Capítulo 2 O lado errado do território
Eloise
Estava escuro. Tão escuro que eu não conseguia ver minhas mãos. Tentei sair daquela escuridão andando, mas descobri que não conseguia. Era como se minhas mãos e minhas pernas estivessem acorrentadas a alguma coisa, mas eu não conseguia ver a quê.
Fechei os olhos com força, rezando para que aquilo fosse só um pesadelo, mas, quando os abri, a escuridão ainda estava ali. O pânico subiu em mim; puxei as amarras freneticamente. Mas quanto mais eu puxava, mais apertadas elas pareciam ficar.
Chamei a única pessoa que eu sabia que viria me salvar, acontecesse o que acontecesse.
—Mae! —gritei, mas não obtive resposta.
—Maevyth!! —gritei mais alto.
—Mae!!!
Não importava o quanto eu gritasse o nome da minha irmã, ela não vinha. Eu me recusei a aceitar. Mae sempre vinha por mim. Ela veio quando o Pai decidiu me punir por ter saído escondida e assumiu a culpa. Minha irmã sempre vinha.
Mas desta vez, ao que parecia, ela não viria. Eu desabei no chão e soluçei.
Quando meus joelhos tocaram o chão, ele pareceu se deslocar sob mim, e eu comecei a cair no nada. O vento ali era tão denso que abafava meus gritos.
As amarras ainda me prendiam com força enquanto eu continuava caindo. Uma figura se materializou da escuridão, envolta em ouro. Eu não conseguia distinguir o rosto nem o gênero, mas eu sabia que ela estava ali. Eu quase conseguia senti-la sorrindo para mim.
—Bem-vinda —disse, com uma voz que não era nem masculina nem feminina. Era como algo que não pertencia a este mundo.
Quando eu estava prestes a pedir ajuda, meu corpo bateu numa superfície dura e tudo ficou preto de novo.
.
.
.
Eu estava dormindo nas nuvens.
Foi a primeira coisa que pensei ao sentir a maciez daquilo sob mim. Era tão diferente da cama de madeira dura do meu quarto. Aquilo era mais macio do que a cama de Maevyth. Talvez ela tivesse comprado uma cama nova.
Abri os olhos e os fechei imediatamente quando a luz atravessou minha cabeça, trazendo uma dor latejante. Pisquei, ajustando devagar o olhar ao brilho do quarto.
Passei os olhos pelo ambiente, e uma percepção gelada se instalou em mim. Este não era o quarto da Mae; também não era o meu.
As lembranças de como foi meu décimo oitavo aniversário começaram a se infiltrar lentamente na minha mente. A tensão na sala de estar, o comportamento estranho da Mae, as últimas palavras dela, e a dor—
Meu coração se encheu de pânico, e eu tentei sair da cama. Mas quanto mais eu me arrastava, maior a cama parecia ficar.
—Ah, que bom! Você acordou. —Eu me sobressaltei com o som, os olhos correndo pelo quarto em busca da origem.
Uma garota estava perto da porta, com os olhos fixos em mim. Ela parecia estranha e usava roupas estranhas. Eu nunca tinha visto nada igual. Sons estrondosos, como um terremoto, ecoaram pelo lugar quando ela se aproximou.
Agarrei os lençóis com força e torci para que o chão não se abrisse. Os sons pararam quando ela chegou à beira da cama e se sentou. Eu abracei meus joelhos com força e me afastei dela, escorregando para o lado.
—Não tenha medo. Eu não mordo. —Ela deu uma risadinha.
Eu apenas encarei. De perto, eu via o rosto dela com clareza. Os lábios brilhavam com alguma coisa; o rosto tinha cores diferentes. Os lábios se mexiam como se ela estivesse comendo algo sem engolir. Talvez estivesse mastigando carne dura.
—Como você está se sentindo agora?
Mantive o olhar preso nos lábios dela, que continuavam se movendo.
—Qual é o seu nome?
Eu não sabia se respondia ou se continuava ignorando. Era a primeira pessoa que eu via além da minha família. Eu não sabia como falar com ela.
“…Ninguém lá fora é seu amigo. São todos inimigos esperando para te atacar no minuto em que você baixar a guarda…”
As palavras da Mae atravessaram minha mente. Eu não tinha percebido o quanto aquilo era verdade até ver aquela garota me atacar. Engoli a raiva e forcei as palavras para fora.
—Eloise —eu disse, quase inaudível. Mas a garota estranha pareceu me ouvir mesmo assim.
—Ah, você fala. Que ótimo. Uau… ahm… meu nome é Tina. Na verdade, Thomasina, mas não estamos mais nos anos 80, ninguém usa isso…
Eu a observei continuar falando e rindo. Ela podia parecer estranha, mas não parecia que iria me machucar. Meu corpo começou a relaxar.
—Desculpa, eu fico tagarelando sem parar. —Ela riu. —Então, Eloise, como você foi parar na fronteira de Thornwood? Um Hollowborn estava te perseguindo? —O rosto dela ficou sério ao dizer a última palavra.
A única palavra que eu entendi foi Thornwood. Era onde todos os lobisomens viviam. Eu tinha estudado o mapa de Thornwood várias vezes com a Mae na biblioteca, e tinha cada lugar gravado na memória.
—Hollo…gons? —Eu não sabia o que aquilo significava. Só pareceu confundir a garota estranha. Ou a Tina.
— Hollowborns. Byron encontrou você correndo na floresta perto da fronteira de Thornwood. Você desmaiou no instante em que ele te pegou, então ele trouxe você para cá. Isso foi há três dias — ela explicou.
Tudo o que ela dizia só me deixava mais confusa. A última coisa de que eu me lembrava antes de desmaiar era uma dor inimaginável. Eu definitivamente não me lembrava de correr pela floresta na minha forma humana. E eu fiquei inconsciente por três dias?
— Você não se lembra de nada disso? — perguntou ela.
Balancei a cabeça de leve.
— Oh, Santo Graal! Isso é ruim — ela arfou.
Bem quando eu ia perguntar o que ela queria dizer, a porta se escancarou e outra pessoa entrou. Ele também usava roupas estranhas, quase parecidas com as da garota. Mas, ao contrário dela, o rosto dele não estava pintado com cores esquisitas; tinha uma expressão estoica, dura.
Tina se levantou de supetão quando ele entrou, com um ar alarmado.
— Meu lorde, ela acabou de acor—
— Poupe a explicação, Thomasina. Os Altos Lordes querem ver a garota — disse o homem, com uma voz áspera.
Tentei não me encolher com a dureza do tom, tão parecido com o de meu pai. Tina assentiu e me lançou um olhar cheio de pena. Estendeu a mão para mim, para que eu me segurasse.
Eu não entendia o que estava acontecendo, mas a expressão no rosto do homem me fez obedecer. Eu me perguntei se ele era o Christopher para quem minha família queria me entregar. Talvez eles finalmente tivessem conseguido quando eu perdi a consciência.
Tina me puxou para fora da cama. A mão dela era surpreendentemente firme apesar do porte delicado. Ela com certeza tinha algum treinamento. Talvez fosse uma guarda. Mae tinha me contado que existiam guardas mulheres em Ferndall, a capital de Thornwood.
Nós três saímos do quarto enorme, com o homem assustador na frente. Ao atravessarmos os corredores, vi mais pessoas — algumas andando com armas presas ao corpo.
Cada pessoa por quem passávamos parava e se curvava. Eu tinha lido que reverências eram para gente muito importante. Talvez Christopher fosse um Alfa, ou um Beta, ou alguém importante.
Mantive a cabeça baixa o tempo todo e tentei não chamar atenção. Parecia estar funcionando, porque mal olhavam para mim.
Por fim, paramos diante de duas portas gigantes. O homem — ou Christopher — empurrou as portas e as abriu. Eu arquejei ao ver quantas pessoas havia lá dentro.
Todos se viraram para mim, com expressões variadas. Alguns estavam curiosos, outros irritados; outros não demonstravam preocupação alguma.
Passei o olhar pelo salão, gravando cada rosto na memória. Nem percebi que Tina tinha soltado minha mão até vê-la cair de joelhos, a cabeça abaixada.
Só então ergui o rosto e vi três homens sentados no que pareciam tronos. O do meio tinha o cabelo tão escuro quanto a noite; os outros dois tinham cabelos dourados e prateados, respectivamente.
De repente, fui empurrada por trás e forçada a me ajoelhar. Rosnei, furiosa, e lancei um olhar de ódio para quem me empurrou. Era o homem que tinha vindo com Tina e comigo.
O homem de cabelo escuro foi o primeiro a falar.
— Há três dias, você foi encontrada na floresta, na fronteira de Thornwood, por lorde Byron Wesley, dos Shadowborn, durante uma caçada aos Hollowborn. Você foi trazida para a Fortaleza do Dragão, onde descobrimos que você não é da nossa espécie. Explique-se.
Mantive o olhar fixo no chão e tentei entender o que ele dizia. Os ensinamentos da minha irmã e o conhecimento que eu tinha adquirido na biblioteca de casa pareciam escapar de mim.
O lugar inteiro ficou em silêncio, todos me encarando. Naquele momento, eu não queria nada além de desaparecer.
— O que você é? — perguntou o homem de cabelo dourado.
Essa pergunta eu sabia responder. E, se estavam me perguntando aquilo, significava que meus pais não tinham me trazido para cá. O homem atrás de mim definitivamente não era Christopher. Mas, se eu lhes dissesse a verdade, talvez me mandassem de volta para Thornwood.
— Uma lobisomem — eu disse, o mais alto que consegui.
Um coro de suspiros se espalhou ao meu redor. Suspiros de choque e desprezo. Arrastei o olhar pelo salão, confusa com a reação.
Pisquei quando a compreensão me atingiu. Fortaleza do Dragão. A lembrança de quando eu tinha encontrado um livro sobre Dragões veio de supetão à minha mente.
“...dragões são criaturas egoístas que acham que são melhores do que todo mundo. Eles caçam os da nossa espécie por esporte. Eles são monstros, Eloise...” Mae tinha me dito naquele dia.
E eu tinha proclamado, feito uma idiota, a minha natureza para eles. Eu não precisava que me explicassem. Pelo jeito dos três homens nos tronos, eu já sabia: eu estava morta.
