Capítulo 3 Capítulo 3
Mesma noite Apartamento de Honey & Riley Quinta, dia 5 20h07
Honey se arrastou pelos últimos degraus até o apartamento, pasta em uma mão, marmita na outra. O dia tinha sido exaustivo; suas costas doíam de ficar curvada sobre planilhas por nove horas seguidas, e seus olhos ardiam de encarar projeções financeiras até os números começarem a se embaralhar.
Tudo para preparar a apresentação de Grayson Taylor em Boston. Ela não era do tipo que deixava as coisas para a última hora, mas só tinham mandado os números naquela manhã, o que deu pouquíssimo tempo para conferir tudo e entregar seu relatório detalhado para Grayson.
— O homem não é capaz nem de dizer “obrigado” — resmungou, tateando a fechadura com as chaves. Não que ela tivesse ficado por perto tempo suficiente para saber se ele diria. Assim que enviou os arquivos finalizados por e‑mail, disparou para fora do escritório antes que ele pudesse arranjar outra tarefa impossível para ela cumprir. Ela não achava que ele faria isso, mas simplesmente não quis arriscar.
O apartamento estava silencioso quando ela entrou… nenhuma surpresa aí. Riley tinha mandado mensagem mais cedo: Jantar com sócios hoje. Não me espere acordado. Tinham sido muitas noites longas ultimamente… jantares com clientes e pilhas de papelada para preparar para a reunião do dia seguinte.
Honey tirou os scarpins confortáveis com um chute, deixando-os onde caíram. O relógio na parede marcava 20h07. Ela suspirou, sabendo que devia estar grata pela noite tranquila que tinha pela frente. Só ela, comida tailandesa e, talvez, alguma TV bem idiota.
Ela tirou o blazer de trabalho… um modelo sem graça, largo demais, que ajudava a manter sua persona profissional de “Joy Smith”, e jogou a peça em cima do balcão da cozinha. Depois vieram os óculos de grau que ela não precisava, seguidos dos grampos que mantinham a peruca castanha de comprimento até os ombros, de alta qualidade, firme no lugar. A peruca tinha sido feita sob medida e era de primeira linha porque o pai dela a mataria se ela tingisse o cabelo ruivo natural.
Seu reflexo na janela chamou sua atenção. A transformação já tinha começado: Joy desaparecendo, Honey surgindo.
Ela foi para a sala só de meia, largou o saco da comida em cima da mesinha de centro e se jogou no sofá. Algo enfiado no fundo da almofada do sofá chamou sua atenção. Talvez porque era rosa‑choque.
— Mas que… — Honey se remexeu, enfiando a mão entre as almofadas até seus dedos esbarrarem em um tecido rendado. Ela puxou o objeto e ergueu no ar.
Uma calcinha fio-dental rosa‑choque balançava presa na ponta de seus dedos.
Honey ficou olhando para aquilo, a mente se recusando a processar o que via. A peça definitivamente não era dela… ela não usava nada remotamente daquela cor desde a faculdade. E com certeza não era algo que Riley usaria, a menos que ele tivesse resolvido virar crossdresser de um dia para o outro. Então não havia motivo nenhum para aquela miniatura de roupa íntima estar na casa deles.
Sobrava só uma possibilidade.
O estômago dela revirou. A comida tailandesa foi esquecida, e ela largou a calcinha como se tivesse se queimado. Por um momento, ficou completamente imóvel, e o silêncio do apartamento, antes tão acolhedor, de repente se tornou sufocante.
— Filho da mãe — sussurrou. — Meu marido está me traindo.
Ela devia ter desconfiado, claro. As noites até tarde e as viagens de negócios marcadas em cima da hora. Sem falar no cheiro de perfume nas roupas dele. Que ele sempre dava um jeito de explicar, dizendo que ela era paranoica. O jeito como mal tocava nela ultimamente. Não que ela achasse que isso era, honestamente, uma grande perda.
Mas suspeitar de uma traição era uma coisa. Segurar uma prova física na mão era outra completamente diferente.
Honey pegou o fio-dental de novo, se forçando a examiná-lo com mais cuidado. Pelo toque do tecido, era caro. O tamanho era extra pequeno. Uma risada subiu, presa na garganta.
Todas as vezes em que ela tinha se culpado por não ser empolgante o bastante, por estar focada demais no trabalho, por ter se deixado virar a mulher sem graça e sem sexo que Riley dizia que ela era. E o tempo todo, era ele quem estava traindo.
Ela devia estar arrasada. Devia estar chorando ou gritando. Em vez disso, uma estranha calma tomou conta dela. A traição de Riley não era uma surpresa — não se ela fosse honesta consigo mesma. Ela só não queria encarar. Não queria admitir que tinha cometido um erro ao casar com ele. Ter a prova de que realmente havia algo acontecendo dava a ela a permissão de que precisava para deixá-lo. Ela só precisava de uma prova incontestável para garantir o que era dela por direito.
Ela tinha sido virgem na noite de núpcias. Então, deixar o marido não seria fácil pra ela. Ela tinha feito votos, e levava esses votos muito a sério. Em muitos aspectos, agora ela queria ter dado uma “voltinha de teste” com ele antes do casamento. Talvez isso tivesse evitado tudo aquilo.
Honey pegou o celular, abriu o aplicativo da câmera e tirou várias fotos do fio-dental de ângulos diferentes, fazendo questão de registrar a peça contra o fundo da sala de estar deles. Depois foi até a cozinha e colocou a calcinha dentro de um saquinho zip lock antes de jogar dentro da bolsa. Pegou uma taça e uma garrafa de vinho tinto e voltou pra sala; ali, abriu o vinho. Bem, descobrir a traição do marido já era motivo suficiente pra encher a cara, se nada mais.
Serviu uma taça generosa e se acomodou de novo no sofá, evitando o lugar onde tinha encontrado o fio-dental, e finalmente abriu a comida do delivery. Enquanto comia o pad thai direto da embalagem, foi rolando a tela do celular até encontrar o contato que procurava: Ben Walters, o detetive particular que o pai dela usava para assuntos corporativos.
Honey: Preciso dos seus serviços para um assunto pessoal. Discrição essencial. Consegue se encontrar comigo amanhã?
Ela apertou enviar e largou o celular de lado. Nada de choro. Nada de ligações desesperadas pras amigas. Nada de confronto com o Riley quando ele finalmente tropeçasse de volta pra casa, mentindo, negando tudo e fazendo gaslighting com ela. Ele era muito bom nisso. Em botar a culpa nela. Não, ela ia jogar com inteligência.
Ele era mesmo um idiota, ou então tão convencido de si que achou que nunca seria pego.
O celular vibrou com a resposta do Ben:
Ben: Oi, Honey. Tenho horário às 11h30. Meu escritório ou o seu?
Honey tomou mais um gole de vinho.
Honey: O seu. Eu vou até aí. Obrigada.
Ela pousou o celular e se recostou nas almofadas. Há meses… não, anos, na verdade, ela vinha levando uma vida infeliz. E pra quê? Por um homem que não conseguia manter o pau dentro das calças.
O fio-dental rosa não era só prova da traição do Riley. Era uma autorização pra parar de fingir. Pra seguir com a própria vida.
O celular vibrou de novo; ao pegar, ela viu uma mensagem do Riley: Jantar se estendendo. Vou dormir na casa do Paul hoje. Bebi demais.
Uma nova onda de raiva tomou conta dela. Ela conhecia o Paul. O “amiguinho” da faculdade de Direito que morava num apartamento de solteiro, moderno, no centro. O álibi perfeito. Quantas vezes o Riley já tinha usado essa desculpa? Quantas vezes o Paul tinha coberto pra ele? Farinha do mesmo saco.
Ela nem se deu ao trabalho de responder, ele podia ver que ela tinha lido. Em vez disso, terminou a taça de vinho e se serviu de outra.
Três anos de casamento. Três anos sendo infeliz, fingindo ser alguém que não era, tolerando o comportamento cada vez mais controlador do Riley. Três anos sem orgasmos.
Esse último pensamento a fez soltar um riso pelo nariz dentro da taça. Riley tinha convencido Honey de que ela era frígida, que a incapacidade de chegar ao orgasmo com ele era problema dela, não dele. Mais uma mentira num casamento construído em cima delas. Porque ela ficava mais molhada com as próprias fantasias e dedos do que o Riley jamais tinha conseguido deixá-la.
Honey pegou o notebook na pasta de trabalho e abriu um novo documento. Se ia mesmo fazer aquilo — contratar o Ben, o detetive do pai, juntar provas, divorciar-se do Riley — precisava ser metódica. Isso, afinal, era o que ela sabia fazer. Enxergar padrões em números era a praia dela.
Ela começou a digitar, montando uma linha do tempo de acontecimentos suspeitos nos últimos meses. Noites em que ele chegava tarde. Gastos inexplicáveis na fatura do cartão de crédito. A jovem faxineira que o Riley tinha insistido em contratar, apesar das objeções dela.
A faxineira. Dezenove anos. Animadinha, loira e sempre rodopiando pela casa, Honey tinha descartado o incômodo que sentia como ciúme bobo. Brittany caberia naquela calcinha com muita facilidade. Mas ela não era faxineira que dormia no trabalho, então não havia motivo algum para aquela peça estar ali.
“Idiota do caralho”, murmurou, virando mais um gole de vinho, antes de erguer a taça num brinde.
“Obrigada, seja lá quem você for”, sussurrou para a dona ausente do fio-dental rosa. “Você acabou de me libertar.”
