Capítulo 3 Parte 2

O peso do mundo pareceu desaparecer por um breve segundo quando senti algo úmido e quente na minha bochecha. Acordei devagar, o corpo pesado pelo cansaço de meses calculando cada centavo, de noites mal dormidas e dias engolindo sapos para garantir o pão. Mas o som daquela risadinha era o único despertador que meu coração aceitava.

— Mamãe... acorda, mamãe! A senhora não vai me levar pra creche? Hoje tem desenho de dragão! — Samuel estava pulando na beira da cama, os olhos brilhando com uma energia inesgotável.

Abri os olhos e encarei minha obra-prima. Samuel era uma pequena chama viva na penumbra do nosso quartinho úmido. Ele era o meu furacão e a razão de cada batida do meu peito. Ajeitei-me na cama e fiz o inventário da nossa vida: as paredes precisavam de pintura para esconder o mofo, o guarda-roupa tinha uma porta emperrada que eu precisava chutar para fechar. Mas era o nosso refúgio. Graças a muita sola de sapato gasta, consegui uma vaga na creche de tempo integral. Aquela vaga era o meu passaporte para a sobrevivência; enquanto ele estivesse lá, eu teria o dia inteiro para revirar Porto Negro atrás de qualquer serviço. Faxina, lavagem de pratos, carregar caixa... eu não tinha o luxo de escolher. Minha dignidade não se media pelo trabalho, mas pela comida no prato do meu filho.

Não é fácil ser mãe solo numa cidade que respira preconceito. O mundo olha para você com um julgamento cortante. As empresas fecham as portas assim que descobrem que não tenho "apoio paterno".

"Quem cuida dele se ele ficar doente?", "Onde está o pai?". As perguntas são sempre as mesmas, dardos disparados por quem nunca teve que escolher entre um litro de leite e a passagem de ônibus.

— Mamãe, olha! Eu já coloquei a meia sozinho! — ele gritou, orgulhoso, mostrando uma meia azul e outra listrada.

Sorri, sentindo um nó na garganta. Samuel não sabia o que era geladeira cheia de iogurte ou brinquedos caros, mas ele transbordava amor. E era por esse amor que eu engolia o orgulho todos os dias. Saímos do quarto e o ar mudou. O calor do abraço foi substituído pelo gelo da sala. Passamos sob o olhar vigilante do Pastor Silas. Ele continuava o mesmo: uma estátua de retidão por fora, um poço de amargura por dentro. Ele não falava com o neto. Para ele, Samuel era invisível, um "erro" que caminhava pela casa.

Ele só nos tolerava ali porque eu fazia todo o serviço doméstico — lavava, passava e esfregava o chão até minhas mãos sangrarem — e porque eu tinha prometido que pagaria cada centavo assim que tivesse um emprego fixo. Caminhei com Samuel até a creche, segurando sua mão pequena e firme.

— Tchau, mamãe! Te amo muito! Cuidado com os carros! — ele me deu um beijo e correu para dentro, a mochila com o zíper quebrado balançando nas costas.

Fiquei ali parada, observando-o sumir. Respirei fundo e ajeitei minha única blusa social. Eu tinha uma entrevista hoje. Não era o emprego dos sonhos, mas era a chance de mudar nosso destino.

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