Capítulo 3

BOLO

  Estou sentada no banco de trás do SUV da Eliana, olhando pela janela enquanto ela reclama.

  — Tipo, quem faz isso? — ela se enfurece, com a voz suave e incapaz de passar de um certo tom. — Como é que eu vou conseguir experiência de trabalho sem ser contratada?

  Murmuro em concordância, com a mente ocupada pensando para onde a bolsa de dinheiro poderia ter ido.

  Isso está começando a me fazer pensar que o sonho realmente aconteceu e que o estranho foi embora depois com o dinheiro.

  Mas eu sei que isso é impossível. Ninguém entrou no apartamento, e ninguém poderia ter me fodido sem que eu soubesse também.

  Minha mãe provavelmente pegou o dinheiro. Ela deve achar que está muito mais seguro nas mãos dela. Vou ter que perguntar quando ela chegar do trabalho.

  — Você está me ouvindo, Bel?

  Pisco, afastando meus pensamentos e virando a cabeça.

  — Sim. Eles são idiotas.

  — Exatamente — ela resmunga, enquanto uma mecha cacheada do cabelo loiro-acobreado cai sobre o rosto.

  Nós duas estamos vestidas com terninhos idiotas e saltos ridículos. Para uma entrevista tão inútil quanto as outras.

  Eliana tinha nos feito praticar perguntas que eles nem sequer fizeram.

  — Um deles viu meu carro e me perguntou sobre ele. Eu disse que tinha sido um presente do meu pai, e eles não acreditaram em mim. Dá para imaginar?

  Não, não dá. Eu não tenho um pai rico que me dá tudo o que eu quero. As únicas coisas que eu tenho em meu nome são minhas luvas de boxe, máscara, vibrador e diário — três das quais agora sumiram.

  Mal consegui terminar o ensino médio, me enchi da faculdade depois de um ano e batia nas pessoas por dinheiro.

  Os entrevistadores nem se deram ao trabalho de disfarçar o desprezo.

  — Queremos alguém inteligente, com mestrado em administração.

  Em outras palavras: não queremos você, então cai fora… e foi o que eu fiz.

  — Deus, a gente precisa relaxar. — Eliana tira o casaco e o joga para trás, ao lado do meu. — Eu conheço o lugar perfeito.

  Ela se inclina para a frente e toca no ombro de Javier. Ele olha para ela pelo retrovisor.

  — Leve a gente para o clube La Belle, por favor — ela sorri docemente.

  — Ainda nem é meio-dia — ele diz, com a voz áspera como cascalho.

  — Não existe hora certa para beber — acrescento com um sorriso malicioso que eu sei que ele odeia.

  Desde que conheci Eliana durante minha breve passagem pela faculdade, Javier está ao lado dela. Um guarda-costas/motorista pessoal que leva o trabalho a sério demais e às vezes consegue ser um verdadeiro estraga-prazeres.

  Mas ele não é de todo ruim; naquela época, me ensinou umas coisas sobre computadores e praticamente me incluiu na proteção da Eliana.

  — É cedo demais — ele resmunga, com os olhos fixos na estrada.

  — Vamos tomar só um drinque — Eliana faz beicinho, e o cenho franzido dele diz que não acredita.

  — Não.

  Alguns minutos depois, o carro para em frente a um clube de aparência luxuosa. Javier está com uma expressão azeda quando descemos.

  — Um drinque só — ele diz.

  Nós damos risadinhas enquanto entrelaçamos os braços e respondemos em uníssono:

  — Sí, Javier.

  Ele resmunga alguma coisa em espanhol rápido e assume seu posto atrás de nós, movendo-se como uma grande parede de sombra.

  O clube é puro cordão de veludo, luzes douradas e cheiro de perfume caro.

  — Vamos começar essa festa — diz Eliana, deslizando para dentro de um reservado. Javier assume seu posto a poucos passos dali, e eu me ofereço para ir buscar as bebidas.

  — Dois dirty martinis, por favor — digo ao barman, apoiando-me no balcão. Enquanto espero, arregaço as mangas e solto o cabelo do coque apertado, sentindo a tensão ir embora dos meus ombros.

  O barman empurra as bebidas pelo balcão, e eu vou pegá-las quando uma mão agarra meu braço direito como uma morsa.

  Ergo os olhos, com fúria neles, e o mundo para.

  Um homem está me encarando de cima, usando um terno cinza-escuro que parece custar mais do que o meu prédio inteiro. O cabelo escuro está perfeitamente arrumado, o rosto é marcado e absurdamente bonito. Mas os olhos…

  Eu conheço aqueles olhos do caralho. Opacos e escuros como o céu noturno.

  Meu coração dá um solavanco no peito.

  É ele. O ladrão e o homem do meu maldito sonho erótico.

  Minha pele de repente se incendeia com a lembrança, e um calor suave vibra entre minhas coxas.

  Vejo o instante exato em que ele me reconhece, o rápido lampejo de surpresa antes de se transformar em raiva.

  — Você, sua ladrazinha! — ele sibila, puxando meu braço para a frente e virando meu pulso para revelar minha pequena tatuagem em letras gregas. O aperto dele é firme, a pele quente contra a minha, e eu arranco a mão do alcance dele na mesma hora.

  — Eu não sou ladra.

  — Então onde está o meu dinheiro?

  — Eu não sei. Não estou com ele.

Pelo canto do olho, vejo Javier avançando na nossa direção como uma nuvem de tempestade. Ele entra com suavidade na minha frente, a postura mudando para o modo proteção.

— Temos algum problema?

O homem nem pisca. Ergue uma sobrancelha, olha por cima do ombro de Javier e me encara diretamente.

— Sai da frente — ele ordena.

— Não.

— Eu não tenho nada com você. Estou aqui pela garota dos olhos diferentes.

Javier cruza os braços.

— Ela está comigo.

Um cara bem mais jovem aparece ao lado do ladrão, vestido com a mesma elegância, e nos avalia.

— Algum problema, chefe?

Chefe?

— Essa é a ladrazinha que roubou meu dinheiro.

— Eu não roubei seu dinheiro. — Dou a volta em Javier, a voz tensa de raiva, os punhos cerrando. Com esses saltos, tenho um metro e setenta, mas esse cara me supera como se eu tivesse um metro e nada.

Mas eu sei muito bem onde acertar, porra.

Sinto o olhar questionador de Javier em mim, mas não desvio os olhos do rosto daquele homem.

— As nossas malas foram trocadas por engano e, quando eu acordei hoje de manhã, o dinheiro tinha sumido.

Ele solta uma risada de deboche.

— Você está me dizendo que dez mil dólares simplesmente desapareceram no ar?

— Sim, é exatamente isso que eu estou dizendo, porra.

— Tenho certeza de que você não é surdo, senhor. Agora vai se foder.

— Tudo bem, Javier. — Toco o braço rígido dele.

O outro cara ao lado do homem dá um passo à frente, com um sorriso lupino.

— Se eu fosse você, teria cuidado com o jeito de falar com o Don da máfia Vescari.

Meu sangue gela na hora.

A máfia Vescari?

Esse ladrão lidera uma máfia?

Parece que Javier tem uma reação parecida, porque recua um pouco. É quando Eliana se aproxima, mas ele estende a mão para impedir que ela chegue mais perto.

— Vou perguntar uma última vez. — O olhar do homem me atravessa. — Cadê o meu dinheiro?

Ergo o queixo, sem a menor intenção de me deixar intimidar ou enxotar. Lutadores nunca arregam.

— E eu já disse que eu não tenho essa merda.

— Então você vai me pagar, ou eu vou matar todo mundo que você ama.

As palavras saem calmas, quase casuais.

Dou uma risada sem humor.

— Não me ameaça, seu filho da puta.

— Eu sou Nico Vescari. Eu não faço ameaças. E também não tolero ladras mentirosas.

— Se a gente for ser sincero, o ladrão é você, porra. E o que aconteceu foi um engano. Então não vem com essa merda. Eu não tenho dez mil, porra nenhuma.

— Então você não me deixa escolha. — Os olhos dele escurecem e eu vejo a promessa ali; e, por trás da minha raiva, percebo que não vou conseguir convencer esse homem da verdade.

Pelo que eu ouvi sobre a máfia, eles são todos assassinos de sangue-frio. A ideia da minha mãe com uma bala na cabeça me dá calafrios.

— Tá bom, então. Eu vou te pagar — cuspo, com o orgulho em chamas. — Cada centavo. Só me dá tempo.

Ele se aproxima, passando por Javier, que observa em silêncio. Aqueles olhos escuros e opacos caem em mim como caíram no meu sonho, e ele sorri de canto como o diabo.

— Você tem uma semana. Se não me entregar o meu dinheiro, então vai aceitar a minha proposta.

— Uma semana? Você tá brincando?

— Eu também não brinco. — Um lampejo estranho, escuro, de fascínio atravessa o rosto dele. Ele ergue a mão e traça de leve a linha do meu maxilar; minha pele esquenta na hora. — Você tem duas escolhas. O meu dinheiro ou… você casa comigo por um ano. Depois disso, suas dívidas comigo são apagadas.

As palavras dele ecoam na minha cabeça como sinos. Eu encaro, incrédula, tentando entender quando e onde ele perdeu a porra do juízo.

— Você… quer que eu case com você? — Uma risada sobe pela minha garganta. — Você é completamente maluco.

— Por um ano, sim — Nico repete, o polegar pressionando meu queixo, me obrigando a olhar para ele. — E então você vai embora com dinheiro suficiente pra nunca mais precisar entrar num ringue.

— Vai pro inferno — digo, arrancando meu rosto do aperto dele. — Eu vou conseguir a porra do seu dinheiro.

Nico sorri de canto, as palavras em tom de deboche.

— Você é uma lutadora, Belva. Eu respeito isso. Mas até os melhores lutadores sabem quando estão encurralados.

Javier decide se colocar entre nós, a mão firme no meu ombro.

— A gente vai embora. Agora.

Nico não tenta impedir. Só fica ali, me observando com aquele sorriso de merda no rosto.

Enquanto Javier conduz Eliana e eu até a saída, olho por cima do ombro.

Ele ainda está olhando. Ergue a mão e me faz uma saudação com dois dedos, igual à que eu fiz pra ele ontem à noite.

Eu respondo com o dedo do meio.

— Que porra foi aquilo tudo? — Eliana exige, quando entramos no SUV.

Meu coração ainda dispara, minha pele formigando, em brasa onde ele me tocou.

— Eu não sei.

Mas a última coisa que passa na minha mente enquanto o carro arranca em alta velocidade é o jeito como ele me fodeu com a língua no meu sonho.

Seguro um arrepio. Uma sensação horrível e pesada afunda no meu estômago, do inimigo que eu acabei de fazer.

Que tá tentando, porra, casar comigo.

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