Capítulo 5 Capítulo 5
Quando Honey chegou ao escritório na Taylor Industries, sua máscara profissional já estava firmemente no lugar. Joy Smith, simples, confiável e completamente esquecível, acenou com a cabeça para o segurança e pegou o elevador para o andar da diretoria.
Sua assistente, Marjorie, a recebeu com uma expressão preocupada.
— O senhor Taylor está atrás de você. Já perguntou por você três vezes na última hora.
— Eu tinha uma consulta médica — Honey mentiu com naturalidade. Na verdade, tinha mesmo uma depois do expediente naquele fim de tarde, então nem era exatamente mentira. — A apresentação de Boston, eu sei que ele acabou me mandando um e-mail.
— Ele fez mudanças significativas na proposta. A equipe está esperando na sala de reuniões para uma videoconferência com ele, pra revisar tudo.
Honey assentiu, caminhando a passos firmes em direção à própria sala para largar as coisas.
— Diz pra eles que eu chego em alguns minutos.
Seu escritório era o reflexo de Joy Smith… prático, organizado, sem toques pessoais, exceto por uma única foto emoldurada do pai dela em uma pescaria, óculos escuros e chapéu escondendo o rosto. Mas nenhuma foto de Riley.
Ela respirou fundo e endireitou os ombros. Aquele era o domínio dela. Ali, ela estava no controle, ao contrário da bagunça que era sua vida pessoal naquele momento.
Quando entrou na sala de reuniões, seis pares de olhos se voltaram para ela. Na parede, atrás da cabeceira da mesa, estava Grayson Taylor na tela grande da TV, de terno grafite, expressão impaciente.
— Que gentileza sua aparecer, Smith — ele comentou, arrastando levemente as palavras. — A gente só está esperando há quarenta minutos.
Ele parecia mal-humorado, mas Honey não mordeu a isca.
— Eu tinha uma consulta médica, senhor Taylor. Uma que foi marcada semanas atrás. Todos nós temos direito a horário de almoço, como o senhor bem sabe. É a lei.
— Mais importante do que o contrato de Boston?
— A minha saúde? — Ela sustentou o olhar dele, fria. — Sim, na verdade. Se eu tivesse tido mais aviso, estaria aqui.
Algo passou pelo olhar dele… surpresa, talvez, por ela ter rebatido em algo que não estava diretamente ligado ao trabalho. Ótimo. Que ele se surpreendesse. Hoje era dia de mudanças. Ela não ia mais engolir merda de ninguém, incluindo ele.
— Muito bem, já que você resolveu nos agraciar com a sua presença… — ele fez um gesto para a sala que via na tela — a gente precisa revisar a proposta inteira. Eles agora querem uma estratégia de crescimento mais agressiva e estão pedindo mais dinheiro.
Honey sentou-se, ligando o tablet.
— A estratégia que eles apresentaram já estava no limite máximo do que a infraestrutura atual consegue suportar. — Ela conseguia ver o que os Norton estavam fazendo. Queriam o valor mais alto possível pelo negócio. Mesmo depois de ela ter provado que ele não valia o preço pedido.
— Eles conseguiram financiamento adicional. Querem acelerar o cronograma.
— Em quanto? — Eles queriam mais dinheiro, mas aumentaram o risco pegando financiamento. Era o pior pesadelo de qualquer diretora financeira.
— Cinquenta por cento.
Honey não conseguiu esconder o choque.
— Isso não é acelerar, senhor Taylor. Isso é irresponsabilidade.
A sala ficou em silêncio. Ninguém contrariava Grayson Taylor, muito menos na frente dos outros.
O maxilar dele enrijeceu.
— Os Norton discordam. E eu também.
— Então, com todo o respeito, tanto o senhor quanto os Norton estão precisando de um choque de realidade. — Ela puxou as projeções originais no tablet. — Esses números não mentem. Acelerar cinquenta por cento, sem investimentos correspondentes em infraestrutura, vai fazer a cadeia de suprimentos deles colapsar até o terceiro trimestre.
Grayson se inclinou para a frente, a voz perigosamente baixa.
— Você está me chamando de irresponsável, Smith?
— Estou chamando a proposta de irresponsável — ela corrigiu. — Meu trabalho é avisar quando os números não fecham, não carimbar decisão ruim só pra deixar o senhor feliz. Eu não sou bajuladora… nem bajulador.
A tensão na sala era tão densa que parecia que Grayson estava ali de corpo presente. Os outros executivos se remexeram, desconfortáveis, evitando cruzar o olhar com ela. Bando de covardes.
Por um longo momento, Grayson não disse nada e, pela expressão, Honey achou que ele fosse explodir. Então, de forma inesperada, os lábios dele se curvaram em algo que quase parecia um sorriso.
— Me mostra — ele disse.
Honey piscou.
— Como é?
— Me mostra por que não vai funcionar. Me convença. Vai me explicando.
Ela hesitou só por um instante antes de compartilhar a tela com todos na sala e com Grayson, à distância. Pelos vinte minutos seguintes, ela detalhou as vulnerabilidades da cadeia de suprimentos, as implicações no fluxo de caixa, os riscos de mercado. Não segurou nada, não suavizou a avaliação para poupar o ego dele. Ele estava errado, e ela fazia questão de mostrar.
Quando terminou, Grayson a observava com uma intensidade que a deixou desconfortável. Não era raiva, como ela esperava, mas outra coisa completamente diferente.
— Todo mundo fora — ele disse de repente. — Exceto a Smith.
A sala esvaziou rápido; ninguém queria estar presente para ver o que viria a seguir. Quando a porta se fechou atrás da última pessoa, Honey se preparou para a explosão. Será que ele ia demiti-la?
Mas a explosão não veio. Em vez disso, ela ficou olhando para a tela da TV enquanto Grayson se recostava na cadeira, estudando-a.
— Você nunca falou comigo desse jeito antes. Digo, a gente já discordou em reuniões antes. Eu sei. Mas isso aí foi quase um ataque pessoal.
Honey sustentou o olhar dele, firme.
— Você nunca propôs nada tão financeiramente irresponsável antes. Quero dizer, você assume riscos e eu nem sempre concordei, mas isso aqui pode ser potencialmente perigoso para a empresa.
— E se eu ignorar as suas objeções?
— Então vou registrar minhas preocupações por escrito, como é meu dever fiduciário com os acionistas. — Ela juntou o tablet, se preparando para sair.
— Smith, nós ainda vamos comprar essa empresa.
— Você ainda vai comprar? Você enlouqueceu? — Ela percebeu que estava falando alto. O homem podia ser lindo, mas tinha um complexo de deus.
Grayson ergueu uma sobrancelha antes de assentir.
— Sim, eu ainda vou fazer uma oferta. Mas, com as informações que você me deu, a oferta vai ser reduzida em 20%.
Honey encarou-o, a descrença brigando com uma admiração relutante.
— Por que me contratar se você vai fazer o que bem entende de qualquer jeito? — O calor subiu às bochechas dela.
A expressão de Grayson continuou irritantemente neutra.
— Para me manter honesto — respondeu por fim, com a voz controlada. — Para me obrigar a justificar minhas decisões, especialmente quando estou prestes a fazer algo... pouco convencional.
Honey ficou olhando para ele, tentando decidir se ele estava zombando dela. Aquele homem era exasperante. Num momento parecia valorizar a experiência dela, no seguinte passava por cima das objeções como um trator.
— Então você quer que eu diga quando estiver cometendo um erro, mas vai fazer mesmo assim?
— Quero que você me dê todas as informações. A decisão final é minha. — Os olhos dele se estreitaram levemente. — É assim que funciona, Smith. Eu assumo os riscos; você fornece os limites.
— Isso não são limites. São avisos de um penhasco no qual você parece determinado a se jogar de carro.
Uma risada curta e inesperada escapou dele.
— Deus, ele era… irritante.
— É uma descrição precisa. — Honey se manteve firme, abraçando o tablet contra o peito como se fosse um escudo. — Essa aquisição, pelo preço que eles estão pedindo, é suicídio financeiro, mesmo com a redução de vinte por cento.
— Talvez. Mas tem algo na operação dos Nortons que você está deixando passar. — Grayson digitou algo no teclado, e um novo documento apareceu na caixa de entrada dela. — O departamento de P&D deles desenvolveu um processo de fabricação proprietário que vai reduzir os custos de produção em trinta e cinco por cento quando for implementado, permitindo que a gente invista mais dinheiro na cadeia de suprimentos.
Honey passou os olhos rapidamente pelo documento, a mente financeira recalculando as projeções automaticamente.
— Isso não constava nas informações que me passaram.
— Porque eles não sabem o que têm nas mãos. Os departamentos deles não parecem se comunicar muito bem. — Os olhos de Grayson brilharam com a satisfação predatória que ela já tinha visto sempre que ele superava um concorrente. — A equipe técnica me contou durante uma visita à fábrica hoje de manhã.
— Por que essa informação não foi apresentada para a gente na reunião?
— Porque eu não quero que o resto da equipe saiba disso ainda. Vazamentos acontecem.
A contragosto, Honey teve que admitir que isso mudava a equação.
— Ainda assim, o cronograma...
— Vai ser ajustado com base na sua análise. Dezoito a vinte meses, em vez de doze. — Ele entrelaçou as mãos sobre a mesa. — Você fez o seu trabalho, Smith. Você me obrigou a justificar a minha decisão com dados de verdade. É por isso que eu a emprego.
Ela se sentiu estranhamente esvaziada. Ele tinha estado dez passos à frente dela o tempo todo.
— Ainda queria que você tivesse compartilhado essa informação desde o começo.
— E perder a chance de ver você destruir a minha proposta com essa precisão cirúrgica sua? Onde estaria a graça nisso?
O comentário a pegou desprevenida. Grayson Taylor estava realmente... se divertindo com aquele confronto? Deus, ele era… irritante.
— Fico feliz que o meu desmembramento profissional da sua estratégia de negócios sirva de entretenimento, senhor Taylor. — Ela não conseguiu tirar o tom cortante da voz. — Da próxima vez, talvez poupe o tempo de nós dois e apresente todos os fatos relevantes logo de cara. Você podia ter enviado os arquivos para o meu e-mail e dito que não queria que todo mundo soubesse.
— Onde estaria a graça nisso? — Os olhos dele brilharam com algo que podia ser respeito. — Quero a apresentação revisada na minha mesa até às quatro. E, Smith?
— Sim?
— Bom trabalho hoje. — Ele encerrou a chamada antes que ela pudesse responder.
Honey ficou ali, encarando a tela em branco. Grayson Taylor tinha acabado de elogiá-la? O mesmo homem que vinha diminuindo a abordagem financeira conservadora dela há dezoito meses?
Ela balançou a cabeça e juntou suas coisas. Não tinha tempo para analisar o comportamento estranho do chefe, não com o prazo da apresentação se aproximando. Ela ainda acrescentaria suas opiniões na apresentação, para que, se tudo desse errado, os acionistas soubessem que ela tinha sido contra.
