu ficaria honrada. Então saí do elevador e caminhei para a luz do sol, com o coração em zona de guerra.

A verdade estava chegando. E, quando chegasse, eu teria de responder por cinco anos de silêncio.

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