Capítulo 4 Capítulo 4
Sexta-feira, 6 de outubro 6h45
Honey acordou na manhã seguinte com uma dor de cabeça latejante e a boca como se tivesse passado a noite mastigando algodão. A garrafa de vinho vazia em cima da mesinha de centro explicava o motivo. Ela gemeu, empurrando o próprio corpo para se levantar do sofá onde tinha acabado dormindo, ainda com a roupa de trabalho do dia anterior.
Ela tinha tomado a garrafa inteira. Uma coisa em que ela não ia deixar o Riley transformá-la era numa alcoólatra. Ela ia ficar melhor sem ele. Um grande sinal de que eles não deviam estar juntos foi que, quando ela descobriu a traição, a única coisa que sentiu foi alívio, não coração partido.
Mas que idiota arrogante ele tinha sido de achar que ela ia continuar com ele… ou será que ele achava que conseguia controlá-la o suficiente para ela não usar o acordo pré-nupcial? Ele não ia receber nada, e agora ela tinha as provas de que precisava para garantir isso.
O notebook dela estava aberto ao lado. Puxando-o para perto, Honey olhou até onde tinha ido na noite anterior. O documento que ela criara agora se estendia por várias páginas de incidentes meticulosamente datados. Mesmo bêbada, ela tinha sido minuciosa. Era ao mesmo tempo impressionante e deprimente. Suspirando, ela salvou o arquivo e fechou o notebook.
Esfregando a mão nos olhos antes de olhar em volta, ela viu o sol da manhã entrando pelas janelas da sala, forte e implacável. Honey deu uma olhada no celular para ver as horas: 6h45. Ela tinha bastante tempo antes de precisar estar no trabalho, mas precisava se recompor.
Cambaleando até o banheiro, evitou encarar o próprio reflexo no espelho enquanto tirava a roupa do dia anterior. Sob o jato quente do chuveiro, a mente dela clareou o suficiente para montar um plano para o dia. Encontrar o detetive particular, juntar provas, entrar em contato com um advogado de divórcio, e cuidar de mais algumas coisas que precisava organizar. Mas o mais importante era agir normalmente no trabalho.
Ninguém na Taylor Industries podia saber o que estava acontecendo na vida pessoal dela. Principalmente Grayson Taylor, que sem a menor dúvida usaria qualquer sinal de fraqueza contra ela na próxima batalha na sala de reunião.
Depois de se secar, ela prendeu o cabelo ruivo num coque bem apertado na altura da nuca, antes de colocar a peruca castanha no lugar. Passou uma maquiagem mínima, só o suficiente para esconder os efeitos do vinho da noite anterior, depois pôs os óculos — com lentes transparentes — que ajudavam a completar a transformação em Joy Smith, diretora financeira.
Ela escolheu um tailleur marrom discreto, dois números maior e completamente sem forma. Aquele tipo de roupa que fazia as pessoas subestimarem. Sempre tinha funcionado bem para ela. Não era tão feio quanto alguns dos outros conjuntos que usava, mas ninguém se dava ao trabalho de olhar além do cabelo sem graça e dos óculos. Tudo isso era para que ela conseguisse construir um nome próprio, sem pegar carona na influência do pai. Ela não era filhinha de papai encostada em nepotismo.
Enquanto juntava suas coisas, o celular vibrou com uma mensagem do Riley: Indo pra casa tomar banho e trocar de roupa. Sei que você já deve estar a caminho do trabalho. Te vejo hoje à noite, Baby.
O maxilar de Honey enrijeceu. Então ele tinha passado a noite com a amante e agora esperava entrar em casa como se nada tivesse acontecido. Mal sabia ele que ela estava trabalhando nos bastidores para colocar o traseiro dele na rua.
Ela digitou de volta: No trabalho o dia todo. Depois jantar com a Lauren e a Maggie hoje à noite. Uma mentira, mas ela não suportava vê-lo, ainda não. Não até que seu plano estivesse bem firme.
Ela foi para o escritório e começou a trabalhar. Mas estava sempre de olho no relógio, contando os minutos até ver o Ben. Entre uma tarefa e outra, fez duas ligações: uma para o consultório da médica, marcando exames de sangue para ter certeza de que o marido infiel não tinha passado para ela nada mortal. Se tivesse, ela talvez realmente matasse o desgraçado. A outra ligação foi para uma loja de eletrônicos que, depois de receber o pagamento, entregaria o pedido ainda naquela tarde no escritório.
Às 11h25, Honey estava sentada na sala de espera do escritório de Ben Walters, num prédio discreto no Midtown. O espaço era deliberadamente sem graça, com paredes bege, quadros genéricos, móveis confortáveis, porém totalmente esquecíveis. Nada ali sugeria o que havia por trás daquelas paredes.
— Sra. Smith? — Uma recepcionista apareceu. — O sr. Walters vai atendê-la agora.
Honey a seguiu por um corredor curto até uma sala de canto, onde Ben Walters se levantou de trás da mesa para cumprimentá-la. Na casa dos cinquenta anos, com cabelo grisalho nas têmporas e o físico de um ex-policial que ainda se mantinha em forma, ele tinha aquele tipo de rosto que se misturava à multidão… perfeito para a profissão dele.
Ben, sempre profissional, não comentou nada sobre a roupa dela.
— Honey, faz tempo — ele disse, indicando uma cadeira. — Seu pai comentou que você tinha se casado.
— Casei. Há três anos. — Honey se sentou, colocando a bolsa no colo. — E é justamente esse casamento o motivo de eu precisar falar com você hoje.
Ben assentiu, recostando-se na cadeira.
— Imaginei. Questões pessoais geralmente envolvem casamentos… o começo ou o fim deles.
Honey abriu o zíper da bolsa e tirou o saquinho plástico com a calcinha fio-dental rosa. Colocou-o sobre a mesa dele.
— Encontrei isso nas almofadas do meu sofá ontem à noite. Não é meu.
Ben não sequer piscou. Provavelmente já tinha visto coisas bem piores na sua área.
— Seu marido é…?
— Riley Smith. Ele é advogado corporativo na Matthews & Booth. — Ela entregou uma folha impressa com as informações de Riley, os endereços do escritório e da academia que ele frequentava. — Eu preciso de provas irrefutáveis da traição dele. Fotos, vídeo, se possível. O suficiente pra sustentar a cláusula de infidelidade do nosso acordo pré-nupcial.
Ben analisou as informações.
— Alguma ideia de com quem ele pode estar envolvido?
— Eu desconfio da nossa empregada, Brittany Davis. Dezenove anos. Trabalha às segundas, quartas e sextas, das nove às três. — Honey tirou outra folha da bolsa. — Os dados dela estão aqui, junto com uma lista das noites em que o Riley disse que ia trabalhar até tarde ou dormir no apartamento de um amigo; os dados desse amigo também estão na folha.
As sobrancelhas de Ben se ergueram levemente diante de tanta minúcia.
— Você já fez metade do meu trabalho.
— Eu gosto de estar preparada pra qualquer coisa.
— Estou vendo. — Ele se inclinou para a frente. — Qual é o seu prazo pra isso?
Honey pensou por um momento.
— Eu preciso garantir minha situação financeira antes de tomar qualquer atitude. As provas primeiro, depois eu vou consultar um advogado de divórcio. Câmeras escondidas com sensor de movimento vão ser entregues no meu escritório hoje à tarde. Eu mesma posso instalá-las.
— Nem vou te insultar falando de dinheiro — disse Ben. — Dado o tipo de caso, eu diria no máximo duas semanas de vigilância até termos o que você precisa. Se ele for cuidadoso, pode demorar mais.
— Isso é aceitável. — Honey assentiu. — Quero relatórios diários. E, em troca, vou te enviar qualquer coisa que eu descobrir.
Honey não achava que fosse demorar tanto. Riley era convencido e achava que tinha controle total sobre ela.
— Claro. — Ben rabiscou algumas anotações. — Mais uma coisa… você quer saber detalhes além do que é necessário pro pré-nupcial? Alguns clientes preferem saber de tudo, outros só querem o básico.
A pergunta a pegou de surpresa. Será que ela queria saber se Riley sussurrava as mesmas palavras para aquela garota que um dia tinha dito pra ela quando eles namoravam e no começo do casamento? Honey achava que isso não a deixaria arrasada, só machucaria um pouco o orgulho por ter sido tola em confiar nele.
— Só o que for necessário do ponto de vista legal — decidiu. — Não preciso saber todos os detalhes.
Ben assentiu, com compreensão no olhar.
— Eu começo hoje mesmo.
— Me manda uma fatura que eu faço uma transferência do adiantamento ainda hoje à tarde. — Honey se levantou, estendendo a mão. — Obrigada pela discrição.
— Sempre. — Ele apertou a mão dela com firmeza. — Sinto muito que você esteja passando por isso, senhora Smith.
— Logo vai ser senhorita Johnson de novo, e não precisa sentir — disse Honey, surpresa ao perceber que falava sério. — Esse casamento acabou faz muito tempo. Eu só precisava de um motivo pra admitir isso pra mim mesma. Posso te pedir pra não contar nada pro meu pai? Eu conto quando chegar a hora.
De volta ao carro, Honey olhou o relógio. Tinha tempo de almoçar antes de ir pro escritório. O celular vibrou com a notificação de um e-mail. Grayson Taylor, assunto: URGENTE: Revisões do negócio de Boston.
Ela soltou um suspiro e abriu a mensagem.
Smith,
a apresentação de Boston precisa ser refeita. Novos parâmetros em anexo. Preciso dos slides prontos até às 16h de hoje pra minha segunda reunião com eles às 16h30.
GT
Sem “por favor”, sem “obrigado”. Só exigências, como sempre. O que tornava tudo pior era o fato de ela ter passado o dia inteiro de ontem preparando aqueles slides exatamente do jeito que ele queria.
— Filho da mãe, Taylor — ela resmungou, ligando o carro.
Comer ia ter que esperar. De novo. Ela só ia pegar um lanche na copa do escritório.
