Capítulo 2 Capítulo 2
Agora, Grayson não era contra ninguém aproveitar o tipo de prazer sexual que quisesse. Mas ele acreditava em um parceiro de cada vez. Esse lance de relacionamento com vários parceiros simplesmente não era para ele. Ele queria algo como o que os pais dele tinham, talvez com um pouco mais de tempero. Ele via o casamento dos pais como o ideal: trinta e seis anos juntos, dois filhos e ainda indo firme, um verdadeiro conto de fadas. Olhando para Morgan agora, ele percebeu que não ia ter isso com ela.
Ele não tirou os olhos dela, sabendo agora que nunca tinha realmente conhecido a mulher com quem planejava se casar.
— Entrar com vocês?
— Não critica antes de experimentar. — Tina puxou a calça, sem se preocupar com calcinha. — A Morgan disse que você é bem... habilidoso.
Só de pensar nisso ele ficou fisicamente enjoado.
— Caiam fora — repetiu. — As duas.
O rosto de Morgan se endureceu.
— Essa também é a minha casa.
— Não. — Grayson se afastou do toque dela. — Não é. Não mais. Você perdeu esse direito quando resolveu trair.
Ele se virou e saiu do quarto, desceu pelo corredor até a sala. Atrás dele, ouviu Morgan chamando seu nome e, em seguida, uma discussão abafada com Tina. Ele ignorou as duas e foi direto até o carrinho de bebidas no canto.
Serviu três dedos de uísque em um copo de cristal e virou de uma vez. A ardência na garganta foi um alívio bem-vindo para o vazio no peito.
Oito meses de mentiras... Tinha mesmo sido só oito meses? Com a Tina, tinham sido oito meses. Será que tinha tido mais alguém além de Tina? Se, na cabeça dela, ficar com uma mulher não contava como traição, talvez Tina fosse só a mais recente. Quantas tinham sido nesses doze meses em que estavam juntos? Ele não ia perguntar; só saber que tinha existido a Tina já era o fim para ele.
Ele estava planejando o futuro dos dois enquanto ela se esgueirava por aí pelas costas dele. Com uma mulher que tinha conhecido na festa da irmã dele. A suposta melhor amiga da irmã.
Serviu outra dose, dessa vez bebendo mais devagar. Precisava lidar com o lixo antes de ficar bêbado.
Do quarto, ainda dava para ouvir as duas falando, agora com as vozes mais altas.
Grayson desligou, concentrando-se apenas no líquido âmbar dentro do copo.
Passos soaram no corredor. Tina apareceu primeiro, agora totalmente vestida, o cabelo escuro penteado para trás. Jogou uma bolsa de grife no ombro e parou na entrada da sala.
— Pelo que vale, foi a Morgan que veio atrás de mim. — Ela não soava arrependida, só constatando um fato.
Grayson não ergueu o olhar.
— Cai da porra da minha casa.
— Você sabe que podia muito bem ter entrado com a gente, eu não ia ligar. Eu jogo pros dois lados.
Grayson nem respondeu, apenas estremeceu com a simples ideia.
Por um instante ela pareceu irritada com a reação dele, mas logo uma máscara caiu sobre o rosto dela; Tina deu de ombros e seguiu em direção à porta da frente. Um momento depois, ele ouviu a porta bater atrás dela.
Morgan saiu do quarto usando jeans e um suéter, o rosto ruborizado de raiva.
— Sério, Grayson, você não tem o direito de falar com ela daquele jeito.
— Em que universo você acha que pode mandar em como eu devo reagir quando encontro outra pessoa na nossa cama com você? — A voz dele continuava baixa, controlada. O tipo de controle que aterrorizava os adversários de negócios dele.
— Ah, qual é, Grayson, por que você está tão irritado? Nem é como se eu tivesse ficado com outro homem.
— Pelo amor de Deus, Morgan. — Ele pousou o copo, com medo de acabar esmigalhando o cristal na mão. — Essa é a sua defesa? Que não conta porque ela é mulher?
Ela cruzou os braços, desafiadora.
— Você está exagerando.
— Exagerando. — Ele riu, o som amargo até para os próprios ouvidos. — Você está trepando com outra pessoa pelas minhas costas durante todo o nosso noivado, e até antes, na nossa cama, e eu é que estou exagerando?
— É só uma brincadeira, e eu falei que você podia participar. Qual é o problema?
— Qual é o problema? — Ele se afastou dela, de repente precisando de distância entre os dois. — O problema é traição. É mentira. É falta de respeito.
— Olha, eu ia te contar...
— Quando? Depois do casamento? No nosso décimo aniversário? — Ele apontou para o anel no dedo dela.
Morgan ergueu o queixo.
— Eu te amo, Grayson. Essa coisa com a Tina... é só físico.
— Amor. — A palavra veio amarga na boca dele. — Você não sabe a primeira coisa sobre amor. Você não faz isso com alguém que diz amar.
— Isso não é justo.
— Justo? — O controle dele falhou um pouco, o suficiente pra voz subir de tom. — O que não é justo é me fazer acreditar que você queria as mesmas coisas que eu. Uma vida juntos. Filhos. Compromisso.
— Eu quero essas coisas.
— Com alguém em cima de quem você tá pulando cerca?
— Não é assim com a Tina. Não é...
— Chega. — Ele levantou a mão. — Só chega. Não importa como você justifica isso pra você mesma. Acabou.
A expressão dela mudou; a indignação deu lugar ao cálculo.
— Você não tá falando sério.
— Eu nunca falei tão sério na minha vida.
— Amor, pensa no que você tá jogando fora. — Ela se aproximou, os quadris balançando de leve, do jeito que ela fazia quando queria alguma coisa. — A gente é bom junto. Todo mundo diz isso.
— Todo mundo não sabe que você vem mentindo pra mim.
Ela tocou nele, uma mão subindo pelo peito dele.
— Eu errei. Eu vou terminar tudo com a Tina. A gente pode continuar como antes.
Grayson segurou o pulso dela, interrompendo o movimento. Ele não queria que ela encostasse nele.
— Não existe mais “a gente”.
— Não fala besteira. — A voz dela endureceu. — Você tá com raiva. Eu entendo. Mas você não vai simplesmente jogar fora tudo o que a gente construiu.
— Tudo o que a gente construiu? — Ele soltou o pulso dela. — Você quer dizer a vida que você vem sabotando desde o primeiro dia? Que diabos eu era pra você?
— Gray...
— Eu quero você fora desta casa hoje à noite. — O tom dele não deixava espaço pra discussão. — Leva tudo o que for seu. Deixa a chave. — Ele ia trocar as fechaduras, mas pedir a chave deixava claro que não ia voltar atrás.
Os olhos de Morgan se arregalaram. A autoconfiança habitual sumiu do rosto dela. Ela tinha realmente acreditado que conseguiria fazê-lo mudar de ideia. O que surgiu no lugar foi pânico de verdade.
— Você tá falando sério.
Ele não tava nem aí.
— Muito.
— E eu vou pra onde?
— Não é mais problema meu. — Ele virou de costas pra ela e se serviu de outra dose. — Liga pra Tina.
O silêncio se esticou entre eles, pesado, quase palpável. Então a voz de Morgan, mais baixa agora, atravessou o espaço carregada de algo parecido com desespero.
— Eu não acredito que você tá fazendo isso, Grayson... Você me ama.
Grayson olhou por cima do ombro pra ela.
— Não, eu não tô apaixonado por você, Morgan... Eu tava apaixonado pelo papel que você interpretou. Tenho que admitir, você é uma atriz fantástica... Mas não era real. — O gelo tomou conta das palavras dele. — Faz as malas e cai fora. — Era o mesmo gelo que tava tomando o coração dele. Ele tinha mudado por ela, de um jeito que ela nunca ia entender. Mas acabou. Daqui pra frente, Grayson ia ser ele mesmo. Se nunca encontrasse a parceira certa pros desejos dele, paciência. A Emma ia ter filhos um dia, e ele podia transformar as crianças em herdeiros.
Ela abriu a boca pra argumentar mais, mas pareceu pensar melhor. Com um último olhar fulminante, saiu em disparada pro quarto.
Grayson desabou no sofá, de repente exausto. O uísque não conseguia apagar as bordas afiadas da traição, nem o vazio que se espalhava no peito dele. Ele tinha confiado nela. Acreditado no futuro dos dois.
Que puta piada.
Vinte minutos depois, Morgan apareceu arrastando uma mala branca, a maquiagem impecável apesar de tudo. Ela sempre se preocupou demais com aparência.
— Eu tô indo por enquanto — ela disse, parando perto da porta. — Quando você se acalmar, vai perceber o que tá jogando fora. Me liga e a gente conversa.
Grayson não respondeu, nem sequer olhou pra ela.
A porta se fechou atrás dela com um clique decisivo.
No silêncio repentino, ele pegou o celular e fez duas ligações. Primeiro, pro pessoal da segurança, mandando trocar as fechaduras. A outra, pra reativar a filiação dele no clube. A parte de si mesmo que ele tinha abandonado por causa de Morgan.
