Um Ano Para Arder

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Black Barbie · Concluído · 168.9k Palavras

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Introdução

Eu era ingênua, grata por migalhas de gentileza, cega para a podridão por baixo da superfície. Achei que tinha encontrado um lar. Em vez disso, fui direto para o inferno. E paguei por esse erro... com a minha vida.

Venessa Gordon foi incriminada por um assassinato que não cometeu e executada antes que a verdade pudesse sequer respirar. Mas a morte não foi o fim — foi uma punição embrulhada em misericórdia.

Devolvida ao mundo com uma última chance, Venessa tem um ano para reescrever o próprio destino, expor a escuridão que a destruiu e impedir uma guerra destinada a consumir tudo.

Se falhar, a alma dela e sua loba serão lançadas no vazio eterno.

Mas mesmo que ela consiga...

o destino vai permitir que Venessa viva tempo suficiente para ver o fim?

Capítulo 1

POV da Venessa

Abri os olhos, desorientada e confusa. Meus pensamentos pareciam lentos, envoltos numa névoa que eu não conseguia dissipar. Uma dor de cabeça fraca pulsava nas têmporas, mas logo começou a diminuir. O que estava acontecendo comigo?

Até instantes atrás, eu devia estar bem, mas agora tudo parecia errado. O mundo ao meu redor tremeluzia com uma familiaridade sinistra, uma sensação assombrosa de déjà vu que embrulhou meu estômago.

A areia áspera enterrava nos meus joelhos enquanto eu estava ajoelhada no chão; minha pele ardia sob camadas de poeira, ferimentos e sangue seco. Ao meu redor havia guardas, meio transformados em suas formas de fera, os olhos brilhando de agressividade, prontos para atacar.

Eu era a inimiga deles?

Vasculhei minha mente, desesperada, atrás de uma resposta, mas não havia nada. Só confusão — uma confusão pesada, antinatural. Algo lá no fundo de mim gritou para eu me mexer, e foi o que eu fiz.

Eu corri.

No instante em que meus pés bateram na terra, eles vieram atrás — rosnados e grunhidos ecoando às minhas costas. O pânico arranhou minha garganta. Por que estavam me perseguindo? O que eu tinha feito? Relâmpagos de memória dançavam na minha mente, fragmentados e turvos, espalhados demais para fazer sentido.

— Ei! — alguém gritou, seguido de mais rosnados.

Os guardas estavam perto; as garras deles batiam pesado no chão da floresta. Eu forcei minhas pernas a correr mais, com o coração martelando. Eu não sabia para onde estava indo, só sabia que precisava escapar.

Então, crash.

Duas árvores enormes tombaram bem na minha frente, bloqueando o caminho. Eu derrapei e parei, ofegante, encurralada. Antes que eu conseguisse pensar por onde passar, os guardas já estavam em cima de mim. Contra todo instinto, eu caí de joelhos, levando as mãos para trás da cabeça em rendição.

Algemas frias de prata se fecharam nos meus pulsos, queimando minha pele. Eles me arrastaram de volta para onde eu tinha fugido — de volta ao mesmo círculo de hostilidade e sede de sangue.

E então, ela apareceu.

A voz dela cortou o barulho como uma lâmina. Ela abriu caminho entre os guardas e parou bem na minha frente. Meu coração se apertou quando o rosto dela entrou em foco: Luna Jalisa.

As lembranças desabaram sobre mim de uma vez.

FLASHBACK

Eu estava de joelhos de novo, com os pulsos bem amarrados atrás de mim. O mundo ao meu redor parecia abafado, como se eu estivesse debaixo d’água. As vozes da multidão vinham distorcidas, ecoando em algum lugar distante. Então, de repente, o ar invadiu meus pulmões, e o mundo voltou ao foco.

Os rostos dançavam diante de mim — familiares e selvagens, retorcidos de ódio. Eles pareciam menos gente e mais monstros enquanto gritavam:

— Executem ela!

Era o dia da minha execução.

Luna Jalisa estava entre eles, vestida de preto, chorando de forma dramática enquanto o amante a segurava junto ao peito. As mãos dela repousavam protetoras sobre a barriga inchada, enquanto ela clamava por justiça.

A multidão me xingava, exigindo a minha morte. Eu olhei em volta, procurando ao menos um rosto misericordioso — mas só vi fúria e condenação. A única pessoa que poderia ter impedido tudo já não estava ali. Morta. E eu é que estava levando a culpa pelo assassinato dele.

— Executem ela! Executem ela! — eles rugiam.

Os carrascos me forçaram para baixo. Meus joelhos afundaram na terra, e eu ergui a cabeça para ver Jalisa me observando, fria, triunfante. Ela caminhou devagar na minha direção, saboreando minha derrota.

Ela queria que eu sumisse havia tanto tempo. Eu era um incômodo, um obstáculo que ela precisava remover. E agora, finalmente, ela tinha conseguido o que queria.

Jalisa se agachou na minha frente, os dedos segurando meu queixo para levantar meu rosto. Os olhos dela brilhavam de satisfação, e um sorriso cruel curvou seus lábios.

— Você foi burra e ingênua demais para achar que podia vencer, Venessa — ela sussurrou. — Olha em volta. Como é a sensação de saber que essas são suas últimas respirações?

Então ela me acertou — a mão estalando forte contra minha bochecha.

Ela deu um passo para trás e ergueu um dedo trêmulo na minha direção, as lágrimas escorrendo pelo rosto numa dor perfeitamente teatral.

“Espero que você queime pelo que fez. Meu filho vai crescer sem pai por sua causa!”, ela gritou.

A raiva queimou por dentro, atravessando o meu medo. Se eu tivesse a chance de fazer tudo de novo, eu não pouparia ela. Eu a faria pagar — e revelaria o verdadeiro assassino. Ela não era nenhuma Luna enlutada; era um monstro usando a tristeza como máscara.

Quando o carrasco ergueu a lâmina, eu levantei o olhar para o céu e clamei à Deusa por misericórdia, por redenção, por mais uma chance.

E então tudo ficou escuro.

FIM DO FLASHBACK

As lembranças me atingiram como uma pancada, deixando meu coração disparado. Quando minha visão voltou a focar, eu estava de volta ao presente — de volta ao instante antes da minha primeira morte. Luna Jalisa estava diante de mim, a expressão oscilando entre confusão e cálculo.

Então era verdade.

Eu tinha sido mandada de volta.

De volta ao exato momento em que eu tinha sido presa por invasão. A cena se desenrolou exatamente como antes, detalhe por detalhe.

“Se comporta, Venessa. Estamos sem tempo”, alertou minha loba, Nyla, dentro da minha mente. O tom dela era gelado. Nós duas estávamos.

Não havia mais espaço para emoção. Minha cabeça estava clara, e meu propósito, mais afiado do que nunca. Eu tinha recebido uma segunda chance — um ano para desmascarar Jalisa e o amante dela, encontrar o verdadeiro assassino e reescrever o destino que tinha me condenado.

“Olha pra mim”, ordenou Jalisa.

Eu ergui a cabeça devagar, lutando para conter o rosnado que crescia na minha garganta. Essa mulher tinha roubado tudo de mim — minha reputação, minha vida, meu futuro. Se eu não tivesse descoberto o caso dela, talvez ela tivesse me deixado viver. Mas agora eu era a inimiga dela, e ela nem imaginava que eu tinha voltado.

Antes que eu conseguisse falar, uma voz conhecida me paralisou.

“Não machuquem ela.”

Aquele cheiro. Aquela voz. Meu coração tropeçou dentro do peito.

Alfa Denzel.

Meu companheiro.

Ele deu um passo à frente, a presença dele impondo respeito, o olhar afiado e indecifrável. Eu já sentia o peso cruel do destino se apertando ao meu redor — eu estava sendo forçada a reviver cada momento excruciante.

“Por que você correu?”, ele perguntou, com a voz firme, mas dura. Eu não consegui encarar os olhos dele.

“Você é burra?”, Jalisa cuspiu, antes que eu respondesse.

Um golpe acertou a nuca da minha cabeça, e eu caí no chão com força. A dor explodiu no meu crânio, e minha visão embaralhou.

“Não faça isso de novo”, Denzel advertiu o guarda, num tom frio. O homem murmurou um pedido de desculpas e recuou.

O olhar de Denzel voltou para mim. “Por que você correu?”, ele perguntou de novo.

Eu me obriguei a me erguer, mantendo a cabeça baixa. “Eu fiquei com medo”, sussurrei.

Silêncio. Só o vento e as batidas do meu coração preenchiam o ar. Eu lutei contra a atração inebriante do cheiro do meu companheiro, trancando a dor no meu peito. Aquele vínculo tinha sido a minha ruína uma vez. Eu não podia deixar que ele me destruísse de novo.

“Qual é o seu nome?”, Denzel perguntou, enfim. “E por que você invadiu nosso território?”

Eu já sabia o que dizer; eu tinha vivido essa cena antes.

“Meu nome é Venessa Gordon”, eu disse. “Eu sou uma loba solitária. Eu estava viajando com a minha mãe quando licantropos nos atacaram. Ela… ela não conseguiu sobreviver. Eu mal escapei.”

Um suspiro coletivo percorreu a multidão ao ouvir a palavra licantropos. Eles eram tudo o que os lobisomens temiam — mais rápidos, mais fortes, implacáveis. Predadores que a natureza tinha aperfeiçoado de forma cruel.

“Ela é problema, Alfa. A gente devia expulsar ela daqui”, veio a voz familiar e venenosa do Beta Tyrell Henry.

Eu cerrei os punhos. Traidor.

Denzel balançou a cabeça. “Não. Nós não abandonamos quem não consegue se defender”, ele disse, repetindo a mesma frase misericordiosa que eu já tinha ouvido antes.

“Além desta fronteira fica o reino do Rei dos Lobisomens”, ele continuou. “Se você voltar, não vai sobreviver. Fique aqui, jure lealdade a mim, obedeça às nossas leis e você terá a minha proteção. Caso contrário…” A voz dele endureceu. “Invadir território é punido com a morte.”

A decisão foi tomada por mim, como antes. Só que, desta vez, eu sabia o que precisava fazer.

Eu ficaria.

Eu sobreviveria.

E eu não falharia de novo.

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