Trono de Garras (Livro um: série O Reino Amaldiçoado)

Trono de Garras (Livro um: série O Reino Amaldiçoado)

Leah Flores · Atualizando · 168.3k Palavras

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Introdução

Todo mundo diz que o amor é o sentimento mais forte do mundo. Que você é capaz de fazer qualquer coisa por quem ama.

Eu não concordo.

Não existe emoção mais forte do que a traição. É uma arma poderosa, capaz de fazer você fazer qualquer coisa, ser qualquer coisa.

Principalmente quando essa traição vem das pessoas que você colocou acima de todo o resto.
.
.
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Trancada a vida inteira, Eloise só desejava uma coisa: liberdade para correr por aí em sua forma transformada, como os outros lobisomens. Mas, quando chegou seu aniversário de dezoito anos, disseram a ela que ela ia se casar. A notícia despertou sua loba, e ela começou a se transformar. Eloise foi pega de surpresa quando sua família usou magia de bruxa para aprisionar a loba dentro dela. A magia que forçaram para dentro de seu corpo foi intensa demais, e ela desmaiou.

Quando Eloise recobrou a consciência, já não conseguia sentir a loba dentro de si. Mas isso se tornou o menor dos seus problemas quando percebeu que não estava mais entre os seus — ela estava em meio a dragões. Criaturas que caçam os da sua espécie por diversão.

Deram a ela uma única escolha para escapar da execução: precisava aprender a usar sua magia instável para curar os metamorfos dragões de uma terrível praga.

Traída pela própria família e sem nenhuma outra opção, Eloise se matriculou no Colégio Drakmor, onde precisa sobreviver a provas mortais e ao ódio dos estudantes ao seu redor.

Uma lobisomem em meio a seus inimigos mortais. Ela vai sobreviver e voltar em segurança para os seus, ou vai sucumbir aos horrores de Varethin?

Capítulo 1

Eloise

Eu odeio tudo.

Odeio a mim mesma, a minha vida e o mau humor em que minha irmã estava.

Desviei bem a tempo de evitar o golpe da espada de madeira. Dei alguns passos para trás e girei. Mas, bem quando eu ia arranhá-la com a minha espada, ela se agachou e acertou meu joelho com força. Caí no chão com um gemido dolorido.

— E assim, você morreu. — disse Mae, enxugando o suor da testa com as mangas da túnica.

Ela virou as costas para mim e foi até o ponto de água. Eu resmunguei, furiosa, forçando meu joelho machucado a me colocar de pé, mas doía demais.

Mae estava de mau humor, mesmo sem dizer nada. Eu moro com minha irmã há dezoito anos, mas ela não compartilha tudo comigo.

— Eu não entendo por que a gente treina tão pesado todos os dias se somos só nós quatro. Não é como se alguém viesse aqui. — falei, arrastando os pés na direção dela.

O rosto dela ainda estava tenso de preocupação, mas eu sabia que era melhor não perguntar. Eu nunca devia fazer perguntas. Aprendi isso do jeito mais difícil no dia em que perguntei ao meu pai por que eu nunca tinha permissão para sair da nossa mansão.

Maevyth se encostou na parede, com o copo vazio na mão. Fechou os olhos e respirou devagar.

— Guerreiros não treinam só quando há perigo. Eles treinam para o caso de surpresas. — respondeu.

Não me lembro de muita coisa da minha infância, mas sei que eu sempre estava sozinha no escuro. Cresci conhecendo apenas três pessoas. Meus pais e minha irmã mais velha. Eu costumava achar que era assim que as coisas deviam ser. Que existiam apenas quatro pessoas no mundo inteiro.

Minha irmã era minha melhor amiga. Nossos pais mal falavam comigo. Eles nunca me quiseram. Eu era o “erro”. Eles amavam minha irmã e a alertavam para ficar longe de mim. Minha família corria para dentro da floresta em suas formas transformadas, mas eu nunca tinha permissão para ir com eles. Achei que era porque eu ainda não tinha idade para me transformar, até que começaram a me proibir até de sentar à mesa para as refeições.

Mae costumava entrar escondida no meu quarto todas as noites. Ela me ensinou tudo o que eu sabia. Como falar, como dançar e como lutar. Nós lutávamos com todo tipo de arma. Espadas, adagas, armas de fogo e venenos. Ela dizia que estava me preparando para quando eu finalmente saísse para o mundo.

Sempre que eu perguntava por que meus pais nunca me deixavam sair, ela dizia que eles estavam me protegendo da dureza do mundo real.

Acho que o treinamento pesado de Mae significava que a proteção tinha acabado. Principalmente com o meu décimo oitavo aniversário chegando em poucas horas.

— Não vai ter surpresa nenhuma. Eu vou passar pela minha primeira transformação como qualquer lobisomem e correr na floresta, do jeito que eu vejo você fazer toda manhã. Finalmente vou poder sentir o sol no meu corpo, e não só vê-lo pela janela. — disse eu, já animada só de pensar.

Para mim, transformar-se significava liberdade para finalmente ser eu mesma. Liberdade era uma coisa que me foi negada desde o nascimento. Eu mal podia esperar para me tornar uma lobisomem como o resto da minha família. Talvez, assim, eles finalmente me aceitassem.

Mae me encarou com admiração nos olhos e bagunçou meu cabelo.

— Sua imaginação é selvagem. — ela riu, baixinho.

— Você me fez ler todos aqueles livros enormes da biblioteca. Eu li em algum lugar que o sol pode conceder poderes. — retruquei.

Mae jogou a cabeça para trás e riu.

— Ah, minha querida Eloise! Que livros são esses que você anda lendo?

Franzi as sobrancelhas, confusa com a expressão divertida dela. Mae sempre insistia para eu ler todos os livros que eu via. Ela dizia que o maior poder estava escondido nos livros, que você pode descobrir qualquer coisa se ler o suficiente. Quando não estávamos treinando, ela fazia a gente passar todo o tempo na biblioteca.

— É errado ler esses livros? — perguntei.

— Não. Nunca é errado ler, irmã. — Ela segurou meu rosto com delicadeza. — Mas o poder da leitura está em saber qual informação você pode transformar em arma e qual deve ignorar. As mentiras nos livros são tantas quanto a verdade.

Assenti, já gravando as palavras dela na memória. Ela suspirou e se aproximou mais de mim.

— Lembre-se disso, Eloise. Ninguém lá fora é seu amigo. Todos são inimigos esperando para atacar no instante em que você baixar a guarda. Use todas as armas à sua disposição para destruir seus inimigos antes que eles destruam você. Sempre dê o primeiro golpe.

“Ninguém vai me atacar na floresta, Mae. Você disse que ficaria comigo o tempo todo.”

Mae sorriu, o rosto toldado de tristeza. Parecia que lágrimas iam se formar nos olhos dela, mas ela as enxugou num gesto rápido. Um nó se apertou no meu peito. Eu odiava ver minha irmã preocupada comigo.

— Eu não vou estar sempre lá para te proteger, Eloise. Quero que você saiba que sempre pode se proteger sozinha. Você é poderosa. E é minha irmã. Lembre-se de que eu te amo. — A voz dela falhou na última palavra, e ela me abraçou com força.

Eu a abracei de volta, apesar da minha confusão. Ela se afastou e se levantou.

— Está quase na hora do seu aniversário. Precisamos ir antes que o pai fique bravo. — Todo vestígio de vulnerabilidade sumiu do rosto da minha irmã quando ela estendeu a mão para mim.

Eu a peguei e me puxei para ficar de pé. Saímos da área de treino. As mãos de Mae se apertaram em torno da minha enquanto atravessávamos os corredores. Entramos na sala de estar, onde meus pais estavam sentados, solenes.

Meu pai tinha uma expressão severa, enquanto minha mãe parecia devastada. Os dois se endireitaram quando entramos. Os olhos do meu pai se endureceram em mim; eu me escondi sutilmente atrás de Mae, caso ele ficasse com raiva e gritasse.

Eu odiava quando ele gritava.

Mae me puxou para mais perto, quase de modo protetor, enquanto nos sentávamos numa cadeira. Eu não sabia para que era aquela reunião, mas desejava que já tivesse acabado. Eu preferia o treino pesado de Mae a isso.

— Eloise, querida, há uma coisa que precisamos te contar — começou minha mãe, a voz levemente trêmula.

— Um homem vem te buscar hoje. O nome dele é Christopher — acrescentou meu pai.

Olhei para minha irmã, confusa, e depois para meus pais.

— M... me buscar? — sussurrei.

Mae ficou completamente imóvel ao meu lado, mas não disse nada.

— Ele quer se casar com você — disse meu pai.

Casar. Eu sabia o que aquela palavra significava. Ele ia me levar embora para sempre, e nós viveríamos como meus pais. Juntos.

Uma sensação estranha percorreu minhas veias e eu percebi que era pânico. Eu já tinha lido sobre isso, mas nunca tinha sentido antes. Não assim.

— Por quê?

— Ele vai te levar daqui e... — Eu soube o que ele ia dizer antes de terminar.

— Vocês não me querem mais, então vão me dar embora — eu disse, com a voz surpreendentemente firme apesar da emoção forte dentro de mim.

Outra coisa pareceu despertar com a presença daquele sentimento novo, e ergueu a cabeça. Eu sabia que era a minha Loba, a liberdade que eu sempre quis, mas eu não me senti animada como esperava. Eu me senti com raiva.

— Não, Eloise. Não é...

— Vocês não me querem!

Eu não sabia se fui eu que gritei ou a coisa dentro de mim. Tudo se intensificou. Minhas emoções, as vozes deles, os cheiros, e o medo.

Mae se afastou de mim num salto, assustada.

— Ela está se Transformando — disse ela, com a voz em pânico. — Mas ainda não é o aniversário dela...

— As emoções dela estão desencadeando a Transformação — retrucou minha mãe, ríspida.

— Por que vocês não me querem?! — gritei de novo. Senti meus pés se erguerem do chão, minha raiva aumentando dez vezes.

— Temos que parar a Transformação. Maevyth, me dê sua mão! — gritou meu pai. Ele já não soava severo; soava assustado.

— Eu não consigo, pai — ouvi Maevyth soluçar. — Ela é minha irmã.

Eu me aproximei dela, querendo enxugar suas lágrimas, mas fui arremessada para trás por alguma coisa, ou alguém. Foi então que percebi que minha família estava atrás de uma linha que eu nem tinha visto eles traçarem.

— Maevyth! — minha mãe gritou para ela.

— Eu não consigo! — ela gritou de volta, chorando sem controle.

Meu pai a agarrou e a sacudiu.

— Ela não é sua irmã, Maevyth. Ela nunca foi sua irmã. Precisamos parar a Transformação, ou tudo vai estar arruinado. Tudo, Maevyth!

Mae assentiu, como se entendesse. Eu ainda estava tendo dificuldade para entender o que estava acontecendo. Mas quando quis perguntar, percebi que não conseguia falar.

Mae deu as mãos aos nossos pais e, juntos, os três se viraram para mim, como guerreiros daqueles livros de figuras que Mae costumava me mostrar.

Lágrimas escorriam pelo rosto dela quando ela disse:

— Lembre-se de que eu te amo, Eloise.

Foram as últimas palavras que ouvi antes de uma dor inimaginável cortar meu crânio de repente. Eu gritei de agonia, mas a dor era forte demais. Os gritos da minha irmã se apagaram ao fundo enquanto tudo ficava preto.

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