Capítulo 2 UMA PROPOSTA PERIGOSA

Milena acordou naquela manhã com uma única certeza: precisava parar de esperar que a vida melhorasse sozinha.

A noite anterior havia sido longa. Depois de tomar sua decisão, ela passara horas imaginando como faria para se aproximar de João Paulo sem demonstrar suas verdadeiras intenções. Não podia parecer desesperada, muito menos deixar que ele percebesse o tamanho das dificuldades que enfrentava.

Homens como ele estavam acostumados a encontrar pessoas interessadas em seu dinheiro e em sua posição. Se Milena quisesse conseguir alguma vantagem, precisaria agir com inteligência.

O problema era que ela nunca havia precisado fingir interesse por alguém.

Muito menos por um homem que despertava nela uma mistura incômoda de curiosidade e desconfiança.

— Milena, você está falando sozinha? — perguntou sua irmã, aparecendo na cozinha com o ursinho debaixo do braço.

Ela piscou, percebendo que estava parada diante do fogão sem sequer ter acendido a chama.

— Não, meu amor. Só estou pensando.

— Pensando em quê?

Milena se abaixou para ficar na altura da menina.

— Em como vou fazer você comer tudo isso aqui.

A pequena olhou para o prato e fez uma careta.

— Não gosto de ovo.

— Ontem você gostava.

— Ontem eu era outra pessoa.

Milena soltou uma gargalhada.

Por alguns segundos, as preocupações desapareceram. Ela abraçou a irmã, beijou sua bochecha e prometeu que, no fim de semana, tentaria preparar o bolo de chocolate de que a menina tanto gostava.

Era por momentos assim que continuava lutando.

Depois de deixar a irmã com uma vizinha de confiança, seguiu para o trabalho. No caminho, cumprimentou alguns moradores e tentou ignorar os olhares curiosos de duas mulheres que conversavam perto de uma mercearia.

— É ela — ouviu uma delas cochichar.

Milena continuou andando.

Não precisava perguntar de quem estavam falando.

Desde que João Paulo aparecera na lanchonete, parecia que metade da comunidade havia decidido acompanhar os próximos capítulos daquela história.

E ela sequer havia começado a jogar.

A manhã transcorreu sem grandes acontecimentos, até que, pouco depois das dez horas, uma motocicleta conhecida estacionou diante da lanchonete.

Milena estava limpando uma mesa quando ouviu Camila suspirar dramaticamente.

— Meu Deus, ele voltou.

— Camila, pelo amor de Deus, trabalha.

— Eu trabalho melhor quando tenho motivação.

Milena lançou um olhar de reprovação para a amiga e voltou a organizar os copos.

João Paulo entrou acompanhado de um dos homens que costumavam andar com ele. Usava uma camiseta preta, calça jeans e um cordão dourado que brilhava discretamente sob a luz.

Seus olhos encontraram Milena quase imediatamente.

— Bom dia — cumprimentou ele.

— Bom dia. Vai querer café?

— Hoje, não.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Então veio fazer o quê?

O homem ao lado dele baixou a cabeça, disfarçando um sorriso.

João Paulo, entretanto, parecia cada vez mais interessado naquela conversa.

— Vim ver você.

Milena sentiu o rosto esquentar, mas não permitiria que ele percebesse.

— Pois já viu. Agora pode escolher alguma coisa do cardápio.

— Você sempre tenta se livrar de mim tão rápido?

— Só quando o cliente não sabe o que quer.

Ele riu, puxando uma cadeira para se sentar.

— Traga um suco. E, se tiver alguma coisa para comer, pode trazer também.

— Temos pão de queijo, misto-quente e salgados.

— Escolhe você.

Milena anotou o pedido sem demonstrar qualquer reação.

— Certo.

Quando voltou com a bandeja, encontrou João Paulo observando o movimento da rua pela janela.

Colocou o suco e o prato diante dele.

— Mais alguma coisa?

— Senta um minuto.

Ela olhou para a cadeira vazia.

— Estou trabalhando.

— Pago o que você perder de tempo.

A expressão de Milena mudou imediatamente.

— Não preciso que você compre meu tempo.

João Paulo levantou os olhos.

Por um instante, a descontração desapareceu de seu rosto.

— Você entendeu errado. Não estou tentando comprar você.

— Ótimo. Porque não estou à venda.

Ela se afastou antes que ele pudesse responder.

João Paulo acompanhou cada movimento da jovem e, pela primeira vez naquela manhã, deixou de sorrir.

Não estava acostumado a ser tratado daquela maneira. Muitas pessoas se aproximavam dele por interesse, enquanto outras evitavam até mesmo sustentar seu olhar.

Milena fazia o contrário.

Ela parecia disposta a enfrentá-lo sem sequer considerar as consequências.

E aquilo o intrigava mais do que deveria.

Perto do horário do almoço, Milena recebeu uma ligação da vizinha que estava cuidando de sua irmã.

A menina havia apresentado um pouco de falta de ar depois de brincar e ficara assustada. A vizinha seguira as orientações médicas que Milena havia deixado, mas achou melhor avisá-la.

O coração da jovem disparou.

— Ela está melhor agora? — perguntou, já procurando a bolsa.

— Está mais tranquila, minha filha. Mas achei melhor você saber.

— Estou indo para casa.

Milena desligou e correu até a responsável pela lanchonete para explicar a situação. Não sabia se perderia parte do pagamento por sair antes do horário, mas naquele momento não conseguia pensar em outra coisa.

Quando saiu pela porta, quase esbarrou em João Paulo.

Ele estava encostado na motocicleta, conversando com um conhecido.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ao perceber a expressão dela.

— É um assunto pessoal.

Milena tentou passar, mas ele acompanhou seu movimento.

— Você está tremendo.

— Preciso ir para casa.

— Eu levo você.

— Não precisa.

— Milena, você está preocupada com alguma coisa. Não vou ficar olhando enquanto você sai correndo sem prestar atenção no caminho.

Ela apertou a alça da bolsa.

O orgulho mandava recusar. A preocupação com a irmã, porém, falava mais alto.

— Minha irmã não está se sentindo bem. Preciso chegar logo.

A expressão de João Paulo mudou.

— Sobe na moto.

— Eu posso pegar um ônibus.

— E pode esperar ainda mais. Vamos.

Milena hesitou.

Aceitar aquela ajuda significava permitir que ele entrasse, ainda que minimamente, em sua vida. Mas a irmã vinha primeiro.

Ela colocou o capacete que ele lhe ofereceu e subiu na motocicleta.

Durante o trajeto, manteve as mãos firmes na lateral do banco, evitando se aproximar mais do que o necessário.

João Paulo percebeu.

— Pode segurar em mim. Não vou deixar você cair.

— Estou bem assim.

— Você é sempre desconfiada desse jeito?

— Só com homens que mal conheço.

— Então teremos que resolver isso.

— Não existe nenhum nós para resolver coisa alguma.

Ele soltou uma risada.

— Você realmente não facilita.

— E você realmente não entende quando alguém responde.

Dessa vez, João Paulo não respondeu. Apenas continuou dirigindo, embora o sorriso discreto em seu rosto denunciasse que a resposta havia lhe agradado.

Quando chegaram à casa, Milena desceu depressa e devolveu o capacete.

— Obrigada pela carona.

— Posso entrar?

— Não.

Ele olhou para a porta, depois para ela.

— Direta.

— Estou com pressa.

— Tudo bem. Vá cuidar da sua irmã.

Milena não esperava aquela resposta.

Por um breve instante, percebeu que João Paulo não estava tentando prolongar a situação nem exigir qualquer agradecimento. Ele simplesmente havia entendido que ela precisava ir.

A constatação a incomodou.

Era muito mais fácil manter distância de alguém quando todas as suas atitudes confirmavam as piores expectativas.

— Obrigada — repetiu, dessa vez com sinceridade.

Ele assentiu.

— Depois conversamos.

Milena entrou em casa e encontrou a irmã sentada no sofá, abraçada ao ursinho. A menina estava mais tranquila, mas ainda parecia cansada.

Ela se ajoelhou diante dela.

— Como você está, meu amor?

— Melhor.

Milena a abraçou com cuidado e conferiu se estava seguindo o plano de tratamento indicado pelo médico. Depois, ficou ao lado dela até recuperar a tranquilidade.

Só então percebeu que a vizinha a observava com uma expressão curiosa.

— Aquele era João Paulo?

Milena suspirou.

— Era.

— E ele trouxe você até aqui?

— Eu precisava chegar rápido.

A mulher ficou em silêncio por alguns segundos.

— Tome cuidado, minha filha. Não estou dizendo que ele seja incapaz de fazer algo bom, mas aquele homem vive em um mundo complicado.

Milena olhou para a irmã, que agora brincava com o ursinho.

— Eu sei.

E sabia mesmo.

Talvez melhor do que qualquer pessoa imaginasse.

Naquela tarde, depois de confirmar que a irmã estava bem, Milena voltou ao trabalho. Precisava recuperar as horas perdidas e não podia se dar ao luxo de perder o emprego.

João Paulo já havia ido embora, mas deixou algo que ela não esperava: uma pequena sacola com medicamentos comprados na farmácia.

A atendente explicou que ele havia pedido para entregarem o pacote e que os produtos correspondiam aos itens que Milena costumava comprar.

Ela ficou imóvel diante da sacola.

O primeiro sentimento foi alívio.

O segundo, irritação.

Como ele sabia quais medicamentos sua irmã usava?

Milena conferiu a embalagem e percebeu que eram os mesmos de que precisava naquela semana. Aquilo representava uma despesa a menos, mas também levantava uma pergunta incômoda: até onde João Paulo havia investigado sua vida?

Naquela noite, ela decidiu que precisava conversar com ele.

Não poderia aceitar ajuda sem entender as intenções por trás dela. Se pretendia levar seu plano adiante, teria de estabelecer algumas condições.

E, acima de tudo, precisava deixar claro que não seria controlada.

João Paulo estava diante de uma pequena mesa, conversando com dois homens, quando um deles avisou que Milena havia chegado.

Ele ergueu os olhos, surpreso.

Não esperava vê-la ali tão cedo.

— Manda entrar.

Milena apareceu pouco depois, mantendo a postura firme apesar do nervosismo.

— Precisamos conversar.

João Paulo fez um gesto para que os outros homens se retirassem.

Quando ficaram sozinhos, apontou para a cadeira diante dele.

— Senta.

— Prefiro ficar em pé.

— Como quiser.

Ela colocou a sacola sobre a mesa.

— Não pedi que você comprasse isso.

— Eu sei.

— Então por que fez?

João Paulo recostou-se na cadeira.

— Porque percebi que você estava preocupada com sua irmã. E porque podia ajudar.

— Não quero que pense que, por ter feito isso, eu lhe devo alguma coisa.

Ele ficou sério.

— Eu não comprei você, Milena.

— Ainda bem.

— Mas quero conhecer você.

A resposta a pegou desprevenida.

João Paulo continuou:

— Quero sair com você. Quero conversar sem que você tente me expulsar a cada cinco minutos. E quero uma oportunidade de mostrar que não sou o monstro que você parece imaginar.

Milena quase riu.

Ele não fazia ideia do quanto aquela frase era perigosa.

Porque, se havia uma coisa que ela precisava naquele momento, era justamente uma oportunidade.

— E o que eu ganho com isso? — perguntou.

João Paulo estreitou os olhos, interessado.

— Além da minha companhia?

— Você parece ter uma opinião muito boa sobre si mesmo.

Ele riu.

— Você quer alguma coisa, não quer?

Milena sustentou o olhar dele.

A pergunta havia chegado mais rápido do que esperava.

Ela poderia negar. Poderia fingir que estava ali apenas porque começava a gostar da atenção que recebia.

Mas, pela primeira vez, decidiu experimentar uma pequena parte da verdade.

— Eu quero uma vida melhor para mim e para minha irmã.

João Paulo não desviou os olhos.

— E acha que eu posso ajudar?

— Acho que você tem condições de ajudar.

Ele ficou em silêncio, como se estivesse avaliando a resposta.

— Então vamos fazer um acordo.

O coração de Milena acelerou.

— Que acordo?

João Paulo se levantou e caminhou até ficar diante dela, mantendo uma distância respeitosa.

— Você me dá a oportunidade de conhecer você de verdade. Sem fugir, sem inventar desculpas e sem me tratar como se eu fosse seu inimigo.

— E em troca?

— Se eu puder ajudar sua irmã, vou ajudar. Mas não quero que você fique comigo por obrigação.

Milena sentiu uma pontada de culpa que não esperava.

Aquela última frase atingiu justamente o ponto que ela tentava esconder.

Ela pretendia usar o interesse dele. Pretendia transformar a própria presença em uma moeda de troca.

E, ainda assim, João Paulo acabava de oferecer ajuda sem exigir que ela se tornasse sua mulher.

Isso não fazia dele um santo. Tampouco apagava os riscos daquele envolvimento.

Mas tornava o jogo mais complicado.

— Vou pensar — respondeu ela.

João Paulo sorriu de canto.

— Pense. Só não demore muito.

Milena virou-se para sair, mas parou quando ouviu a voz dele novamente.

— Ah, e mais uma coisa.

Ela olhou por cima do ombro.

— O quê?

— Você pode continuar tentando me enganar, se quiser.

O sangue pareceu gelar em suas veias.

João Paulo manteve os olhos fixos nela.

— Só espero que saiba o que está fazendo.

Milena não respondeu.

Saiu dali com a sensação de que havia acabado de entrar em um jogo cujas regras desconhecia.

Ele suspeitava de alguma coisa.

Talvez ainda não soubesse de seus planos, mas estava atento demais para ser tratado como um homem ingênuo.

Do lado de fora, ela respirou fundo.

Precisava continuar.

Pela irmã. Pela casa. Pelo futuro que tanto desejava.

Mas, enquanto caminhava pelas ruas da comunidade, uma pergunta começou a incomodá-la.

E se João Paulo não fosse o único capaz de transformar aquele acordo em uma armadilha?

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