Capítulo 1

BOLO

Eu sempre fui de briga. Desde a infância, quando eu respondia aos valentões com os punhos. Sempre amei violência, sempre desejei, e fazia de tudo pra garantir que eu socasse alguém.

Não é de se estranhar que hoje eu esteja no ramo de espancar gente por dinheiro. Não é de se estranhar que eu seja boa pra caralho nisso também.

“Nome?” Um homem gordo e careca rosna, atravessando a fumaça pesada do charuto.

“Belva”, digo, ajeitando minha bolsa, fazendo minhas coisas tilintarem umas nas outras.

Ele anota meu nome no livro, levanta o olhar e o arrasta devagar pelo meu corpo.

Bufa.

“Algum problema?”

“Você tem certeza de que quer lutar, garotinha?” O sotaque mexicano dele é carregado e debochado.

Se não fosse pelo fato de eu ter aprendido a deixar passar insultos sobre o meu tamanho, esse gordo desgraçado estaria comendo meus punhos.

Mas, do jeito que é, eu gosto de deixar o meu trabalho falar por mim.

“Você é pago pra falar?”

Ele solta uma risada chiada. “Você vai contra a Punhos de Ferro. Espero que já tenha escolhido seu caixão. Vai ser o seu funeral.”

“Eu tô morrendo de medo pra caralho.”

Eu me afasto da mesa bem na hora em que ele pega um microfone e berra nele.

“Na luta de hoje à noite, temos a impiedosa e queridíssima Punhos de Ferro!”

Do outro canto do ringue, uma mulher parruda surge, vestida de preto e com tranças bem apertadas. Ela comanda a plateia com os punhos, e eles enlouquecem, a sede de sangue subindo até o teto.

Ela nem olha pra mim quando entra no ringue, os músculos ondulando sob os refletores.

“E desafiando nossa campeã, vinda das ruas de… eu não faço a menor ideia. Uma salva de palmas pra Belva!”

A plateia fica em silêncio, e alguém tosse.

“Isso é uma piada?” ouço uma voz atrás de mim, nas arquibancadas.

“Ela é pequena pra caralho”, diz outra pessoa.

“A Punhos de Ferro vai comer ela viva.”

“FAÇAM SUAS APOSTAS, PESSOAL!”

Eu largo minha bolsa ao lado do ringue. Tiro o moletom e enfio as mechas soltas no rabo de cavalo, ajeito a máscara que sempre cobre meu rosto e calço minhas luvas de boxe.

“Eu não tenho a porra da noite toda, princesa.” Punhos de Ferro se apoia nas cordas, o sorriso torto zombeteiro.

“Ainda bem que eu não preciso da porra da noite toda”, rebato e me deslizo pra dentro do ringue.

“Garotinha de boca grande, hein. Mal posso esperar pra quebrar.”

O gongo soa.

Punhos de Ferro não perde tempo indo pro ataque. Ela soca e chuta, e os golpes passam longe de mim enquanto eu desvio. Nos balanços selvagens dela, a precisão é péssima, mas, com aquelas mãos enormes e carnudas, acho que ela nem precisa.

Um único golpe pode achatar meu crânio.

Então eu fico longe, leve nos pés, todos os músculos firmes e secos do meu corpo vibrando de adrenalina. Como o Luca diria: “Estuda o seu oponente primeiro, Bolo. Não entra numa briga às cegas.”

“Para de dançar e luta!” Punhos de Ferro rosna, errando meu olho por um triz.

A multidão ao nosso redor enlouqueceu de vez, pedindo meu sangue, gritando pra campeã quebrar meu pescoço.

Eu desvio de mais alguns golpes mortais, finalmente satisfeita com o que já sei da minha oponente. Puxo o ar, planto os pés no chão e ataco numa brecha.

Ela é rápida, mas arrasta os pés; não tem mira, mas tem força; e deixa o lado esquerdo aberto demais.

Meu punho acerta a carne sob o queixo dela com um estalo nauseante que parece vibrar pelo ringue inteiro.

A cabeça de Punhos de Ferro chicoteia pra trás, os olhos viram, e ela cai como um pedregulho gigantesco.

O silêncio é imediato e ensurdecedor. As pessoas se levantam, e, além das luzes, eu vejo o rosto do gordo desgraçado, branco feito papel.

Ele me subestimou. Erro de novato.

Com um sorriso largo e triunfante, eu faço uma reverência debochada pra plateia e salto por cima da corda de cima, caindo no chão.

Recobrando a noção, o desgraçado agarra o microfone. “Essa foi a última luta da noite, pessoal. Que reviravolta inacreditável hoje.”

O ar estoura em indignação, mas isso não é problema meu. Agora é pegar meu dinheiro e cair fora.

Eu enfio minhas coisas na bolsa enquanto eles carregam uma Punhos de Ferro inconsciente pra fora. Foi só um soco. Literalmente.

Que campeã patética pra caralho.

Eu caminho sem pressa até a mesa onde o gordo está ocupado contando dinheiro e distribuindo pros vencedores — um zelador e um bêbado do caralho.

Espero até ele terminar antes de estender a palma da mão. E o desgraçado ainda tem a audácia de olhar pra mim como se nunca tivesse me visto na vida.

— Não brinca comigo — eu aviso.

Ele dá de ombros.

— A luta acabou cedo demais. Você não tem parte.

— Eu derrotei o seu campeão — rosno. — Tenho direito à metade.

— Você não me disse que sabia lutar. Você ganhou sob falsos pretextos. Some daqui, Belinda.

Falsos pretextos?

Minha raiva acende rápido, como um fósforo. Filho da puta.

— É Belva. — Cerro os punhos. Antes que eu possa avançar nele, duas sombras aparecem ao meu lado. Mãos firmes se fecham nos meus cotovelos e me erguem do chão.

— Filho da puta! — eu grito, com os pés balançando, impotente, no ar. — É bom você contar os seus dias, desgraçado!

Sou arremessada pra fora como um trapo, e a porta é batida na minha cara. Eu me levanto sem fazer alarde. Crescer brigando nas ruas me ensinou uma coisa ou duas. Então eu sei muito bem como lidar com ladrões.

Eu espero.

Dez minutos. Vinte. Tempo suficiente pra eles acharem que eu fui embora; então eu arrombo a fechadura e entro de novo, garantindo que minha máscara ainda esteja no lugar, cobrindo o rosto.

Eu tinha visto o escritório dos fundos quando entrei e vou direto pra lá.

As trancas cedem fácil e, em um minuto, eu já peguei a minha parte no armário deles, e nada além disso. Eles não merecem a minha decência, mas eu não sou ladra.

Ao sair, estou prestes a fechar a porta quando outro cara passa apressado por mim e entra. Ele não me dá a menor atenção, e eu também não estou nem aí.

Pelo histórico deles, imagino que provavelmente devem pra ele também.

Dou de ombros e continuo andando. Estou quase na saída quando o ar explode com tiros.

Viro bruscamente e dou de cara com uma parede dura de calor e músculo. Nossas bolsas caem com um baque, e nós dois mergulhamos nelas. Quando voltamos a ficar de pé, nos encaramos com cautela.

Ele está usando uma máscara preta; os olhos dele são tão esquivos quanto os meus, escuros e afiados, me avaliando num piscar.

Eu me planto onde estou, pronta pra atacar se ele respirar errado perto de mim.

Mas ele não faz nada; como se nem me considerasse uma ameaça, desvia o olhar, virando em direção às vozes abafadas e aos tiros que vêm pelo corredor estreito.

Os olhos dele se estreitam e, sem dizer uma palavra, ele dispara pro outro lado — e por mais que eu odeie estranhos, eu sigo. Ele roubou deles. Eu aposto todos os meus ganhos que ele não vai se deixar pegar. Depois de alguns minutos ziguezagueando entre sombras, saímos por uma porta de serviço.

O homem não perde tempo: corre até a cerca de arame farpado e começa a escalar. Eu vou junto, enquanto a porta atrás de nós se abre.

— Eles estão ali! — alguém grita, e essas desgraçadas começam a atirar na gente.

As balas zunem perto da minha cabeça enquanto eu sigo o ladrão até o topo da cerca. Mas quando eu vejo a queda longa no meio da escuridão, eu freio na hora.

A ideia de virar purê no asfalto me prende no lugar.

Como se já não bastasse minhas únicas opções serem virar peneira de bala ou virar carne de atropelamento, o estranho já está se preparando pra soltar do outro lado.

Quando ele percebe que eu parei, me olha com uns olhos tão planos e escuros quanto o céu da noite atrás dele. E por um segundo, eu acho que ele vai me jogar aos lobos.

Em vez disso, a voz dele sai num ronco surpreendentemente grave:

— Confia em mim.

Palavras assim já foderam tanta gente. Eu seria burra de sequer tentar.

Mas então ele estende uma mão, como se a gente fosse amigo.

Outra bala zunindo perto da minha cabeça, e eu suspiro.

Não é uma noite boa pra virar carne de asfalto. Mas eu topo arriscar.

Eu agarro a mão enluvada dele, deixando o aperto firme me puxar pro outro lado.

— Solta — ele diz.

Em total incredulidade comigo mesma por colocar minha vida nas mãos de um estranho, eu solto a cerca.

E eu não morro, porra nenhuma.

Eu afundo num colchão inflável e pulo de pé.

— Puta merda.

Do outro lado, os homens estão xingando e praguejando, os cachorros latindo furiosos. Mas eles não vêm atrás da gente.

Eu olho pro estranho que acabou de salvar a minha vida, meu coração ainda martelando nos ouvidos, e faço um aceno de agradecimento.

Ele responde levantando a palma da mão, e eu bato nela num high-five esquisito. O olhar dele fica em mim por um longo segundo antes de ele recuar.

Eu faço uma saudação com dois dedos, ajusto a bolsa e disparo numa corrida. Por cima do som dos meus passos, ouço as botas dele batendo no chão na direção oposta.

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