
Subúrbio do Rio - O plano perfeito.
Déborah Natália · Concluído · 129.9k Palavras
Introdução
Um beijo Nat.
Capítulo 1
SUBÚRBIO DO RIO — O PLANO PERFEITO
A vida de Milena nunca foi fácil, mas, se existia algo que ela havia aprendido ao longo dos anos, era que chorar não pagava contas, desespero não comprava remédios e sentir saudade não trazia ninguém de volta.
Aos vinte anos, ela já carregava responsabilidades que muita gente não conseguiria suportar nem na idade adulta. Enquanto algumas garotas da sua idade planejavam viagens, saíam com as amigas e sonhavam com grandes amores, Milena calculava o dinheiro que tinha na carteira, separava os comprimidos da irmã e fazia contas para descobrir qual despesa poderia atrasar naquela semana.
Naquela manhã, ela estava sentada à pequena mesa da cozinha, com uma calculadora em uma mão e três contas na outra.
O aluguel venceria em dois dias.
A geladeira estava quase vazia.
E o dinheiro que havia recebido pelo trabalho da semana anterior mal cobriria os medicamentos de que sua irmã precisava.
Milena fechou os olhos por alguns segundos, respirando fundo para conter a angústia que ameaçava tomar conta de seu peito.
— Não pode ser tão difícil assim — murmurou, passando as mãos pelo rosto. — Eu só queria conseguir viver sem precisar escolher qual problema resolver primeiro.
— Milena?
A voz sonolenta da irmã veio do quarto.
Ela abandonou imediatamente as contas sobre a mesa e se levantou.
— Oi, meu amor. Já acordou?
A menina apareceu na porta, com os cabelos desalinhados e o ursinho apertado contra o peito. Ainda era pequena demais para entender por que a irmã trabalhava tanto, por que algumas noites o jantar era mais simples e por que Milena sorria mesmo quando parecia prestes a desabar.
— Estou com fome.
O coração de Milena apertou.
Ela se agachou diante da menina e ajeitou uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.
— Então vamos resolver isso agora. O que você quer comer? Pão com manteiga ou mingau?
— Mingau!
Milena sorriu.
— Sabia que você ia escolher esse.
Preparou o café da manhã com o pouco que havia na cozinha e acompanhou a irmã enquanto ela comia. Depois, conferiu os horários dos medicamentos e deixou tudo organizado para não correr o risco de esquecer alguma dose.
A saúde da menina exigia cuidados constantes. Desde o nascimento, quando a exposição às drogas durante a gestação havia contribuído para seus problemas respiratórios, a família enfrentava consultas, crises e tratamentos que pesavam no orçamento.
O pai de Milena havia feito tudo o que pôde para ajudar as duas.
E essa era uma das lembranças que mais doíam.
Milena tinha apenas dezesseis anos quando perdeu a mãe.
Na época, sua irmã era um bebê de dois meses. A mulher que deveria protegê-las havia saído para um baile e nunca retornara. Foi encontrada na manhã seguinte, em um beco da comunidade, vítima de uma overdose.
Milena ainda se lembrava da sensação de vazio ao receber a notícia. Não entendia como alguém podia deixar uma filha tão pequena para trás, mas, mesmo tomada pela revolta, não teve tempo de viver o próprio luto.
Precisava cuidar da bebê.
Precisava continuar estudando.
Precisava encontrar forças para atravessar os dias.
Foi seu pai, que não era o pai biológico da menina, quem decidiu permanecer ao lado delas. Ele poderia ter ido embora, poderia ter dito que aquela responsabilidade não era sua, mas escolheu ficar.
Durante dois anos, foi o apoio de que Milena precisava.
Até que, pouco depois de ela completar dezoito anos, um infarto após um acidente mudou tudo.
A morte dele deixou um silêncio dentro daquela casa que nenhuma palavra seria capaz de preencher.
Milena perdeu o homem que a havia criado e, junto com ele, perdeu a última pessoa com quem podia dividir o peso da vida.
Desde então, ela se tornou mãe, irmã, provedora e protetora.
Tudo ao mesmo tempo.
E, embora amasse a irmã mais do que qualquer coisa, havia noites em que se trancava no banheiro apenas para chorar sem que a menina percebesse.
Porque até quem é forte se cansa.
E Milena estava exausta.
— Vou trabalhar, tá bom? — avisou, depois de ajudar a irmã a se arrumar.
A menina segurou sua mão.
— Você volta antes de eu dormir?
Milena sentiu a garganta apertar.
— Vou tentar, meu amor.
— Promete?
Ela hesitou por um instante, odiando não poder oferecer uma certeza simples.
— Prometo que vou fazer o possível.
Deu um beijo na testa da menina, conferiu mais uma vez os medicamentos e saiu de casa.
A comunidade já estava movimentada. Havia crianças correndo pelas vielas, mulheres conversando nas portas e o cheiro de café vindo das casas. Um rádio tocava ao longe, misturado às vozes dos moradores e ao barulho das motocicletas.
Aquele lugar era cheio de contradições. Havia dificuldades, medo e disputas, mas também existiam pessoas que dividiam o pouco que tinham, vizinhos que cuidavam dos filhos uns dos outros e famílias que lutavam diariamente para seguir em frente.
Milena conhecia cada pedaço daquele cenário.
Conhecia as ruas onde crescera, os comerciantes que lhe davam alguns minutos de conversa quando percebiam seu cansaço e as pessoas que ainda se lembravam de seu pai.
Também conhecia os homens que era melhor não contrariar.
Principalmente um deles.
João Paulo.
O subcomandante.
Bastava ouvir seu nome para que muitas conversas diminuíssem de volume. Não era apenas por sua posição, mas pela maneira como caminhava, pelo olhar atento e pela autoridade que parecia acompanhá-lo aonde quer que fosse.
Era um homem bonito, disso Milena não podia discordar. Alto, tatuado, de barba bem cuidada e olhos escuros que pareciam enxergar além do que as pessoas mostravam.
Costumava usar roupas pretas, relógio caro e cordões de ouro. Sua motocicleta chamava atenção por onde passava, assim como a presença dos homens que frequentemente estavam ao seu redor.
Mas Milena sabia que beleza não significava segurança.
E poder não era sinônimo de bondade.
O problema era que João Paulo havia decidido prestar atenção nela.
E, quando um homem como ele decidia alguma coisa, dificilmente passava despercebido.
Milena trabalhava em uma pequena lanchonete próxima a uma das ruas mais movimentadas da comunidade. O salário não era grande, mas ajudava a manter a casa funcionando.
Naquela manhã, mal havia colocado o avental quando sua colega, Camila, apareceu ao seu lado com um sorriso suspeito.
— Amiga, você ficou sabendo?
Milena nem levantou os olhos enquanto organizava o balcão.
— Se for mais uma fofoca sobre a vida amorosa de alguém, não fiquei e nem quero ficar.
Camila soltou uma risada.
— Não é qualquer fofoca. É sobre o homem que não para de olhar para você.
Milena parou o que estava fazendo.
— Camila, não começa.
— Estou falando sério! Ontem ele passou duas vezes na sua rua.
— E daí? A rua é pública.
— Na primeira vez, passou de moto. Na segunda, parou para conversar com o dono do bar. E adivinha para onde estava olhando?
Milena revirou os olhos.
— Para o movimento, talvez.
— Claro. E eu sou a rainha da Inglaterra.
As duas riram, mas o sorriso de Milena desapareceu quando ela olhou pela janela.
Do outro lado da rua, encostado em sua motocicleta, estava João Paulo.
Camisa preta, cordão dourado sobre o peito e aquele olhar fixo que parecia ignorar completamente o restante do mundo.
Ele conversava com outro homem, mas, no instante em que percebeu que Milena o observava, ergueu levemente o queixo.
Como se a tivesse esperado.
Como se soubesse que ela olharia.
Milena desviou os olhos imediatamente.
— Não acredito nisso.
Camila se aproximou da janela.
— Minha filha, se eu fosse você, pelo menos agradeceria ao universo por ter colocado um homem desses no meu caminho.
— Pode ficar com ele para você.
— Não posso. Ele não está olhando para mim.
— Problema dele.
Camila soltou outra gargalhada.
Milena tentou voltar ao trabalho, mas sentiu um incômodo estranho. Não gostava de ser observada daquela maneira, como se já tivesse sido escolhida sem sequer participar da decisão.
O pior era que João Paulo não parecia interessado em esconder suas intenções.
E aquilo poderia se transformar em um problema.
Um problema muito maior do que ela precisava naquele momento.
Perto do meio-dia, o movimento na lanchonete aumentou. Milena atendia aos clientes, recolhia pedidos e tentava não pensar nas contas que continuavam esperando por ela em casa.
Estava entregando um café quando ouviu uma voz masculina atrás de si.
— Um café sem açúcar.
Ela reconheceu a voz antes mesmo de se virar.
João Paulo estava diante do balcão.
De perto, ele parecia ainda mais imponente. Tinha um perfume marcante, os braços tatuados e uma expressão tranquila demais para alguém que costumava intimidar tanta gente.
Milena colocou a xícara sobre o balcão.
— Dois reais.
Ele olhou para o café, depois para ela.
— É assim que você recebe seus clientes?
— Os que pagam recebem exatamente o que pedem.
Um sorriso discreto apareceu no rosto dele.
— Então você sabe quem eu sou.
— Moro aqui desde criança. Seria difícil não saber.
— E mesmo assim fala comigo desse jeito?
Milena cruzou os braços.
— Você pediu café ou uma declaração de respeito?
O homem que acompanhava João Paulo soltou uma risada, mas se calou assim que recebeu um olhar do subcomandante.
João Paulo, por outro lado, pareceu se divertir.
— Você tem uma língua afiada.
— E você está atrapalhando meu trabalho.
Ele tirou uma nota do bolso e colocou sobre o balcão.
— Fique com o troco.
Milena empurrou a nota de volta.
— Não preciso de gorjeta.
O sorriso dele desapareceu por um segundo, substituído por uma expressão curiosa.
Não estava acostumado a ouvir recusas tão diretas.
— Você sempre é assim?
— Assim como?
— Difícil.
Milena sustentou o olhar dele.
— Só com quem acha que dinheiro resolve tudo.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
João Paulo inclinou levemente a cabeça, estudando o rosto da jovem como se tentasse descobrir o que havia por trás daquela postura defensiva.
— Vou voltar, Milena.
Ela sentiu um arrepio discreto ao ouvir o próprio nome na voz dele.
— A lanchonete abre todos os dias.
— Não estou falando da lanchonete.
Ele pegou o café, deu um último sorriso e saiu.
Milena ficou olhando para a porta por um instante, incomodada com a segurança daquele homem.
Camila apareceu ao seu lado imediatamente.
— Você tem algum problema na cabeça?
— Por quê?
— Porque acabou de dispensar o subcomandante como se ele fosse um entregador atrasado!
— Eu só estava trabalhando.
— Milena, ele disse que vai voltar!
— Então espero que goste muito de café.
Camila balançou a cabeça, incrédula.
Mas Milena não estava brincando.
Pelo menos, ainda não.
Naquela noite, depois de voltar para casa, preparar o jantar e colocar a irmã para dormir, Milena finalmente conseguiu ficar sozinha.
Sentou-se na beirada da cama e abriu a pequena caixa onde guardava os documentos, algumas fotografias e o dinheiro que tentava economizar.
Contou as notas.
Depois contou novamente.
Não era suficiente.
Faltava dinheiro para o aluguel, para as compras da semana e para parte dos medicamentos que precisaria comprar nos próximos dias.
Ela apertou os olhos, tentando impedir que as lágrimas caíssem.
— Eu não posso continuar assim, pai — sussurrou, olhando para uma fotografia antiga dos dois. — Eu estou tentando. Juro que estou tentando.
O silêncio respondeu por ele.
Milena guardou a fotografia e pegou o celular. Havia uma mensagem da farmácia lembrando que um dos medicamentos da irmã estava próximo de acabar.
Aquela simples notificação foi o suficiente para fazer sua mente trabalhar.
João Paulo tinha dinheiro.
Tinha influência.
E, pelo que todos diziam, estava acostumado a conseguir aquilo que queria.
Ele a queria.
Talvez aquela fosse a primeira oportunidade real que aparecia diante dela em muito tempo.
A ideia era arriscada. Milena sabia disso. Aproximar-se de um homem como João Paulo significava entrar em um mundo onde as regras eram diferentes e os erros podiam custar caro.
Mas continuar como estava também era arriscado.
Ela não pretendia se apaixonar. Não pretendia entregar seu coração, muito menos permitir que alguém decidisse o rumo de sua vida.
Só precisava de uma chance.
Uma oportunidade de colocar a irmã em segurança, pagar as contas e recuperar os sonhos que havia abandonado.
Se João Paulo queria tê-la ao seu lado, talvez ela pudesse transformar aquele interesse em algo útil.
Milena se levantou, caminhou até a janela e observou as luzes espalhadas pela comunidade.
Lá embaixo, uma motocicleta passou devagar.
Era a mesma que ela reconheceria em qualquer lugar.
João Paulo.
Ele parou por alguns instantes perto da esquina, retirou o capacete e olhou na direção de sua casa.
Milena recuou imediatamente, escondendo-se atrás da cortina.
O coração acelerou.
Ela não sabia se ele a havia visto.
Mas, quando tornou a espiar, ele ainda estava lá.
E, dessa vez, não estava sozinho.
Um segundo homem se aproximou dele, disse alguma coisa e apontou diretamente para a janela de Milena.
João Paulo permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois, colocou o capacete, ligou a motocicleta e foi embora.
Milena sentiu um frio percorrer sua espinha.
Talvez estivesse imaginando coisas.
Talvez fosse apenas coincidência.
Mas, naquela noite, enquanto observava a rua vazia, tomou sua decisão.
Se João Paulo queria jogar, ela também sabia jogar.
Ela aceitaria se aproximar dele.
Conseguiria o dinheiro necessário para cuidar da irmã, mudaria a realidade das duas e, quando tivesse condições de seguir sozinha, sairia daquela relação sem olhar para trás.
Era um plano simples.
Um plano necessário.
Um plano perfeito.
O que Milena ainda não sabia era que, naquela mesma noite, João Paulo havia feito uma pergunta que poderia mudar completamente o rumo de sua vida.
— Descobriu alguma coisa sobre ela? — perguntou ele ao homem sentado diante de si.
— Descobri, patrão. A garota mora sozinha com a irmã mais nova. Perdeu os pais e está praticamente se matando de trabalhar para manter a casa.
João Paulo ficou em silêncio.
— E dinheiro? Ela aceita ajuda?
— Pelo que ouvi, não gosta de depender de ninguém.
Ele soltou uma risada baixa, sem humor.
— Então vamos descobrir até onde vai esse orgulho.
O homem hesitou antes de perguntar:
— E se ela não quiser nada com você?
João Paulo ergueu os olhos.
— Todo mundo quer alguma coisa, parceiro. A questão é descobrir o quê.
Ele pegou o celular e abriu uma fotografia de Milena que alguém havia enviado naquela tarde.
Seu sorriso foi lento.
— Amanhã vou conversar com ela de novo.
— E se ela continuar te enfrentando?
João Paulo guardou o aparelho no bolso e se levantou.
— Melhor ainda.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele havia encontrado uma mulher que não parecia impressionada com seu dinheiro, seu nome ou sua posição.
E isso despertava nele uma curiosidade perigosa.
Milena acreditava estar prestes a colocar o subcomandante em suas mãos.
João Paulo, por sua vez, já estava decidido a descobrir o que aquela jovem escondia.
E nenhum dos dois fazia ideia de quem seria o primeiro a perder o controle.
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