Capítulo 5 Segunda chance

Subi as escadas em um ritmo frenético. O prédio cheirava a café queimado, desinfetante barato e papel velho. No terceiro andar, a fila era composta por homens de braços tatuados e semblantes rudes, além de algumas mulheres que, como eu, pareciam estar fugindo de uma tempestade pior do que a que encontrariam ali.

Quando fui chamada, entrei em uma sala funcional e fria. A Dra. Helena, coordenadora de seleção, era uma mulher de cabelos loiros presos em um coque tão rígido que parecia doloroso. Ela não levantou os olhos dos formulários enquanto eu entregava meus documentos com as mãos levemente úmidas.

— Lorena Vaz... — ela leu, e então parou. Seus olhos se cravaram nos meus, analisando cada poro. — Filha do Pastor Silas Vaz? O "Martelo de Porto Negro"? Aquele que diz que criminoso bom é criminoso morto no altar todo domingo?

— Sim, senhora. Mas meu pai não tem nada a ver com a minha vinda aqui. Eu não sou a extensão dele — respondi rapidamente, a voz cortante.

— O que uma moça criada no altar quer no meio dos piores monstros do estado? Você sabe que lá dentro ninguém se importa com quem é seu pai ou com a sua religião, não sabe? Lá o diabo cospe na cara de quem chega com a Bíblia debaixo do braço.

— Eu quero o salário, senhora. Quero o plano de saúde para o meu filho e a chance de nunca mais ter que sofrer assédio de patrãozinho rico que acha que pode me comprar. Eu quero a minha independência, e se o preço for vigiar o inferno e lidar com monstros, eu aceito o contrato. Pelo menos os monstros da cadeia usam uniforme de preso, os daqui de fora usam terno.

Helena deu um sorriso de canto, quase imperceptível. Ela parecia gostar do que ouvia.

— O processo é brutal por ser emergencial. A última rebelião na Penitenciária de Segurança Máxima — a famosa "Gaiola do Medo" — deixou o quadro de funcionários defasado. Pulamos a burocracia longa. Você vai preencher essa ficha, passar pelo teste psicológico agora e, se for aprovada, o treinamento intensivo de sobrevivência começa amanhã. Três dias de pressão psicológica e na segunda-feira você já assume o posto na Ala M.

— Ala M? O que significa?

— O Isolamento. Onde ficam os que o mundo esqueceu porque tem medo até de pronunciar o nome. É o setor mais perigoso, mas é o que paga o adicional máximo. Quarenta por cento de periculosidade, vale-alimentação e convênio integral para seus dependentes. O primeiro depósito cai em quinze dias. Você aguenta quinze dias, Lorena?

Quinze dias. Esse era o tempo que me separava de dar uma vida de verdade para o Samuel. Peguei a caneta e, no campo de "dependentes", escrevi o nome do meu filho com uma firmeza que eu nunca tivera antes. Cada letra era uma promessa de liberdade.

As horas seguintes foram um borrão de testes de lógica, psicotécnicos e uma entrevista com um psicólogo que tentou de todas as formas me desestabilizar, perguntando sobre minha relação com Silas e sobre o "abandono" do pai do meu filho. Eu respondi tudo com uma frieza glacial, a mesma máscara que eu usava para sobreviver aos almoços de domingo na casa do pastor. Eu não era mais a menina do coral. Eu estava me transformando em algo novo, uma arma forjada no desespero.

Ao entardecer, Helena saiu da sala com um envelope pardo.

— Parabéns, Lorena. Você foi aprovada. Seu perfil é exatamente o que a diretoria busca: técnica, contida e com um motivador pessoal inabalável. Quem tem um filho para sustentar não brinca em serviço e não se vende fácil. Esteja na Escola de Serviços Penais amanhã, às seis em ponto. Roupa preta, bota fechada e sem adornos. A partir de agora, você é a Agente Vaz. Bem-vinda ao sistema.

Saí do prédio sentindo o vento frio da noite de Porto Negro. O céu estava tingido de um roxo profundo, a cor de um hematoma que está começando a sarar. Peguei o ônibus e, pela primeira vez em anos, eu não estava olhando para o chão com vergonha. Eu olhava para o meu reflexo no vidro sujo e não via mais a vítima do abandono ou a pecadora do Silas. Eu via uma sobrevivente.

Cheguei na creche no último minuto, com o coração batendo forte. Samuel correu para mim, o cheirinho de giz de cera e leite morno me fazendo querer chorar de alívio. Eu o peguei no colo, sentindo o peso do meu mundo em meus braços.

— A mamãe conseguiu, meu amor. A gente vai sair daquela casa. Você vai ter tudo — sussurrei no ouvidinho dele, enquanto ele me apertava.

— Você vai ser super-heroína, mamãe? Igual no desenho do dragão? — ele perguntou, os olhinhos brilhando de expectativa.

— Não, meu furacão. A mamãe vai ser soldado. A mamãe vai ser a pessoa que mantém os monstros bem trancados para que nenhum deles chegue perto de você. Eu vou ser o seu escudo.

Naquela noite, sob o teto de Silas, eu não comi. Apenas arrumei minha mochila com o pouco que tinha. Silas passou pela porta do meu quarto, parou e me olhou com seu habitual desdém, o cheiro de mofo e velhice emanando de suas roupas.

— Conseguiu o emprego de servente, Lorena? Espero que saiba que o dízimo da casa é sagrado e que o teto onde você dorme custa caro para o meu ministério.

— Consegui um emprego no Estado, pai. No Sistema Prisional. Não se preocupe, o senhor vai receber cada centavo que acha que eu te devo. Mas aviso logo: a partir de segunda, ninguém mais me dá ordens aqui.

Ele resmungou algo sobre "mulheres insolentes" e saiu, batendo a Bíblia contra a coxa. Ele não sabia. Ninguém sabia. Mas na segunda-feira, a filha do pastor entraria no lugar onde até Deus temia pisar. Eu ia entrar na Segurança Máxima, ia encarar o abismo de frente e, se o abismo tentasse me olhar de volta, eu ia mostrar para ele que uma mãe leoa, forjada no fogo do abandono, é muito mais assustadora do que qualquer criminoso trancado em uma cela de ferro.

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