Capítulo 7 Rachaduras na fachada
A mensagem da assistente de Damian chegou às 9h47.
O sr. Blackwood solicita uma visita técnica para discutir o layout do local. Ele vai buscá-la no seu escritório às duas horas. Por favor, confirme.
Fiquei encarando a mensagem por um minuto inteiro, com o polegar pairando sobre o teclado. Cada parte lógica do meu cérebro gritava para eu recusar. Eu já tinha feito o que viera fazer — garantido o contrato, reunido informações, iniciado o fogo lento da vingança. Eu não precisava estar no carro dele, no espaço dele, respirando o ar dele.
Mas meus dedos digitaram Confirmado antes que eu pudesse impedi-los.
Exatamente às duas, um sedã preto encostou em frente à Ever After Events. O vidro desceu, e o perfil de Damian surgiu — maxilar afiado, têmporas tocadas de prata, olhos cinzentos que atravessavam os meus como se eu fosse uma estranha. Ele não sorriu. Apenas fez um gesto com a cabeça na direção da porta do passageiro.
— Srta. Winters.
Entrei. O banco de couro estava frio, mas o ar estava quente, impregnado do perfume dele — algo caro e amadeirado, o mesmo cheiro que eu tinha respirado na nossa noite de núpcias. Passei anos tentando esquecê-lo. Agora ele inundava meus sentidos como uma onda gigante.
— A coordenadora do local está nos esperando — disse ele, tocando no tablet sem olhar para mim. — Isabelle quer uma entrada separada para o cortejo. Eu disse que era impraticável, mas ela insistiu.
Apertei meu portfólio contra o peito.
— Você devia deixar ela ter isso. É o casamento dela. Pequenas concessões fazem uma grande diferença na confiança de uma noiva.
Ele me lançou um olhar, um lampejo de surpresa atravessando suas feições.
— Você é boa nisso.
— Eu faço isso há cinco anos.
A viagem foi silenciosa. Silenciosa demais. A cidade deslizava pela janela — torres de vidro, calçadas lotadas, o zumbido distante de obras. Dei por mim roubando olhares para o perfil dele. O jeito como o maxilar ficava tenso quando ele checava o celular. O jeito como os dedos tamborilavam no volante. O jeito como ele soltava o ar devagar, como se estivesse segurando algo pesado por dentro.
Chegamos ao Grand Imperial Hotel, um palácio imenso de mármore e cristal. O salão de baile era cavernoso, com lustres que capturavam a luz e espalhavam arco-íris pelo piso polido. Damian atravessou o espaço como um general inspecionando um campo de batalha, apontando falhas com precisão militar.
— Esta coluna obstrui a visão — disse, tocando um pilar de mármore. — A pista de dança deveria ser deslocada três metros para a esquerda. E a iluminação… Isabelle quer um rosa suave, mas me disseram que isso estoura as fotos.
Eu anotava. Eu concordava com a cabeça. Eu sorria. Mas minha mente estava em outro lugar — no jeito como as mangas estavam dobradas até os cotovelos, nas veias dos antebraços, no fato de que eu já tinha traçado aquelas veias com a ponta dos dedos.
No meio da vistoria, o celular dele vibrou. Ele se afastou, a voz baixando para algo que eu nunca tinha ouvido antes — suave, preocupada, quase vulnerável.
— Sim, Leo? O que foi? O Max está bem?
Meus ouvidos se aguçaram. Leo. Nome de criança.
Ele desligou e se virou para mim, um lampejo de frustração cruzando seu rosto.
— Peço desculpas. A babá teve uma emergência. Eu preciso…
— Vá — eu disse. — Eu termino a vistoria sozinha.
Ele hesitou.
— Você… você se importaria de vir comigo? Os meninos estão no escritório. Eu não quero deixá-los sozinhos. Eles são pequenos demais para ficarem sem supervisão, e minha assistente está de licença médica.
Eu devia ter dito não. Cada instinto mandava eu me afastar, proteger as paredes que eu passei cinco anos construindo. Mas havia algo na voz dele — aquela aspereza crua, sem defesa — que me fez assentir.
— Claro.
Voltamos para a Blackwood Tower em silêncio. Mas, dessa vez, o silêncio era diferente. Era denso de expectativa, de uma pergunta que nenhum de nós ousava fazer.
Ele me levou a um andar privativo que eu nunca tinha visto — uma suíte escondida, afastada dos escritórios executivos. No instante em que ele abriu a porta, eu entendi por quê.
O cômodo era um paraíso infantil. Brinquedos espalhados pelo carpete. Desenhos de giz de cera colados nas paredes — dinossauros tortos, gatos listrados de arco-íris, um sol com rosto sorridente. Um trenzinho de madeira serpenteava pela mesa de centro. Uma pilha de livros ilustrados estava no sofá.
E ali, no chão, estavam dois meninos.
O mais velho — talvez com quatro anos — tinha cachos escuros e olhos cinzentos sérios. Ele ergueu o olhar para mim com uma cautela que me lembrou Rose. O mais novo, um pouco menor, agarrava um dinossauro de pelúcia e espiava de trás do sofá.
—Ava, estes são o Leo e o Max —disse Damian, a voz suavizando. —Meninos, esta é a Srta. Winters. Ela está ajudando com o casamento.
Leo me analisou com aqueles olhos velhos demais para a idade.
—Você é a moça do casamento?
—Sou.
—Você vai casar com o meu tio?
Pisquei, pega de surpresa.
—Não. Eu vou organizar o casamento. É diferente.
Damian se agachou ao lado dele, a mão pousada no ombro pequeno de Leo.
—Lembra que eu te falei do casamento? É meu e da Isabelle.
—Mas você disse que a gente ia estar lá.
—Claro que vocês vão estar lá. —Ele bagunçou o cabelo de Leo com uma ternura que rachou alguma coisa dentro do meu peito. —Você e o Max são minha prioridade. Sempre.
Tio. Minha mente travou na palavra. Eram os sobrinhos dele. Os filhos do irmão dele.
—Onde estão os pais deles? —perguntei, minha voz mal passando de um sussurro.
O maxilar de Damian se contraiu. Ele se levantou e foi até a janela, de costas para mim.
—Ethan —meu irmão— morreu há dois anos. Acidente de carro. A mãe deles morreu quando ainda eram bebês —complicações pós-parto. Eu sou o responsável legal deles.
As palavras me atingiram como água gelada. Ele estava criando os órfãos do irmão. Sozinho. E ia se casar com Isabelle —uma mulher que, pelo que eu tinha observado, não demonstrava interesse nenhum nesses meninos.
—Leo e Max são tudo —disse ele, ainda encarando a janela. A voz era baixa, firme, mas eu ouvi a tensão por baixo. —Eu faço tudo por eles. Até o casamento… é para dar estabilidade. Um escudo público. Para a mídia não fuçar a vida privada deles. Eles já passaram por coisa demais.
Pensei em Lily e Rose. No jeito como eu as tinha escondido para protegê-las de um mundo que as devoraria. No jeito como eu tinha dito a mim mesma que estava fazendo a coisa certa.
E agora eu estava ali, vendo um homem proteger os sobrinhos com o mesmo amor feroz que eu sentia pelas minhas filhas.
—Tio —chamou Leo, quebrando o silêncio—, posso mostrar pra Srta. Winters o meu desenho de dinossauro?
Damian se virou, um vestígio de sorriso nos lábios.
—Claro.
Leo correu até mim, erguendo um desenho de giz de cera: um T-rex verde com um sorriso torto e dentes enormes.
—Este é o Rex. Ele come vegetais. Ele é um dinossauro vegetariano.
—Muito sábio —consegui dizer, com a garganta apertada. —Eu nunca tinha conhecido um T-rex vegetariano.
—A maioria dos T-rex é carnívora —disse Leo, inclinando a cabeça. —Mas o Rex é diferente. Ele decidiu ser legal.
Ajoelhei para ficar na altura dele.
—É uma escolha maravilhosa.
Max se aproximou devagar, ainda agarrado ao dinossauro de pelúcia.
—Ele também tem um nome —sussurrou. —Ele chama Spike.
—Olá, Spike. —Sorri para ele. —Ele parece muito corajoso.
—Ele é. Ele me protege.
Damian nos observava com uma expressão que eu não conseguia decifrar —em algum lugar entre admiração e luto.
Fiquei vinte minutos. Vi Damian ajudar Max com um quebra-cabeça, guiando com paciência as mãozinhas dele. Ouvi Leo explicar a diferença entre um tricerátopo e um estegossauro. Vi o jeito como Damian olhava para eles —não com obrigação, mas com um amor tão feroz que fazia meu peito doer.
Quando finalmente me levantei para ir embora, Damian me acompanhou até o elevador.
—Obrigado —disse ele, a voz baixa. —Por vir. Por ser gentil com eles.
—Eles são meninos maravilhosos.
—São. —Ele hesitou, os olhos cinzentos procurando os meus. —Você é diferente do que eu esperava, Ava.
—Diferente como?
—Mais… calorosa. —Ele disse isso baixo, como uma confissão. —Você me lembra alguém que eu conheci. Alguém com quem eu falhei.
Entrei no elevador. As portas começaram a se fechar.
Mas, pouco antes de se fecharem por completo, a voz de Leo ecoou:
—Tio, ela vai voltar?
A resposta de Damian foi baixa demais para eu ouvir.
As portas se fecharam, e eu encostei a testa na parede fria de metal, o som da pergunta de Leo reverberando no meu crânio.
Eu tinha vindo aqui por vingança. Eu tinha planejado machucá-lo do jeito que ele me machucou.
Mas agora eu estava no mundo dele, vendo-o criar dois meninos com uma delicadeza que eu nunca tinha visto nele antes. E cada momento que eu passava com ele, cada vislumbre do pai que ele tinha se tornado, fazia as muralhas que eu construí desmoronarem um pouco mais.
Alguém com quem eu falhei.
Ele tinha estado tão perto de se lembrar de mim.
E, por um segundo aterrorizante, eu não tinha certeza se queria que ele esquecesse —ou que finalmente enxergasse a verdade.
