Capítulo 3 EU NÃO SOU UMA DAS SUAS MULHERES
Milena passou a noite pensando na conversa que tivera com João Paulo.
A frase dele continuava incomodando seus pensamentos.
Você pode continuar tentando me enganar, se quiser. Só espero que saiba o que está fazendo.
Aquilo não parecia uma ameaça direta, mas também estava longe de ser uma brincadeira. João Paulo era observador, e Milena começava a perceber que sua postura tranquila escondia uma capacidade irritante de notar coisas que outras pessoas deixariam passar.
Ela precisava tomar cuidado.
O plano ainda estava no começo, e já havia situações que não conseguia controlar.
Na manhã seguinte, levantou cedo, preparou o café da irmã e separou os medicamentos antes de começar a organizar a casa. A menina estava melhor, mas Milena continuava preocupada com a possibilidade de outra crise respiratória.
— Lena, você está triste? — perguntou a pequena, chamando-a pelo apelido carinhoso que usava desde que aprendera a falar.
Milena parou de dobrar uma roupa.
— Por que está perguntando isso?
— Porque você está quietinha.
Ela se aproximou e sentou ao lado da irmã.
— Estou só cansada, meu amor.
— Você trabalha muito.
Aquelas palavras, ditas com a inocência de uma criança, apertaram seu coração.
— Trabalho porque quero que você tenha tudo de bom.
A menina segurou sua mão.
— Eu já tenho.
Milena sorriu, embora os olhos ardessem.
— Tem o quê?
— Você.
Por alguns segundos, ela não conseguiu responder. Abraçou a irmã com força, beijando o alto de sua cabeça.
Era por aquela menina que enfrentaria qualquer coisa.
Até mesmo um homem como João Paulo.
Principalmente um homem como João Paulo.
Quando chegou à lanchonete, Camila já estava esperando por ela.
Bastou um olhar para perceber que a amiga tinha novidades.
— Antes que você comece, não aconteceu nada — avisou Milena, colocando a bolsa no armário.
Camila cruzou os braços.
— Eu nem abri a boca.
— Mas seu rosto já contou a história inteira.
— Então meu rosto também deve ter contado que o subcomandante perguntou por você ontem.
Milena virou-se lentamente.
— Ele fez o quê?
— Passou aqui no fim da tarde. Queria saber se você estava trabalhando. Depois perguntou se eu era sua amiga.
— E o que você respondeu?
— Que sou sua melhor amiga, sua conselheira, sua psicóloga sem diploma e a única pessoa sensata nesta amizade.
Milena soltou uma gargalhada.
— Você é impossível!
— Sou mesmo. Mas você ainda não respondeu à pergunta mais importante.
— Qual?
Camila se aproximou, baixando a voz.
— Você está pensando em ficar com ele?
Milena parou de sorrir.
Era uma pergunta simples, mas a resposta exigia uma mentira que nem ela sabia contar direito.
— Estou pensando em algumas coisas.
— Isso não é resposta.
— É a única que você vai receber.
Camila suspirou.
— Lena, presta atenção. Eu sei que sua vida está difícil. Sei que você está carregando o mundo nas costas e que faria qualquer coisa pela sua irmã. Mas não quero que você entre em uma situação perigosa porque está desesperada.
Milena sentiu a irritação surgir.
Não porque a amiga estivesse errada, mas porque suas palavras tocavam justamente na parte da decisão que ela preferia não examinar.
— Você acha que eu não sei disso?
— Acho que você sabe, mas está tentando convencer a si mesma de que consegue controlar tudo.
Milena pegou um pano e começou a limpar o balcão.
— Não preciso que ninguém resolva meus problemas.
— Então por que está pensando tanto nele?
A pergunta ficou suspensa entre as duas.
Milena continuou trabalhando, fingindo que não havia escutado.
Porque, se respondesse com sinceridade, precisaria admitir que João Paulo não saía de sua cabeça.
E aquilo não fazia parte do plano.
Por volta das onze horas, o movimento na lanchonete diminuiu. Milena aproveitou para verificar as mensagens no celular e encontrou uma notificação da farmácia informando o valor de um medicamento que precisaria comprar na semana seguinte.
Seu estômago se contraiu.
Ela abriu o aplicativo do banco, conferiu o saldo e soltou o ar lentamente.
Não dava.
Mesmo economizando, ainda faltaria dinheiro.
A jovem guardou o aparelho e apoiou as mãos no balcão, tentando pensar em alguma alternativa.
Poderia pedir horas extras.
Poderia procurar outro trabalho.
Poderia vender algumas coisas que já não usava.
Mas nenhuma dessas possibilidades resolveria o problema imediatamente.
— Está fazendo contas de novo?
A voz masculina a fez levantar a cabeça.
João Paulo estava diante do balcão, usando uma camisa preta de mangas dobradas e um relógio que provavelmente custava mais do que todos os móveis da casa dela juntos.
Milena endireitou a postura.
— Você tem o costume de aparecer sem avisar?
— Tenho o costume de ir aos lugares onde quero estar.
— Deve ser muito bom viver assim.
— Nem sempre.
A resposta inesperada fez Milena observá-lo por um instante.
João Paulo puxou uma cadeira e se sentou.
— Já almoçou?
— Ainda não.
— Ótimo. Vamos almoçar.
Ela soltou uma risada curta.
— Você faz convites ou dá ordens?
— Estou convidando.
— Não parece.
Ele apoiou os braços sobre a mesa.
— Certo. Milena, você aceitaria almoçar comigo?
Ela fingiu pensar.
— Não.
João Paulo ficou olhando para ela por alguns segundos, até soltar uma gargalhada.
— Você gosta de me contrariar.
— E você gosta de insistir.
— Talvez porque você seja a única pessoa que me responde desse jeito.
— Então deveria conversar com mais pessoas.
O sorriso dele aumentou.
Milena percebeu, contrariada, que estava começando a se acostumar com aquela expressão descontraída. Era estranho ver o homem que tantos moradores tratavam com cautela sentado diante dela, discutindo como se fossem duas pessoas comuns.
Mas ele não era apenas um homem bonito com dinheiro e uma motocicleta.
Era o subcomandante de uma comunidade onde as decisões de homens poderosos podiam afetar a vida de muita gente.
Ela não podia esquecer disso.
— Escuta — começou João Paulo, ficando um pouco mais sério. — Não quero obrigar você a fazer nada. Se não quiser sair comigo, diga não. Eu vou entender.
Milena ergueu as sobrancelhas.
— Vai mesmo?
— Vou.
— E vai parar de aparecer aqui?
Ele demorou um pouco para responder.
— Não prometo isso. Gosto do café daqui.
Ela riu antes de conseguir se conter.
João Paulo apontou para ela.
— Viu? Você sabe sorrir para mim.
Milena imediatamente recuperou a expressão séria.
— Não se acostume.
— Tarde demais.
No fim do expediente, Milena tomou uma decisão.
Aceitaria sair com João Paulo.
Não porque estivesse apaixonada, nem porque tivesse esquecido as advertências de Camila. Aceitaria porque precisava descobrir até onde poderia chegar aquela aproximação e quais vantagens conseguiria obter sem comprometer a segurança da irmã.
Quando o encontrou esperando do lado de fora, tentou manter a naturalidade.
— Você ainda está aqui?
João Paulo guardou o celular.
— Estava esperando você.
— Não tem mais nada para fazer?
— Tenho várias coisas. Mas resolvi esperar.
Milena respirou fundo.
— Está bem. Eu aceito.
Ele ficou imóvel por um instante.
— Aceita o quê?
Ela estreitou os olhos.
— Não me faça repetir.
João Paulo abriu um sorriso satisfeito.
— Nosso primeiro encontro.
— Um almoço, João Paulo. Não inventa histórias.
— Claro, princesa. Um almoço.
Milena detestou o modo como ele pronunciou aquela palavra, como se estivesse se divertindo com a irritação dela.
— E outra coisa: quero deixar algumas coisas claras.
O sorriso dele diminuiu.
— Estou ouvindo.
— Eu trabalho, tenho minha casa e sou responsável pela minha irmã. Não vou abandonar minhas obrigações porque você decidiu que quer sair comigo.
— Não pedi que abandonasse nada.
— E não vou aceitar que você escolha minhas roupas, diga com quem posso conversar ou apareça na minha casa sem autorização.
João Paulo a observou atentamente.
A maioria das pessoas esperaria que ele se irritasse com aquelas condições. Ele, porém, pareceu considerar cada palavra.
— Terminou?
— Por enquanto.
— Então agora é minha vez.
Milena cruzou os braços.
— Pode falar.
— Não gosto de mentiras.
O coração dela bateu mais forte, mas manteve o rosto impassível.
— Ninguém gosta.
— Também não gosto de joguinhos.
— Então não jogue.
Ele soltou uma risada baixa.
— Você realmente não tem medo de mim?
Milena sustentou o olhar dele.
— Tenho medo de muitas coisas, João Paulo. De não conseguir pagar o aluguel. De faltar remédio para minha irmã. De perder a única família que me restou. Mas de você? Ainda não decidi.
Pela primeira vez desde que se conheceram, João Paulo não encontrou uma resposta imediata.
Havia algo naquela sinceridade que o desarmava.
Ele conhecia mulheres que tentavam impressioná-lo, outras que se aproximavam por interesse e algumas que faziam de tudo para chamar sua atenção.
Milena não parecia querer impressioná-lo.
Ela parecia cansada.
Cansada de lutar, cansada de precisar ser forte e cansada de não ter ninguém com quem dividir as preocupações.
Por um instante, João Paulo sentiu vontade de perguntar mais sobre a vida dela. Queria saber quem havia feito aquela jovem acreditar que precisava enfrentar tudo sozinha.
Mas não perguntou.
Ainda não.
— Tudo bem — respondeu. — Vamos fazer do seu jeito.
Milena desconfiou imediatamente.
— Assim, sem discutir?
— Quer que eu discuta?
— Não.
— Então pronto.
Ele estendeu a mão para ela.
Milena olhou para a mão oferecida e depois para o rosto dele.
— O que é isso?
— Um convite para almoçar. Você aceitou, lembra?
Ela segurou a mão dele por um breve instante, apenas para acompanhar seus passos.
E foi nesse momento que percebeu os olhares direcionados aos dois.
Perto da esquina, duas mulheres cochichavam. Um rapaz que passava de bicicleta diminuiu a velocidade para observar. Um homem sentado diante de um bar comentou alguma coisa com o companheiro.
A notícia de que Milena estava saindo com João Paulo certamente percorreria a comunidade antes mesmo do almoço terminar.
Ela soltou a mão dele.
— Estão todos olhando.
João Paulo acompanhou seu olhar.
— Deixe que olhem.
— Para você é fácil falar.
Ele voltou a encará-la.
— Se isso incomoda você, podemos ir a outro lugar.
Milena hesitou.
Não esperava que ele oferecesse uma alternativa sem transformar a situação em uma disputa.
— Vamos logo — respondeu.
João Paulo assentiu e caminhou até a motocicleta.
Dessa vez, antes de colocar o capacete, Milena percebeu que estava sorrindo.
Um sorriso pequeno, quase involuntário.
E isso a assustou muito mais do que os olhares dos moradores.
O restaurante ficava fora da comunidade, em uma rua movimentada. Era um lugar simples, mas organizado, com mesas próximas às janelas e música baixa.
Milena escolheu uma cadeira de frente para João Paulo e examinou o cardápio.
Os preços eram maiores do que ela costumava pagar por uma refeição, e isso a deixou desconfortável.
— Pode pedir o que quiser — disse ele.
Ela levantou os olhos.
— Eu sei ler preços.
João Paulo soltou uma risada.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Então não precisa dizer.
Ele levantou as mãos em sinal de rendição.
— Está bem. Não digo mais nada.
Milena escolheu um prato simples. João Paulo pediu o mesmo, sem fazer comentários.
Durante os primeiros minutos, conversaram sobre assuntos banais. Ele perguntou sobre o trabalho, ela perguntou se ele sempre morara na comunidade e os dois descobriram que tinham conhecidos em comum.
Aos poucos, a tensão diminuiu.
Até que João Paulo fez uma pergunta que mudou o rumo da conversa.
— Você nunca pensa em fazer alguma coisa por você?
Milena franziu a testa.
— Como assim?
— Você trabalha, cuida da casa, cuida da sua irmã. Pelo que percebi, sua vida gira em torno das necessidades dos outros. E você? O que quer para si mesma?
Ela ficou em silêncio.
Era uma pergunta simples, mas ninguém costumava fazê-la.
— Eu queria voltar a estudar — respondeu depois de alguns segundos. — Terminar algumas coisas que deixei para trás. Conseguir um emprego melhor. Ter dinheiro suficiente para não precisar contar moedas antes de comprar comida.
João Paulo ouviu sem interromper.
— E por que não faz isso?
Milena soltou uma risada sem humor.
— Porque os sonhos não pagam contas.
Ele abaixou os olhos por um instante.
— Não deveriam precisar pagar.
Ela o observou com curiosidade.
Pela primeira vez, João Paulo parecia compreender que dinheiro não resolvia tudo. Pelo menos, não da maneira simples que ela havia imaginado.
— E você? — perguntou Milena. — Sempre quis viver assim?
A expressão dele mudou discretamente.
— Assim como?
— Com todo mundo olhando para você, obedecendo ao que você diz e pensando duas vezes antes de contrariar você.
João Paulo apoiou o garfo sobre o prato.
— Nem tudo é tão simples quanto parece.
— Isso não responde à minha pergunta.
Ele sustentou o olhar dela.
— Não. Nem sempre quis essa vida.
Milena esperou que ele continuasse, mas João Paulo voltou a comer.
A mensagem era clara: aquele assunto estava encerrado.
Ela não insistiu.
Ainda havia muitas coisas que precisava descobrir sobre ele, mas não pretendia arrancar respostas à força.
O almoço terminou sem novas discussões. Quando saíram do restaurante, João Paulo a acompanhou até a motocicleta.
Antes de entregar o capacete, porém, fez uma pergunta inesperada.
— Milena, posso ajudar sua irmã com o tratamento?
Ela ficou imóvel.
A oferta era exatamente o que precisava ouvir.
Mas, em vez de sentir apenas alívio, sentiu desconfiança.
— Por quê?
— Porque posso ajudar.
— Você nem conhece minha irmã.
— Então me apresente a ela algum dia.
Milena apertou o capacete entre as mãos.
Uma parte dela queria aceitar imediatamente. A outra lembrava que cada favor poderia criar uma dívida que não aparecia em nenhuma conta bancária.
— Não quero que faça isso esperando alguma coisa de mim.
João Paulo aproximou-se apenas o suficiente para que ela ouvisse sua resposta sem precisar elevar a voz.
— Eu quero conquistar você, Milena. Não comprar sua companhia.
Ela sentiu o rosto esquentar.
— Você fala como se tivesse certeza de que vai conseguir.
— Certeza, não tenho.
Ele sorriu.
— Mas vontade não me falta.
Milena desviou o olhar, tentando esconder o sorriso que ameaçava surgir.
Naquele momento, ainda acreditava que conseguiria manter os sentimentos longe daquela aproximação.
Ainda acreditava que o dinheiro, a atenção e a influência de João Paulo poderiam ser usados para construir o futuro que desejava.
Mas, enquanto subia na motocicleta, não percebeu o carro estacionado do outro lado da rua.
Dentro dele, uma mulher observava os dois com o rosto tomado pela irritação.
Ela reconheceu João Paulo imediatamente.
E também reconheceu a jovem que estava ao lado dele.
— Então é essa a garota? — murmurou, apertando o celular entre os dedos.
Abriu a câmera, tirou uma fotografia dos dois e enviou a imagem para um contato salvo apenas com uma inicial.
A resposta chegou menos de um minuto depois.
“Descubra tudo sobre ela.”
A mulher sorriu sem qualquer alegria.
João Paulo podia estar interessado em Milena.
Mas ela não permitiria que aquela desconhecida ocupasse um lugar que, em sua cabeça, já tinha dona.
E, enquanto a motocicleta desaparecia no trânsito, uma nova ameaça começava a se formar.
Milena havia aceitado o primeiro encontro acreditando que estava dando um passo em direção ao próprio plano.
Sem perceber, acabara de chamar a atenção de alguém que faria de tudo para destruí-lo.
Porque, naquela comunidade, conquistar o interesse de um homem poderoso era apenas o começo dos problemas.
