Capítulo 2 Lorena

O Hospital Municipal de Porto Negro não era um lugar de cura, era a antecâmara do inferno, um purgatório de azulejos encardidos que suavam uma umidade doentia. O ar ali dentro era uma massa sólida, um coquetel asfixiante de iodo, urina seca e aquele hálito metálico de sangue que parecia brotar das rachaduras do chão. Para mim, Lorena Vaz, cada respiração naquele corredor lotado era um ato de profanação. Eu tinha apenas dezenove anos, a idade em que a vida deveria ser uma promessa, mas a minha juventude tinha sido enterrada sob os sermões de ódio e as chicotadas morais do meu pai, o Pastor Silas.

As contrações vinham como marretadas de um carrasco invisível, partindo minha espinha ao meio. Era uma dor visceral que me fazia querer arrancar a própria carne com as unhas para escapar do que vinha de dentro. Eu não estava em uma sala de parto com luz suave e médicos atenciosos; eu estava jogada em uma maca de metal enferrujado, encostada num canto de corredor imundo, enquanto enfermeiras com rostos de pedra passavam por mim como se eu fosse um pedaço de descarte. O mundo era um borrão de dor e descaso absoluto.

Minha mente, em meio aos espasmos de agonia, não parava de projetar o filme de terror daquela manhã. O momento em que o cordão umbilical com o meu passado foi cortado no seco. Quando minha bolsa estourou na cozinha, inundando o chão frio, Silas nem sequer largou a Bíblia. Ele ficou parado na porta, a luz da sala projetando sua sombra como a de um gigante implacável sobre o meu corpo dobrado. Ele não era um pai; era um juiz diante de uma ré condenada ao fogo eterno.

— O salário do pecado é a morte, Lorena — ele trovejou, a voz seca, desprovida de qualquer rastro de misericórdia. — Se você quer parir essa abominação, essa prova da sua luxúria e da sua desonra, que o faça longe dos meus olhos. Não espere que eu suje minha casa com a sua imundície. Você morreu para mim no momento em que deixou esse bastardo crescer no seu ventre.

Ele me deixou lá, caída entre as poças de líquido amniótico e lágrimas. Eu tive que me arrastar até a rua, sentindo a lama entrar sob minhas unhas, implorar por uma carona que nunca veio sob os olhares tortos dos vizinhos "fiéis". Caminhei sob a chuva fina e cortante, berrando de dor contra os muros pichados da vizinhança, segurando a barriga como se tentasse impedir que o meu mundo despencasse pelo asfalto. Quando cheguei ao hospital, eu era apenas uma menina pálida, com a farda do coral da igreja manchada de fluido, sangue e secreção.

— Mais uma dessas solteiras que não sabem o que fazem da vida — ouvi o sussurro asqueroso de uma técnica enquanto me jogava na maca. — Se tivesse rezado mais e pecado menos, não estaria aqui sozinha feito bicho.

Eu queria gritar que eu tinha um nome! Que eu era Lorena! Mas o silêncio de anos vivendo sob o jugo de Silas tinha atrofiado minha voz. Eu apenas cravava as unhas no metal da maca, sentindo o frio do aço contra a minha pele suada. Eu estava no epicentro de um terremoto, e não havia ninguém para segurar minha mão.

As horas foram um ciclo interminável de agonia. Não houve anestesia, não houve carinho, apenas o sarcasmo da médica de plantão, que me olhava como se eu fosse um pedaço de carne barata.

— Para de escândalo, garota! Na hora de fazer você não gritou assim, né? Agora aguenta o tranco! — ela disparou, preparando os instrumentos que brilhavam sob a luz fluorescente que oscilava no teto, ameaçando apagar.

Eu fechei os olhos, desejando a escuridão. Senti que meu corpo estava sendo rasgado ao meio, como um sacrifício oferecido num altar de indiferença. Mas, no auge da dor, quando meus pulmões pareciam prestes a estourar, uma fúria visceral explodiu de dentro de mim. Dei o último empurrão, um esforço que consumiu cada gota de sangue que me restava. E então, o som rompeu a frieza daquela tumba.

Um choro agudo. Um grito de resistência.

Quando colocaram aquele pequeno ser nos meus braços, as paredes sujas se dissolveram. Ele era pequeno, frágil, mas carregava uma força que me deixou sem ar. Tinha fios de cabelo ruivos, um fogo vivo que contrastava violentamente com a palidez mórbida da minha pele. Era como se uma brasa tivesse sido acesa no meio da neve.

— Samuel — eu sussurrei, a voz saindo rouca, como se tivesse passado por um moedor de carne. Ele tinha o rosto salpicado por pequenas sardas, uma marca de beleza num mundo que só tinha me oferecido feiura. Naquele momento, eu soube: eu nunca mais estaria sozinha.

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